Na Avenida do Samba, a resistência abriu os caminhos

Carnaval é resistência preta: fé, samba e luta ocupam a avenida e reafirmam cultura como direito coletivo popular

Na segunda-feira, os blocos caricatos abriram o carnaval de passarela de Belo Horizonte. Como é tradição, desfilaram na Avenida do Samba com garra, enfrentando a lógica dos grandes patrocinadores. Ainda assim, estiveram lá levando cultura ao povo e, sobretudo, contando suas próprias histórias com energia e sorriso no rosto.

O nosso carnaval é um ato político. É quando muitos vestem suas máscaras e fantasias, suspendem por algumas horas a dureza da vida e se permitem viver a magia coletiva.

Por isso, deixo aqui meus parabéns a todos os blocos, especialmente aos blocos afros e periféricos. Tive a alegria de estar em vários deles e testemunhar de perto a força de quem faz da festa também luta — denunciando mazelas sociais, questionando o sistema, sem perder a alegria. Enfrentam desafios que sabemos não serão pequenos neste ano.

Todas as festas populares são direitos humanos, e seguiremos trabalhando para que haja cada vez mais incentivo e reconhecimento. Porque carnaval é cultura e cultura é direito. E reafirmo algo que nunca me canso de dizer: o carnaval é território de fé, de cultura e de resistência do povo preto.

De um lado, o Afoxé Ilê Odara, que há mais de 50 anos abre oficialmente o nosso carnaval com rituais das religiões de matriz africana. De outro, o Leão da Lagoinha, o bloco mais antigo da capital mineira, que há 70 anos mantém o samba vivo na cidade.

Afoxé Ilê Odara: o terreiro que consagra a avenida

O Ilê Odara não é apenas um bloco: é afoxé, manifestação dos terreiros, ancestralidade em movimento. Tradicionalmente, durante o carnaval, o terreiro silencia os tambores e ocupa as ruas, retomando os toques após a Quaresma. O Ilê Odara realiza a lavagem da Avenida do Samba — ritual que consagra o espaço público e abre caminhos para que as escolas desfilem.

Em um país que ainda convive com o racismo religioso e com ataques aos terreiros, cada passo do afoxé é também afirmação política. É dizer que a fé negra não será escondida. Que os atabaques não serão silenciados. Que a cidade também é território de axé.

Como deputada preta e apoiadora dos terreiros, sei o que significa ver o sagrado ocupar a rua com dignidade. Participar da abertura do carnaval por um afoxé é um gesto de reparação histórica e de reconhecimento da contribuição fundamental das religiões de matriz africana para a cultura brasileira.

Leão da Lagoinha: o samba que resiste há 70 anos

Se o Ilê Odara abre caminhos, o Leão da Lagoinha sustenta a memória. Fundado há sete décadas, é o bloco mais antigo de Belo Horizonte. Nasceu na Lagoinha, território histórico do samba e da cultura popular da boemia. Sobreviveu às transformações urbanas, à falta de investimento contínuo e às dificuldades estruturais que atingem os blocos tradicionais.

Nos últimos anos, problemas relacionados à segurança pública e à gestão de conflitos têm impactado as atividades culturais. Mas o samba resiste. Resiste porque não é apenas festa: é comunidade, identidade e pertencimento.

O Leão da Lagoinha carrega gerações de sambistas, famílias inteiras que construíram o carnaval da cidade muito antes da explosão recente dos blocos de rua. Esse reconhecimento se tornou também política pública: é de minha autoria a Lei nº 25.457/2025, que declara o Leão da Lagoinha como de relevante interesse cultural do Estado de Minas Gerais, garantindo proteção e valorização a essa tradição histórica.

O carnaval é político

Carnaval é patrimônio cultural e também ferramenta política de promoção da igualdade racial. É proteção aos terreiros. É valorização do samba. É afirmação do povo preto.

Garantir estrutura, segurança adequada, diálogo permanente e respeito às tradições é obrigação do poder público.

Seguirei defendendo os terreiros, o samba e o carnaval. Porque, quando o afoxé consagra a avenida e quando o Leão da Lagoinha põe o samba da Pequena África na rua, é a história do povo preto desta cidade que continua sendo escrita com fé, com tambor e com coragem.