Não existe romantização possível quando a prisão tem cor
A experiência individual de fé não pode romantizar um sistema prisional marcado pelo racismo, desigualdade e exclusão
A fé pode ser um caminho de reconstrução. Ela acolhe, fortalece e devolve esperança a quem atravessa períodos de profunda dor. Não cabe a ninguém questionar a experiência espiritual de outra pessoa. Mas cabe, sim, questionar quando um relato individual ignora a realidade coletiva de milhões de pessoas.
Ao afirmar que foi “mais feliz na prisão, ganhando 113 euros, do que quando ganhava milhões no futebol”, Daniel Alves talvez quisesse testemunhar sua transformação religiosa. O problema é que, quando essa fala sai da esfera íntima e ganha repercussão mundial, ela deixa de ser apenas uma experiência pessoal.
Ela passa a dialogar com um sistema profundamente desigual e, ainda que involuntariamente, contribui para romantizar um dos espaços mais violentos do Estado brasileiro. Porque a prisão, no Brasil, não é um retiro espiritual. É uma das expressões mais brutais do racismo estrutural.
Nosso país possui uma das maiores populações carcerárias do mundo. Cerca de 68% das pessoas privadas de liberdade são negras. São jovens, em sua maioria, vindos das periferias, marcados pela ausência histórica de oportunidades, pela violência policial e por um sistema de justiça que trata de maneira diferente quem tem dinheiro e quem nasce sem privilégios.
É impossível ouvir essa declaração sem lembrar que, enquanto um homem branco, famoso e milionário encontrou na prisão um momento para reencontrar sua fé, milhares de mães negras atravessam quilômetros todos os fins de semana para visitar seus filhos em presídios superlotados, onde faltam dignidade, assistência médica, trabalho e perspectiva de futuro. Para essas famílias, a prisão nunca significou paz. Significou dor, abandono e sobrevivência.
Há uma diferença profunda entre experimentar o cárcere sabendo que existe patrimônio, visibilidade, advogados e uma vida confortável esperando do lado de fora, e viver a prisão como destino imposto por uma sociedade que insiste em criminalizar a pobreza e a negritude.
A Mangueira sempre cantou aqueles que o Brasil tentou silenciar. Sempre lembrou que a liberdade não pode ser privilégio de poucos, nem o sofrimento pode ser naturalizado para muitos. Nosso samba nasceu da resistência de um povo que conheceu a exclusão muito antes de conhecer qualquer reconhecimento.
Por essas e outras, é preciso ter cuidado com as palavras. Elas constroem narrativas. E narrativas também produzem injustiças. Que a fé continue transformando vidas. Mas que ela jamais sirva para suavizar a realidade de um sistema prisional que escolhe quem prende, quem pune e quem tem direito de recomeçar.
A Mangueira sempre fez do samba um instrumento de memória e denúncia. Cantou os heróis que a história tentou esconder, deu voz às favelas e lembrou ao Brasil que liberdade, justiça e dignidade não podem ser privilégios. É por isso que seguimos dizendo: enquanto a prisão continuar sendo o destino preferencial de corpos negros e pobres, não haverá testemunho individual capaz de apagar essa verdade coletiva.