As tragédias provocadas pelas chuvas em Minas Gerais não podem ser tratadas como fatalidades inevitáveis. Eventos extremos existem, mas a dimensão da destruição — e, principalmente, o número de vidas perdidas — está diretamente relacionada às escolhas políticas feitas antes que a água caia. Quando o Estado reduz sua capacidade de prevenção, o resultado aparece em forma de lama, desabrigados e mortes que poderiam ter sido evitadas.

Nos últimos anos, a redução dos recursos destinados à prevenção de desastres e à estrutura de resposta do poder público tornou Minas mais vulnerável. Menos orçamento significa menos monitoramento, menos obras preventivas, menos planejamento urbano e menor capacidade de agir rapidamente quando o risco se transforma em tragédia. São decisões silenciosas, tomadas no papel, que só ganham visibilidade quando a catástrofe já aconteceu.

O problema se agrava quando o discurso oficial minimiza ou ignora a gravidade das mudanças climáticas. O negacionismo não é apenas uma opinião: ele orienta prioridades e influencia a forma como o governo organiza seus investimentos. Ao negar ou relativizar a crise climática, o poder público deixa de preparar cidades e comunidades para eventos que já são uma realidade cotidiana. Chuvas mais intensas, deslizamentos e enchentes não são mais exceção — são parte do novo normal.

E esse novo normal tem cor e endereço. As maiores vítimas quase sempre são pretos e pretas, trabalhadores pobres que vivem nas periferias, em encostas ou às margens de rios, justamente onde o Estado historicamente falhou em garantir infraestrutura e segurança. Quando a prevenção é negligenciada, são essas pessoas que pagam o preço mais alto. A desigualdade social transforma o desastre climático em tragédia humana. O racismo também se manifesta nesse processo.

Diante do cenário atual, o caminho imediato é claro: o governo estadual precisa recompor os valores destinados à defesa civil e ampliar os recursos para que ela possa atuar agora, quando a tragédia já se instalou. É necessário garantir equipes, equipamentos, abrigos, assistência e reconstrução digna para quem perdeu tudo. A resposta emergencial precisa ser rápida e robusta.

Mas isso não basta. A recomposição do orçamento voltado à prevenção é tarefa inadiável. Não se trata apenas de reparar danos, mas de impedir que eles se repitam. Investir em prevenção significa salvar vidas antes que o desastre aconteça. Significa mapear áreas de risco, realizar obras estruturais, fortalecer os sistemas de alerta e construir políticas habitacionais que retirem famílias das zonas mais vulneráveis.

As mudanças climáticas não esperam discursos ideológicos. Elas se impõem diariamente, mostrando sua força e cobrando um preço alto da sociedade. Governar exige reconhecer essa realidade e agir com responsabilidade.

Negar a crise climática não impede que ela exista. Apenas aumenta o número de vítimas. E, quando vidas poderiam ter sido protegidas, o negacionismo deixa de ser uma posição política — passa a ser uma escolha com consequências reais. Um ato criminoso.

Andreia de Jesus (PT) é advogada popular e deputada estadual, vice-presidenta da Comissão de Direitos Humanos.