Por João Pedro Mello e Amábili Gomes

Foto: Reprodução / Montagem: João Pedro Mello

Com interpretações que se destacaram dentro de seus respectivos filmes, os indicados a Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Ator Coadjuvante do Oscar 2026 transformam essas categorias em algumas das mais imprevisíveis da cerimônia, aumentando o suspense em torno de quem levará a estatueta neste domingo, 15/03.

Uma Batalha Após a Outra: Feito de coadjuvantes

Na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, um dos nomes que chama atenção é o de Teyana Taylor, que interpreta Perfidia Beverly Hills no filme “Uma Batalha Após a Outra”. A atriz já chegou à temporada de premiações em destaque após vencer o Globo de Ouro em janeiro e agora desponta como uma das possíveis favoritas ao Oscar.

Teyana Taylor como Perfidia Beverly Hills em “Uma Batalha Após a Outra”, 2025. Foto: Divulgação / Warner Bros. Pictures.

No longa dirigido por Paul Thomas Anderson, Taylor dá vida a Perfidia, uma mulher revolucionária que utiliza inteligência e sagacidade para enfrentar o sistema. A intensidade e o carisma da personagem fazem com que sua presença em cena seja marcante, o que torna difícil ignorar o impacto de sua atuação ao longo do filme.

Na categoria de Melhor Ator Coadjuvante, o ator porto-riquenho Benício Del Toro — que já venceu a categoria de Melhor Ator Coadjuvante em 2001, pelo papel de Javier Rodriguez em Traffic: Ninguém Sai Limpo (Traffic, 2000) — aparece novamente na premiação, depois de 25 anos, pelo papel de um sensei de karatê chamado Sergio St. Carlos.

Benício Del Toro como Sergio St. Carlos em “Uma Batalha Após a Outra”, 2025. Foto: Divulgação / Warner Bros. Pictures.

No filme, seu papel se desenvolve como amigo, ajudante de Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) e protetor de imigrantes desamparados. Entre tantas responsabilidades, o personagem de Del Toro sempre segue com a parcimônia e a assertividade de um sensei.

Mesmo com menos de 15 minutos de tela, sua atuação chamou atenção pela leveza e naturalidade. O sensei sempre tinha uma resposta, como a que deu aos policiais que o pararam enquanto ele dirigia um carro e perguntaram: “você esteve bebendo?” e ele responde “algumas cervejinhas”. O diálogo, que pode parecer simples, contém a essência do personagem, segundo Del Toro.

Em uma entrevista ao Letterboxd, o ator diz que um sensei nunca mente, por isso ele minimiza as cervejas para “algumas cervejinhas”. Ele ainda acrescenta que, quando seu personagem dança para os policiais, sua intenção foi tranquilizar os oficiais sem perder a autenticidade. “Foi uma forma de fazer os policiais perceberem que eu estava cooperando de todos os jeitos, mas ainda mantendo meu individualismo”, explica Del Toro.

Já Sean Penn é figura carimbada em grandes premiações. Com 6 indicações ao Oscar na carreira, é o candidato com o cartel mais premiado da categoria de Melhor Ator Coadjuvante neste ano. O norte-americano tem 2 estatuetas como Melhor Ator por Sobre Meninos e Lobos (Mystic River, 2003) e Milk: A Voz da Igualdade (Milk, 2008).

Sean Penn como Steven J. Lockjaw em “Uma Batalha Após a Outra”, 2025. Foto: Divulgação / Warner Bros. Pictures.

Dessa vez, Sean Penn deu vida ao antagonista do personagem de Leonardo DiCaprio (Bob Ferguson), um militar chamado Steven J. Lockjaw que almeja entrar no círculo íntimo de um grupo de supremacistas brancos.

Com trejeitos firmes e exagerados, esse papel busca satirizar a figura autoritária que faz de tudo para conquistar o que quer — inclusive apagar qualquer coisa que possa manchar seu retrospecto e impedir que se sente à mesa junto aos outros supremacistas. É um personagem essencial para a trama e para o tom sarcástico do filme.

Pelo renome prévio do ator e pela demonstração de repertório extenso nesse papel, tão diferente do usual em sua carreira, Sean Penn é tido como um dos favoritos à estatueta. Tendo vencido prêmios que o consolidam, como o BAFTA 2026, The Actor Awards 2026 e Vancouver Film Critics Circle Awards 2025, todos na categoria de Melhor Ator Coadjuvante.

Além disso, o jornal The Hollywood Reporter fez um levantamento com base em pontuação em críticas, premiações anteriores e números no mercado de apostas que apontam o ator como líder na probabilidade de vitória, com 53% de chance.

“Uma Batalha Após a Outra” é feito de atuações de suporte, dos atores e atrizes coadjuvantes. Leonardo DiCaprio tem menos de 1 hora de tempo de tela, mesmo sendo o ator principal do longa. Todos os seus concorrentes na categoria de Melhor Ator têm, pelo menos, 1 hora e 10 minutos de cena.

Essa diferença mostra que a trama principal é descentralizada em múltiplas performances e sustentada por elas no longa. Por isso, além das 3 indicações a atuações coadjuvantes, o filme conta com a atuação de Chase Infiniti, que, apesar de não ter sido indicada, também é muito aclamada.

Os coadjuvantes de Valor Sentimental

As personagens Agnes Borg (Stellan Skarsgård) e Rachel Kemp (Elle Fanning) em Valor Sentimental. Foto: Reprodução

O filme Valor Sentimental, do diretor Joachim Trier, também se destaca nesta edição do Oscar ao conquistar três indicações nas categorias de atuação coadjuvante: Elle Fanning, que interpreta a atriz Rachel Kemp; Inga Ibsdotter Lilleaas, no papel da historiadora Agnes Borg; e Stellan Skarsgård, que dá vida ao diretor de cinema Gustav Borg.

Stellan Skarsgård interpreta o diretor de cinema Gustav Borg. Foto: Reprodução.

Gustav é um diretor de cinema que foi ausente durante a criação das filhas Nora (Renate Reinsve) — atriz principal do filme que está concorrendo na categoria Melhor Atriz — e Agnes. A falta de afeto marcou as duas, e a morte da mãe fez com que sentimentos do passado retornassem, abrindo espaço para antigas feridas.

Nora mantém um conflito direto e intenso com o pai, enquanto Agnes lida com essa relação de uma forma diferente.

Muitas vezes, ela acaba se tornando uma espécie de ponte entre os dois. Agnes observa a relação com certa distância, tentando entender os motivos de cada um. Ao mesmo tempo em que sente a ausência do pai durante a infância, também busca compreender as razões que levaram ao afastamento.

A personagem se torna um apoio emocional para a irmã e tenta lidar com os conflitos familiares de forma muito humana e verdadeira. Na atuação de Inga Ibsdotter Lilleaas, isso aparece principalmente nos pequenos gestos, nas expressões e nos diálogos de Agnes, que traduzem sentimentos muito comuns a filhos que cresceram lidando com a ausência e os conflitos dentro da própria família.

O filme de Trier, ao retratar esses conflitos familiares e os objetos e lugares simbólicos para a família, também mostra como a arte pode ser, ao mesmo tempo, uma forma de cura e uma barreira.

É o que acontece com a personagem Rachel Kemp, interpretada por Elle Fanning, que recebe de Gustav a oportunidade de viver uma atriz em um de seus filmes e acaba se deparando com suas próprias limitações.

É quase cômico o modo como Elle consegue interpretar uma atriz que não consegue desempenhar bem um papel, o que, paradoxalmente, reforça ainda mais sua habilidade como atriz. Elle faz de Rachel uma personagem sensível à arte, às emoções e, principalmente, observadora em relação a Gustav e às suas filhas.

Valor Sentimental conta com atores coadjuvantes que são indispensáveis. A atriz principal, Renate Reinsve, interpretando Nora, convive com esses personagens, e todo o sentimentalismo do filme é construído a partir desse conjunto de relações. Trier consegue mostrar as falhas e particularidades de cada personagem sem ofuscar nenhum deles.

Pecadores e a força dos atores coadjuvantes

Wunmi Mosaku e Michael B. Jordan interpretam o par romântico Annie e Fumaça, em “Pecadores”. Foto: Reprodução.

Com recorde de indicações neste Oscar, “Pecadores” também não fica de fora dessa disputa. O filme, dirigido por Ryan Coogler, aparece nas categorias de atuação coadjuvante com Wunmi Mosaku, indicada a Melhor Atriz Coadjuvante por interpretar Annie, e Delroy Lindo, indicado a Melhor Ator Coadjuvante pelo personagem Delta Slim.

Annie pratica hoodoo — prática mágica de origem africana que utiliza ervas e óleos para rituais — e tem um papel fundamental no longa. Se não fosse por ela, seu par amoroso na história, Fumaça (Michael B. Jordan), provavelmente não conseguiria sobreviver aos vampiros, já que ela o protegeu com um amuleto.

Wunmi Mosaku constrói uma personagem de presença forte no filme e mostra como Annie é essencial para a trajetória dos protagonistas, sendo uma das primeiras a reconhecer os vampiros.

Ao mesmo tempo, a personagem também revela seu lado mais sensível, marcado pela dor da morte de seu filho, o que traz ainda mais força e emoção para a atuação da atriz. A presença negra da personagem, como uma mulher com saberes espirituais e sensível a isso, mostra a importância de Wunmi para o filme.

Delroy Lindo, que já teve grandes atuações coadjuvantes — como em Malcolm X (1992), por exemplo — volta a se destacar em “Pecadores” com o personagem Delta Slim. No longa, ele interpreta um idoso alcoólatra, sagaz e muitas vezes responsável pelo alívio cômico da história, construindo um personagem que mistura humor e experiência.

Em um primeiro momento, Delta Slim parece não ter tanta importância na trama. Mas, com o passar do filme, a atuação de Lindo vai revelando as camadas do personagem. É ele quem percebe e incentiva o talento do jovem Sammie e, mais tarde, quando o garoto se sacrifica, é Delta quem garante que ele leve seu violão com ele.

Nesse momento, a atuação de Delroy ganha ainda mais força, sendo um dos responsáveis pela preservação do instrumento e do dom do garoto Sammie.

A Hora do Mal e Amy Madigan

Com uma quebra de um hiato de mais de 40 anos, o maior de todos os tempos, Amy Madigan quebra recorde e volta a ser indicada ao Oscar na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante. Com presença fria, controlada e psicológica, a atriz se destaca pelo papel de Tia Gladys.

Amy Madigan como Tia Gladys em “A Hora do Mal”, 2025. Foto: Reprodução.

Muito diferente da interpretação que lhe rendeu a primeira indicação, em 1985, pelo drama Duas Vezes na Vida, Madigan é indicada pelo filme A Hora do Mal, um terror que conta sobre o desaparecimento de 17 crianças que fugiram de suas casas espontaneamente durante a madrugada.

Durante a investigação pelos desaparecimentos, Tia Gladys se sobressai como principal suspeita e a personagem de Amy Madigan se torna a principal antagonista do filme. Nesta temporada de premiações, essa performance já garantiu o Critic’s Choice Awards de Melhor Atriz Coadjuvante, vitória que coloca a atriz como uma forte concorrente à mesma categoria no Oscar.

A importância dos personagens secundários para a narrativa

Os papéis de apoio em um filme são essenciais para sustentar o equilíbrio emocional e dramático. São esses personagens que fazem os principais existirem. São os vilões que fazem os heróis, assim como são os coadjuvantes que muitas vezes se sacrificam pela vida do personagem principal.

Com os filmes indicados ao Oscar 2026, ficou evidente que os personagens coadjuvantes, mesmo com poucos minutos de tela, presença silenciosa ou performances que roubam a cena, são quem garantem que a história se desenvolva.

Nos filmes mais aclamados, um ator ou atriz de suporte — mesmo aqueles sem indicações — desempenha uma função necessária, que assegura a presença dessas grandes produções na premiação. Mas, para além disso, esses artistas destacam papéis que nem sempre são observados com detalhes.

Em um ano como esse, com tantas performances de alto nível, não há dúvidas de que essas duas categorias serão disputadas por atrizes e atores que merecem prestígio pelo bom trabalho. O importante é acompanhar o Cine Ninja na premiação, dia 15/03, para ficar por dentro de tudo.

_

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.