“Minha missão é dar voz a quem não tem voz”, diz Hugo Ojuara, sambista carioca
Hugo Ojuara viraliza com “Preto Demais” e afirma o samba como arte política e potência da nova geração carioca
Nascido e criado em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, Hugo Ojuara, de 29 anos, é cantor e compositor de samba da nova geração carioca. Veio morar na capital para trabalhar na barraca da família na Praia do Leme, e foi se aproximando das rodas e artistas da cidade. Há quase três anos sua música Preto Demais viralizou e lhe abriu muitas portas, inclusive a recém anunciada trilha sonora de lançamento do documentário do Netflix sobre o jogador de futebol Vinicius Jr.
Como ele mesmo diz, desde então tem suado a camisa e mostrado que o seu talento não se resume a um viral da internet, e sim de um compositor versátil que tem feito diversas canções muito bem recebidas pelo público carioca. Sempre foi do samba, inclusive sob influência de seu pai, compositor de samba enredo, mas revela sua vertente musical mais swingada com Luiz Melodia, Jorge Ben e Farofa Carioca, além de Bezerra da Silva, como grandes influências na sua trajetória. Gosta de misturar samba com rap e funk, fazer música preta, segundo ele.
Outra característica muito forte das suas composições é a política social e racial. Atento ao dia a dia da cidade, canta sobre os desfavorecidos da sociedade. Arte e política andam lado a lado no seu trabalho, e já anunciou que vai lançar um samba novo para as eleições. Neste contexto, ele conversa com a Mídia Ninja sobre a cena do samba carioca, a renovação geracional e o engajamento dessa juventude neste ano eleitoral. Se depender dele, o samba estará nos grandes palcos e casas de shows da cidade, disputando a atenção do público em todo lugar do mercado fonográfico nacional.
Conta a sua história, teve influência familiar para você entrar na música?
Sou nascido e criado em São Gonçalo, Alcântara, região metropolitana do Rio. Ouvia muito disco em casa, aprendi muito com a minha mãe e o meu pai, que é compositor de samba enredo. Muita referência dentro de casa já, nas rádios e reuniões de família sempre voltadas para o samba. Fundo de quintal, Bezerra da Silva, Martinho da Vila, essa galera que pavimentou o samba pra que a gente hoje consiga falar. Depois começo a explorar meus caminhos dentro do samba, sempre com a percussão como fio condutor. Meu pai tinha um pandeiro em casa, que eu levava pra escola. Era uma ferramenta que me fazia socializar com a galera. Através da percussão e do samba comecei a minha história na música, a pesquisar, a buscar o que eu queria para a minha vida. Venho morar no Rio com uma madrinha em Copacabana e começo a frequentar Beco do Rato, Feira da Glória, os sambas do Centro do Rio, a Lapa, que é um grande berço de samba. Ali me entendo enquanto sambista e entro nesse universo, onde você já me encontrou em várias rodas, por exemplo. Depois começo a compor e me encontro enquanto ser humano, encontro um sentido para minha vida. Uma missão mesmo, e daí vou trilhando o meu caminho.
Foi com os Novos Compositores do Beco que se deu essa aproximação mais profissional?
Começo a profissionalização tocando percussão, sem cantar e compor. Já era músico profissional e trabalhava com música. Meu pai me aproximou muito da composição, ele era compositor de samba enredo. Então começo a fazer meus primeiros versos, ele sempre me motivando, foi ele quem juntou o primeiro dinheiro para eu gravar no estúdio o meu primeiro single, que fiz com ele: o Me Deixa Sambar. Depois vem essa galera dos Novos Compositores, um movimento importantíssimo para a nova cena, para que o samba não se acabe e se renove. Foi um berço ali para mim, às quartas-feiras, no Beco do Rato, onde encontrava o Lucas Machado, o [Fernando] Procópio, essa galera que faz acontecer e renova a cena do samba a cada dia. Ali encontro um espaço no mundo, que me dá coragem e me abre uma porta. Mostra que sou capaz de entrar no estúdio, gravar minhas paradas e botar meu som na rua. Vejo que tem muita gente correndo atrás, e me motivou muito. É um coletivo que admiro muito e tenho um respeito imenso. Não é mole fazer, porque todo mundo que faz samba, entretenimento, música, busca o que já vende, já toca e todo mundo já sabe cantar. E aí quando você se depara com um movimento desse, totalmente unido, independente, para exaltar o compositor, é um abraço que o compositor precisa. Sempre que posso eu vou lá.
O vídeo que viralizou de Preto demais foi no churrasco de de aniversário de um amigo, o Cadé [Carlos Farias], que é outro grande compositor do grupo. Tinha feito a música junto com a Fernanda Bastos, que é minha companheira, compositora, era o nascimento da minha filha, uma fase de insegurança para todo ser humano. Tinha um dinheirinho guardado e gravei essa música, que já cantava nas rodas de samba. Costumo compor uma música, levar para as rodas de samba e depois aos estúdios para ver se a galera compra. Ver se a galera responde o refrão, se bate na palma da mão. Levei o Preto Demais para o Samba da Volta, alguns sambas do Centro e outros lugares. Então gravei a música, inclusive o clipe, minha filha tinha dois meses de idade. Lanço a música achando que era o momento dela e ela tem um impacto, mas nada muito surreal. E é nessa resenha que eu canto a música e a Paula Esteves, uma amiga, gravou o vídeo e postou nas redes. No outro dia milhares de mensagens dizendo que o vídeo viralizou na internet. Eu tinha um celularzinho velho, era fora dessas redes sociais, e aí a parada tomou uma proporção muito grande. Começo a investir mais e a mostrar que não era só um vídeo viral e que tinha um trabalho ali por trás: um músico, percussionista, pesquisador, compositor, cantor, e aí começa essa trajetória.

E desde esse momento para agora, isso faz dois anos? Você tem viajado e tocando em tudo que é lugar…
Vão fazer três anos. Foi um divisor de águas, até o momento eu era um músico correria pagando as contas no sufoco, trabalhando como barraqueiro de praia também no Leme com a minha família. Tocava na noite para tentar pagar as contas, e ali abriram diversas portas. A rede social hoje em dia é uma grande vitrine e a partir desse momento muitos trabalhos começam a surgir. Convites de participação ou para fazer a minha roda de samba em vários estados e municípios. Até na Europa fui parar, já cantei no Circo Voador, que era um sonho. Passava pela porta e muitas vezes não tinha nem dinheiro pra entrar, e agora abri um show do Hamilton de Holanda, grande referência da música brasileira. Então essa música me permitiu muitos trabalhos e estar em lugares que sempre sonhei, nunca tinha viajado de avião. Já fui a Brasília, Sul, Bahia, São Paulo, fui parar lá em Barcelona, virou uma coisa que eu não esperava.
A nova geração do samba, que ficou sendo chamada assim no Samba Social Clube, hoje está com mais de quarenta. Você que ainda nem tem 30, como vê o mercado?
Quando tinha uns 19 anos já era fã dessa galera chamada a nova geração do samba, tenho muito a agradecer a ela. Troquei essa ideia com o Procópio nesses dias, falei: a gente é a nova geração da nova geração do samba. Isso tem que ser documentado, porque a gente está fazendo história de alguma forma. Temos músicas relevantes para a sociedade e para o nosso segmento, a arte brasileira em geral e a música preta periférica brasileira. Tem um movimento novo, o Matheus Pessanha, o DG [Douglas Lemos], Amanda Amado, mulheres incríveis também no samba, Bel Barbosa, Marcele Motta, que já era da nova antiga geração. Então, fico feliz em poder agregar, de alguma forma, com a minha arte, pra esse movimento, sabe? Fui criado nesse meio e poder colaborar para essa nova geração é uma maravilha.
Tive que batalhar muito pra poder tocar em casa. Tive que fazer um evento meu e minha banda, encontrei dificuldade em ser um artista novo e ser abraçado por casas e espaços de samba. Criei a festa Ramal 7 para minha banda tocar em algum lugar. Tive que fazer minhas próprias rodas de samba na rua. O cara só tem moral quando atinge certo status e fura certa bolha, tá ligado? Consegui mas tive que trabalhar bastante e fazer muita coisa própria, então esse é o recado: faça tua própria festa e som, só assim você mostra que é foda e tem um trabalho maneiro, consolidado e as pessoas dão valor. A verdade é que a galera só acolhe quem é medalhão, quem já tem uma moral, já tem um status. O cara vai contratar quem traz público, quem ele tem certeza que vai dar lucro. Por que é negócio, né? Não é porque ele ama a arte desse cara, envolve dinheiro, venda de ingressos, cerveja etc.
O vídeo estourou de uma forma inesperada, as redes sociais se tornaram inevitáveis? Como você pensa a profissionalização, ter uma equipe, investir no corre?
Não tem como fechar os olhos ou virar as costas para as novas tecnologias, pelo contrário: todo mundo tem que surfar essa onda. Antigamente, um artista periférico, preto, suburbano, para lançar alguma parada, precisava que um produtor conhecesse o trabalho dele. Tivesse a sorte de que, quando entregasse uma fita, o dono da gravadora ouvisse e assinasse um contrato. Hoje qualquer pessoa pode produzir seu próprio material e lançar na internet. Óbvio que tem diversas coisas não tão boas, mas vejo isso como um grande ponto positivo. E temos que estar sempre se adaptando. Você tem a oportunidade de ter um portfólio ali, dinâmico, ao vivo. Favorece muito o nosso trabalho. Ficamos um pouco refém, mas é o avanço tecnológico. Não tem pra onde correr, tá ligado? O cara vai fechar um trabalho, porque tem um Instagram bonito, bem apresentável, com vídeos que mostram o trabalho.
Nunca tive muito esse intuito de viralizar, era um cara meio desligado e quando viralizou vi que podia aproveitar e surfar essa onda. Não sabia, não fiz curso nem nada, fui aprendendo a cada post, vídeo e troca com os seguidores a como lidar com a minha rede. Todo artista novo tem que se ligar nessa parada, porque o mundo é isso hoje. Não existe mais entregar uma fita para o dono de uma gravadora. Tem que ter um bom material ali para apresentar. O cara que é compositor tem que ser um pouco artista, um pouco blogueiro, saber se vender de alguma forma. E as redes estão aí de forma quase que gratuita para gente vender a nossa arte, nosso trabalho.
Mas explica melhor a sua relação com o mercado, como você monetiza o seu trabalho, digamos assim?
A galera da antiga diz que antigamente o cara mudava a vida com uma música num disco de um artista famoso, por exemplo. Entrar uma música no disco do Zeca e comprar um apartamento, um carro, sabe? O compositor era muito mais valorizado no quesito dinheiro, mas aí tem valores e valores, né? O cara ganhava uma prata, mas também era um anônimo. Às vezes o cara fazia uma obra de arte, e ninguém sabia que a música era dele. A música virava a música do artista que cantava. Hoje o compositor ganha muito menos, estava fazendo um cálculo nesses dias: 0,004 centavos de dólares a cada play, então o cara tem que fazer milhões de plays para ganhar um pouquinho. É injusto nessa questão do valor financeiro, mas ao mesmo tempo temos espaço para mostrar as nossas músicas. O cara que é só compositor, não tem um trabalho de cantor, é chamado pra fazer show porque tem diversas composições que tão na boca do povo e tal. Hoje em dia pra viver de composição é quase impossível, por isso que tantos compositores têm investido na carreira e cantado suas próprias músicas, sabe? Só assim, de alguma forma, você consegue se sustentar. Desde o começo, não queria que as minhas músicas fossem gravadas por outras pessoas, queria também mostrar o meu jeito. Se outro artista quiser gravar, beleza. Coisa linda, dar uma outra roupagem, maravilha. Mas essa música aqui foi feita por esse compositor que também é um artista e tem uma arte para mostrar, uma interpretação.

Antes de entrar na sua música, que bombou e é política, acha que existe a necessidade do artista se posicionar politicamente ou não?
Vir de São Gonçalo e botar a minha cara, fazer uma roda de samba com mulheres tocando, falar de negritude, já é um ato político, sabe? Tem muito artista que não entende isso ou prefere seguir outro caminho. Tenho todo o respeito, mas a minha arte anda lado a lado com a política social e racial. Toda política que envolve o ser humano, o povo preto, periférico. É a minha história, sabe? Vim de um lugar onde o pobre era muito pobre, onde muita gente não tinha acesso a muita coisa. Quando chego em Copacabana para curtir uma praia já é um ato político, sabe? Quando eu bato de frente com uma madame que segura a bolsa quando estou caminhando no calçadão, isso me gera uma revolta e me traz uma poesia totalmente política. E nessa, milhares de pessoas se identificam.
Tudo o que fiz foi seguir o que o meu coração mandava. Muitas vezes segui a minha raiva, o acontecimento que me deixou angustiado ou triste, e transformei em poesia. Gonzaguinha fazia isso muito bem, o Bezerra da Silva, que gravou os compositores do morro. Quando ele dá voz a esse povo, que não tem voz na sociedade, já está fazendo política. A minha missão é sempre dar voz a quem, de alguma forma, não tem voz. O morador de rua, que é invisível, como a minha música para os barraqueiros, camelôs e ambulantes. É uma massa que toma porrada da guarda municipal aí todo dia, tá ligado? E ninguém fala, então se eu puder na minha música e poesia falar dessa galera, eu vou falar. Quando eu falo Preto demais, tô contando uma história real de todo dia. Infelizmente, essa música é atemporal.
Poderia ser um recorte de uma época, mas não, ela é um problema que persiste e persegue a nossa sociedade. Pra mim, o samba e a música são ferramentas muito fortes de militância e política. Nosso povo tem pouco espaço para poder imprimir a sua revolta, a sua luta. Se não fosse o samba e a arte, quem iria me ouvir? Precisei pegar o cavaquinho, criar uma boa melodia, uma boa harmonia e um bom enredo para poder tocar na ferida da sociedade. Então, pra mim, música e política andam lado a lado sempre.
Como é que tua inspiração brota, seu método de composição?
Está muito ligado ao que eu vejo e vivo. É um rolé, uma bicicleta levando minha filha na escola, uma andada na praia, ida ao mercado. Gosto muito de andar, às vezes dou uma caminhada para ver a rua e isso me alimenta. Se você reparar, todas as minhas composições têm histórias do cotidiano. Em uma entrevista o Altay Veloso, grande compositor de São Gonçalo, uma grande referência pra mim, falou: a música passa voando em cima da nossa casa, ela escolhe a de algum compositor e desce. Bate na porta, e se o compositor estiver pronto para recebê-la, a música é dele. Se estiver disperso com outra coisa, a música vai voltar a voar e vai pra casa de outro. Às vezes a inspiração vem e você tem que estar pronto para recebê-la. Entender os sinais externos. Todas as vezes que sentei e falei: agora vou escrever um samba, raríssimas vezes saiu. Geralmente vejo algo que me desperta e não deixo passar batida a ideia. Já aconteceu de eu ir dormir e e perdi. Tem que entender os sinais e cair para dentro. O resto desenvolvi na carreira com ritmo, melodia, harmonia e tal, técnicas que com a experiência vão melhorando.
Nas últimas eleições muitas rodas falaram de política e a música do Xande, que virou “manda o Bolsonaro embora”, virou um hino nas rodas. A galera vai se mobilizar, essa sua geração tá consciente do que está em xeque nas eleições deste ano?
A galera tem cada vez mais se embasado e envolvido. Não tem como você ser sambista, um movimento totalmente da negritude, que veio da África, da Bahia, de Tia Ciata, Clementina e Pixinguinha, e defender ideais de direita. É uma coisa meio óbvia, apesar de não ser pra muita gente. Tem gente que bate na palma da mão, canta macumba, e tem um pensamento ideológico contra. Não tem como, o samba é preto, periférico, é do gay, da mulher. O samba é do povo, não tem como distanciar. Não tem como ser a favor de machismo. São eleições e a gente quer um programa para o preto. A galera mais nova tem procurado estar mais por dentro dos assuntos, porque há um tempo atrás era aquele famoso isentão, o cara que não quer se meter e tal… A galera tem procurado se envolver sim e eu sempre vou bater nessa tecla. Não é partido político, é política social e racial. O samba veio lá atrás militante, político, e nalgum momento faz aquela vaselina para estar no mercado, mas a galera tem cada vez mais falado o que sente e quer que mude e evolua. Inclusive, estou fazendo um samba aí pras eleições que a galera vai ficar doida.
Como é que estão as perspectivas dos seus projetos, estratégias, planejamento…
Tenho trabalhado imensamente para mostrar que não sou só um artista viral da internet e que tenho uma pesquisa de música, percussão, repertório, composição, de canto. O meu plano é que eu alcance posições maiores, que eu possa cada vez mais transitar em vários ambientes, mostrar a minha arte fora e conhecer todo o Brasil. Porque a roda de samba fica sempre num lugar desvalorizado quando você vai ao festival, numa tendinha ali fora do palco principal. A pequenos passos a gente vai caminhando e defendendo a bandeira do samba. Ah, não pode sentar em roda, tem que ser forma de palco? Tá bom, a gente faz. Ah, tem que ter instrumentação? A gente faz, a gente é música. Porque fica sempre nesse lugar de sambinha, de tendinha. Somos isso também, mas precisamos mostrar a nossa arte no palco principal. A minha luta é essa. É muito importante que a gente esteja em palcos de teatro, além de estar na rua fazendo roda de samba, que é muito importante para o nosso segmento. Nos grandes shows das grandes casas, a gente não só faz uma resenha, a gente faz show, pô.
A gente mostra a nossa arte através do samba. Meu sonho é levar o samba para esse patamar, como o rock e o sertanejo são. Em dezembro de 2025 lancei meu álbum, vou gravar um audiovisual agora e vou trazer uma sofisticação musical. Porque é todo mundo profissional, a galera estuda muito, lê partitura, toca pra caralho. O meu diretor musical faz faculdade de arranjo na Unirio e está fazendo samba. Colocar a carreira nesse lugar de respeito, as pessoas falarem: pô, esse cara aí é foda de música e ele é do samba. E trazer geral comigo, tá ligado? Porque não se faz música sozinho, a gente tem que vir forte na cena com um bonde pesadão, como foi com o Zeca, a Beth Carvalho, o Fundo de Quintal, o Martinho, o Arlindo. O Raça Brasileira, aquele disco que revelou Jovelina, Zeca, Elaine Machado, Pedrinho da Flor, revelou grandes nomes. O samba ganha força com o coletivo e espaço no mundo. Óbvio que já tinha fundamento e história pra caralho, mas mercadologicamente falando, sabe? A minha ideia é que o holofote esteja virado para a gente também, sacou?