O Capitalismo Mafioso de Trump ou Maduro veste Nike
Trump transforma a invasão da Venezuela em espetáculo: saqueia petróleo, viola soberanias e converte guerra em meme, consumo e dominação simbólica.
A divulgação da imagem de Nicolás Maduro, algemado e vendado, envolto em um casaco cinza Nike Tech Fleece, não foi um detalhe secundário na invasão da Venezuela pelos EUA em 03/01/2026. Foi a expressão visual da doutrina Trump, baseada em um “capitalismo mafioso”, que fere todas as convenções e acordos internacionais para expropriar o petróleo do país vizinho. A pilhagem geopolítica, brutal e indefensável, encontrou um símbolo irônico e fluido, pronto para ser remixado infinitamente pela lógica do capitalismo digital.
A reação nas redes e plataformas foi instantânea e viral. Usuários apontaram a já batida “contradição” entre o discurso anti-imperialista de Maduro e o uso de um ícone do capitalismo global, a Nike. Piadas sobre marketing de “guerrilha”, comentários celebratórios e difamatórios, editoriais de moda e política seguiram a lógica da overexposição algorítmica, e a imagem foi viralizada e remixada em memes e vídeos, incluindo várias montagens em que Maduro aparece como rapper ou DJ.
A imagem pública de um chefe de Estado é construída sobre signos de autoridade: ternos, uniformes, bandeiras. A “semiótica do poder” é rígida. A foto de Maduro, divulgada por Trump em sua rede social, rompe com esse protocolo para mostrar um corpo vulnerável, vestido para o lazer.
O conjunto esportivo Nike Tech Fleece, associado ao estilo urbano e ao conforto casual, desloca completamente o contexto da violenta captura de Maduro como prisioneiro político, para mostrá-lo — primeiro ato de uma operação simbólica recorrente na retórica trumpista — como a banalidade cotidiana em pessoa.

A imagem de Maduro torna-se a do “cara qualquer” que vai à academia ou ao supermercado. A mensagem é clara: seu poder acabou; agora, você é apenas mais um. A narrativa geopolítica de captura e julgamento é sobreposta por uma narrativa estética domesticada, da mesma forma que Trump declarou ter visto a operação militar e a captura de Maduro “como se estivesse vendo um programa de televisão”.
Extrativismo cognitivo
Os ataques gravíssimos à democracia no continente e no mundo não podem produzir turbulência. O que choca o mundo precisa ser naturalizado por Trump como parte de um menu imperial banal.
Trump banaliza ataques a outros países e violações do direito internacional de forma sistemática: primeiro pelo discurso, governa pelo uso da força e por memes, e utiliza de forma performática as redes sociais e as imagens. Logo após o ataque à Venezuela, Katie Miller, esposa do vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, publicou uma imagem do mapa da Groenlândia, em que a ilha dinamarquesa aparece pintada com as cores da bandeira dos Estados Unidos. As imagens concretizam um extrativismo cognitivo agressivo e ofensivo.
Trump faz a guerra na lógica do extrativismo territorial do petróleo, mas também do extrativismo cognitivo. Imagens geradas por IA constroem um Trump imperial e brutal, retratado como o Papa (vestes brancas, mitra, crucifixo) ou usando uma coroa de rei, em uma paródia de capa da revista TIME sob o slogan “Long Live the King”.

Outro vídeo de IA mostra Trump usando uma coroa e pilotando um jato chamado “King Trump”, que despeja uma substância marrom sobre manifestantes, publicado no dia dos protestos nacionais No Kings, que tomaram as ruas de várias cidades dos EUA e ironizavam seu desejo de onipotência.
Trump aparece ainda como um “God-Emperor” gigante e dourado em um trono, inspirado no jogo Warhammer 40.000, ameaçando opositores políticos. Outro vídeo de IA mostra Trump “salvando” Gaza, com uma estátua dourada sua no cenário.
Mas nada se compara ao vídeo gerado por IA em 05/01/2026, em que Trump aparece de bigode e cabelo no estilo Maduro, autoproclamando-se o novo presidente da Venezuela, falando em inglês e espanhol e invocando “sexy mamacitas, mariachis e drinks de margaritas”.
As imagens de Trump travestido de Maduro são a captura do outro pela caricatura: uma forma de assujeitamento político, arma da guerra cultural, projetada para dominar o ciclo de notícias, humilhar o oponente, inflamar sua base e testar os limites do discurso público.

Mas, como os vírus, os memes “não têm moral” nem destino e podem ser reapropriados ao infinito. As imagens produzidas por IA de Maduro capturado tensionam uma linha tênue entre os que condenam e zombam do ditador venezuelano e os que o enxergam como um DJ ou rapper descolado, uma celebrity pop, um anti-herói.
Outras imagens e memes ridicularizam a “doutrina Monroe” de Trump, sua voracidade pelo petróleo venezuelano, sua persona bufona e sua política de saque — “orange is the new black” — em trocadilhos com a cor do topete e do petróleo.
Commodities narrativas
O deslizamento infinito de sentidos evidencia o quanto a fabricação das imagens é decisiva e prefigura cenários futuros — horríveis demais ou belos demais — que explodem inclusive os clichês. A imagem antecipa e “realiza” os fatos. As imagens são fábricas de fatos desejáveis ou a serem exorcizados e entram, pelas plataformas, na disputa de sentidos, desejos e mundos.
Nos grupos de WhatsApp, onde a polarização se materializa em memes e mensagens, já não recebo apenas fake news, mas imagens geradas por IA que expressam desejos e afetos de extremistas e democratas, prefigurando sentimentos moldados visualmente. A fábrica das Big Techs também desafia e viola, como Trump, leis e regras nacionais, promovendo conteúdos extremos como laboratório de modulações afetivas e políticas.
Para manter usuários conectados, algoritmos priorizam conteúdos que geram reações fortes — raiva, indignação, deboche, constrangimento — criando câmaras de eco e alimentando a polarização. A economia da atenção mede sucesso pelo viralizar, não pelo informar ou educar. As imagens mais chocantes, falsas ou manipuladas ganham sobrevida nesse modelo de negócio.

Enquanto o petróleo era um recurso para um sistema industrial-militar, as plataformas digitais são o recurso e o próprio sistema — econômico, social, comunicativo e afetivo. As Big Techs já são infraestrutura de poder em um capitalismo de dados e commodities narrativas, vitais para a economia da atenção e a mobilização política no século XXI.
O que aconteceu na Venezuela tem um nome conhecido na América Latina: imperialismo nu, guerra comercial travestida de guerra moral. Os espantalhos mudam — comunismo, narcotráfico, terrorismo — mas o objetivo permanece: assujeitar países e povos pela força para obter vantagens comerciais e geopolíticas.
Essa força se exerce também no campo das imagens, transformando a derrota de Maduro em espetáculo midiático, no qual o prisioneiro de guerra vira garoto-propaganda involuntário de uma das marcas globais mais icônicas dos EUA: a Nike.
A guerra será memetizada
A invasão de outro país viola o direito internacional quando começa com bombardeio e termina com o sequestro de um chefe de Estado — mesmo que ditador — e se agrava com o anúncio de administração do país e expropriação de suas riquezas naturais.
A imagem do corpo capturado de Maduro, envolto em um produto Nike que dispara buscas exponenciais, é o embrulho da operação: a guerra, além de violação, é também merchandising viral.

Trump anunciou que grandes petroleiras americanas vão “investir bilhões” para “consertar” a infraestrutura venezuelana e que a presença militar permanece “até as exigências serem atendidas”. Trata-se de extrativismo armado, uma carta branca para violar soberania e estabelecer saque.
O capitalismo tardio completa seu ciclo quando a brutalidade da pilhagem material se casa com a eficiência da pilhagem simbólica, convertendo o inimigo derrotado em algo humilhante, cool, engraçado e infinitamente repetido — um massacre simbólico acompanhado de impulso de consumo global.
E quando o secretário de Defesa celebra que os EUA desta vez não “pagaram com sangue para não receber nada economicamente em troca”, a máscara cai: a guerra foi vendida como moral e anunciada como negócio.