Não aprendemos nada com a pandemia?

Após o surto do navio causar uma espécie de histeria, as notícias sobre o hantavírus passaram a ser, também, virais.

Por Sabrina Ventresqui

Pouco mais de seis anos atrás, informações sobre um novo vírus na cidade chinesa de Wuhan começavam a dominar os noticiários do mundo. A gente ainda não sabia, mas aquele era o início da pandemia. O que começou como uma “gripezinha” terminou com milhões de mortos pelo mundo e modificou paradigmas da vida em sociedade para sempre.

Avançamos no tempo e cá estamos em 2026. Desta vez, com um novo alerta: um surto de hantavírus em um navio.

As informações ainda são incipientes e, de certa forma, escassas. Os fatos são: cinco casos confirmados e três mortes. Mas ainda há perguntas sem respostas: onde os infectados contraíram a doença? Como? Quando? E os outros casos do navio? Houve transmissão de pessoa para pessoa? Como estão os outros infectados?

Ao contrário da covid-19, que era um mistério, o hantavírus já é conhecido no Brasil desde a década de 1990. Os casos são monitorados pelo Ministério da Saúde. Nos últimos dez anos, houve centenas de casos e mortes. Entretanto, é raro que algum deles ganhe repercussão nacional.

Após o surto no navio e o trauma de quem viveu a pandemia causarem uma espécie de histeria coletiva, as notícias sobre o hantavírus passaram a ser, também, virais.

De repente, surgem casos confirmados no Paraná. Na sequência, uma morte em Minas Gerais, ocorrida há três meses e que só ganhou as manchetes agora.

Num dia, pouco se falava no assunto; no outro, a cobertura sobre o tema se tornou massiva.

Em momentos como este, de insegurança sanitária e de uma sociedade traumatizada, surge um questionamento: será prudente noticiar algumas informações, como essa fatalidade em Minas Gerais?

Como jornalista, entendo que o jornalismo precisou se adaptar e que as notícias passaram a ser publicadas cada vez mais rápido. Mas não é desonesto — talvez até antiético — trazer à tona, em um período crítico como este, uma morte ocorrida há três meses? Isso porque fica a impressão de que a notícia foi orientada pelo engajamento.

Mesmo que haja contexto e que o caso em Minas Gerais não tenha ligação com o surto no navio, é difícil para o imaginário coletivo não relacionar os dois assuntos, especialmente por se tratar do mesmo vírus.

A associação acontece justamente porque, apesar de o fato ter ocorrido meses atrás, o tema só ganhou importância por causa do que está acontecendo no navio. A notícia é verdadeira, mas o timing editorial contribui para que esse conteúdo seja recebido com nervosismo.

Na faculdade, ensina-se que o jornalismo tem como função informar aquilo que é de interesse público e que as notícias são pautadas por uma série de diretrizes.

Seguindo os critérios de noticiabilidade, é necessário questionar: será que uma morte causada por uma doença que já existe, é monitorada pelos órgãos de controle e ocorreu há meses é, de fato, de interesse público neste momento?

Hoje, o jornalismo vive uma fase de pós-verdade em que as instituições midiáticas estão descredibilizadas e enfraquecidas. Dessa forma, esse tipo de conteúdo passa a ser recebido como predatório e sensacionalista, o que só contribui para que a profissão fique ainda mais desmoralizada.

Em muitos veículos, a figura do ombudsman deixou de existir. Na ausência desse olhar crítico interno, cabe aos próprios jornalistas exercer esse papel de autorregulação.

O jornalismo veio para jogar luz sobre temas obscuros, para trazer esclarecimento — não para desinformar a população com falsos alarmismos. Contudo, na busca pela rapidez e pelo furo, parece que a profissão perdeu uma de suas características mais importantes: informar.