Irã se mantém líder geopolítico e impede vitória dos EUA e Israel

Resiliência frente sanções é uma complexa estratégia de adaptação interna, diplomacia pragmática e coesão institucional

“Os Estados Unidos ainda não aprenderam que intimidar e quebrar promessas não são mais impunes”, abordou uma postagem no X. “Deixe-me ser claro: se você atacar, você apanhará” . Ele é Mohammad Bagher Ghalibaf, um importante negociador iraniano e presidente do parlamento, afirmou que a pressão dos EUA não levará a lugar nenhum.

Essas palavras traduzem o espírito e protagonismo iraniano em tempos revoltos de guerra e pressão, resistindo como líder regional ao poder de uma super potência, a mais poderosa do planeta. A declaração veio quando os Estados Unidos e o Irã intensificam ataques retaliatórios nesta quinta-feira (9/7), enquanto o presidente estadunidense Donald Trump ameaçava intensificar o conflito caso o Irã não parasse de atacar navios no estreito de Ormuz.

O Irã respondeu à última onda de ataques visando o Kuwait e o Catar , aliados dos EUA , e acusou os EUA de atacarem perto de sua única usina nuclear.O segundo dia consecutivo de ataques retaliatórios ocorreu horas antes de o Irã enterrar o ex-líder supremo Ali Khamenei em sua cidade natal, Mashhad. Khamenei foi morto em ataques aéreos dos EUA e de Israel em fevereiro deste ano, no início da guerra.

O corpo do líder mártir da Revolução Islâmica foi sepultado no salão memorial do santuário do Imã Reza, informou a emissora estatal IRIB nesta sexta-feira(10/7).

Debruçando numa análise mais abrangente e contando com registros da história, pode-se abordar, que a resistência do povo iraniano baseia-se historicamente no conceito de “economia de resistência” (resistance economy), um modelo formulado para mitigar os impactos das severas sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e aliados ocidentais. Esse panorama ganhou novas nuances geopolíticas com a aproximação estratégica entre o Irã e o Leste Europeu (especialmente a Rússia), alterando a dinâmica das pressões internacionais.

A dinâmica das sanções e a resistência interna às sanções lideradas por Washington buscam isolar o sistema financeiro e cortar as exportações de petróleo do Irã. Em resposta, o país desenvolveu mecanismos de adaptação:Diversificação econômica: Foco no fortalecimento das indústrias não petrolíferas, agricultura e produção de bens de consumo internos para reduzir a dependência de importações.Redes financeiras alternativas, como utilização de sistemas de compensação informais (como a hawala) e transações em moedas locais para contornar o sistema Swift controlado pelo Ocidente. Contrabando e mercado paralelo com a criação de rotas complexas de comércio e frotas fantasmas de petroleiros para continuar escoando o óleo bruto para mercados asiáticos.

O eixo com o Leste Europeu e a pressão ocidental empurrou Teerã para uma aliança militar, econômica e tecnológica sem precedentes com o Leste Europeu, centralizada na Rússia. Comércio bilateral de Irã e Rússia integraram seus sistemas de mensageria bancária (Shetab e SPFS) para permitir transações comerciais diretas sem o uso do dólar.No que tange a parceria militar, o fornecimento mútuo de tecnologia de defesa e drones fortaleceu a posição estratégica do Irã, garantindo contrapartidas econômicas e veto político nas Nações Unidas por parte de Moscou.

As rotas de trânsito como investimento no Corredor de Transporte Internacional Norte-Sul (INSTC) conecta o Irã diretamente aos mercados da Rússia e da Ásia Central, blindando parcialmente o comércio contra bloqueios navais ocidentais. Apesar dessa infraestrutura de sobrevivência do Estado, a população iraniana enfrenta severa inflação, desvalorização da moeda e escassez de medicamentos, tornando a resiliência cotidiana um reflexo tanto da pressão externa quanto de complexas tensões políticas internas.

Por conseguinte, a resiliência iraniana diante das décadas de sanções econômicas ocidentais baseia-se em uma complexa estratégia de adaptação interna, diplomacia pragmática e coesão institucional. Apesar da asfixia financeira imposta principalmente pelos Estados Unidos para conter seu programa nuclear, Teerã desenvolveu mecanismos que garantem a sobrevivência e a projeção regional do regime.

O Irã resiste aos Estados Unidos por meio de uma estratégia institucionalizada de guerra assimétrica e economia de sobrevivência, mas sofreu perdas históricas humanas, políticas e econômicas, agravadas pelo confronto militar direto, atualmente em 2026.

A situação, já difícil no Irã, piorou consideravelmente nos últimos seis meses. O colapso da moeda e a guerra com os Estados Unidos complicaram o cotidiano, principalmente para os cidadãos comuns. Agora é muito mais difícil comprar produtos de qualidade, efetuar pagamentos e planejar preços com vários dias de antecedência, reportam comerciantes do Grande Bazar de Teerã, para imprensa internacional, onde protestos em larga escala começaram no final de 2025. Apesar disso, ao longo de décadas de isolamento, o país aprendeu a viver em completa autonomia — o Irã desenvolveu sistemas de pagamento internos, produção local e comércio com os países vizinhos.

Uma análise mais próxima do país, mostra que Teerã é uma cidade diversa. Frequentemente, é dividida entre o norte secular e o sul religioso. No primeiro, é mais comum encontrar mulheres com a cabeça descoberta, cafés sofisticados e shoppings, enquanto o sul ostenta um estilo de vida mais tradicional, com bairros religiosos e comércio autêntico. Mas existem lugares onde os dois lados de Teerã se entrelaçam. E esses lugares são os bazares.

Uma parcela significativa do comércio varejista iraniano ainda depende do comércio tradicional: nos mesmos bazares, pequenas lojas de bairro, barracas e vendedores ambulantes. As redes de lojas e hipermercados representam apenas 8,5% do mercado varejista do Irã. Para Teerã, essa participação foi estimada em um pouco mais alta — em torno de 15% —, mas mesmo lá, a maior parte do comércio permaneceu em formatos mais consolidados.

Apesar do calor, as ruas e os mercados da capital iraniana estão lotados. Grande Bazar de Teerã, localizado bem no centro. Ele fica ao lado do Palácio Golestan, um dos principais complexos históricos da cidade. O bazar em si não é um mercado típico, mas sim um distrito comercial inteiro coberto por uma estrutura abobadada. Seus corredores cobertos, segundo diversas estimativas, estendem-se por 10 quilômetros. Lá dentro, encontram-se lojas, armazéns, caravançarais(centros hoteleiros), mesquitas, agências bancárias, casas de câmbio e barracas separadas para tecidos, tapetes, ouro, especiarias, roupas e artigos para o lar.

De fato, o Grande Bazar pode ser usado para avaliar o clima em todo o país. No final de dezembro de 2025, foi ali que começaram os protestos entre comerciantes e lojistas após a forte desvalorização do rial e o aumento dos preços. Os protestos se espalharam posteriormente para estudantes e outras cidades. O clima permanece tenso segundo relatos para mídias globais. Embora o país já enfrentava problemas de emprego, eles se agravaram ainda mais atualmente. Mesmo assim , são relances de alegria com o fim dos combates, embora não se acredite que essa situação vá durar.

A inflação é um dos principais problemas da economia iraniana. A moeda oficial ainda é o rial, mas no dia a dia, os preços são frequentemente cotados em tomans. Tecnicamente, um toman equivale a 10 riais, mas na negociação cotidianas, os vendedores costumam omitir os zeros extras. Portanto, o preço quase sempre precisa ser determinado com cuidado, usando os dedos.

Essa confusão é resultado de anos de inflação e desvalorização. Em outubro passado, o parlamento aprovou uma reforma para remover quatro zeros da moeda nacional. As autoridades justificaram a medida como uma necessidade de simplificar os cálculos. Mas essa medida, por si só, não resolve o principal problema: a queda do poder de compra.

Segundo o FMI, a inflação no Irã poderá atingir 68,9% em 2026, e o PIB poderá contrair 6,1%. O Banco Mundial também aponta para uma queda: estima que o PIB cairá 2,7% no ano fiscal iraniano de 2025/2026, que terminou em 20 de março.

Os varejistas são os primeiros a sentir os efeitos das flutuações econômicas. A inflação os obriga a recalcular constantemente o custo de compras, aluguel, entrega e outras despesas. Se o rial cai, os vendedores já não têm certeza se conseguirão comprar um novo lote pelo mesmo preço amanhã. Portanto, alguns produtos ficam mais caros antecipadamente, para se prepararem para a próxima desvalorização.
É impossível saber o que acontecerá daqui a dois dias.

A título de exemplificação econômica, os carros são um assunto completamente diferente. As ruas de Teerã estão repletas de carros de fabricantes locais como Iran Khodro, SAIPA e Pars Khodro. É raro ver carros chineses por aqui, e ainda mais raro ver carros europeus.

Durante anos, uma parte significativa da indústria operou com plataformas estrangeiras obsoletas, principalmente das francesas Peugeot e Renault. As sanções dificultaram o fornecimento de componentes, as atualizações tecnológicas e a entrada de novos parceiros. Como resultado, a indústria automobilística local sacrificou a qualidade e a segurança.

O início do conflito também afetou o Irã por meio da gasolina. O comércio interno do país depende do transporte constante entre armazéns, mercados e lojas. Filas nos postos de gasolina ou a escassez de combustível impactam os preços quase que imediatamente.

Para encher o tanque, no alto da crise, era preciso esperar pelo menos quatro a cinco horas, embora a situação agora melhorou.

A esperança de todos é que o Irã um dia seja libertado das sanções e que o país possa respirar novamente — talvez pela primeira vez desde 1979. A primeira grande onda de restrições americanas começou após a Revolução Islâmica e a tomada da embaixada americana em Teerã. As sanções foram posteriormente ampliadas devido ao apoio a grupos armados, ao programa de mísseis, aos direitos humanos e ao dossiê nuclear.

Mas o Irã se adaptou às sanções alterando sua estrutura econômica. Seu modelo se baseia no mercado interno, no comércio regional, em intermediários, na exportação de commodities e na busca constante por rotas alternativas. Após ser isolado da infraestrutura financeira internacional, o país desenvolveu sua própria rede interbancária de cartões, a Shetab. Surgida no início dos anos 2000, ela interliga bancos, caixas eletrônicos, terminais de ponto de venda e transações com cartão em todo o país. Para o iraniano médio, funciona: os cartões podem ser usados para pagar compras de supermercado, viagens, roupas, remédios e diversas compras domésticas.

E muitos lugares têm terminais — até mesmo vendedores ambulantes cujas mercadorias ficam expostas em um pano no asfalto. Enquanto separamos cuidadosamente dezenas de notas de milhões de riais, os moradores locais pagam rapidamente com seus cartões e saem da loja.Muitos dos nossos produtos vêm da China e da Turquia. O pagamento e a liquidação tornaram-se muito difíceis atualmente. Depois da guerra, muitos dos produtos com demanda ficaram mais difíceis de encontrar, especialmente os de alta qualidade.
Após os protestos de 2022 relacionados com a morte de Mahsa Amini e o slogan “Mulher, Vida, Liberdade”. Depois disso, na opinião pública em relação aos chadores — os véus pretos usados por muitas mulheres xiitas — começou a deteriorar-se.

Os principais parceiros comerciais do Irã continuam sendo a Índia, a China, os Emirados Árabes Unidos, a Rússia, a Turquia e os países vizinhos, incluindo o Iraque. De acordo com as estatísticas de comércio internacional, os Emirados Árabes Unidos eram a maior fonte de importações do Irã, mas, após o conflito com os EUA e os subsequentes ataques retaliatórios com mísseis iranianos contra o país, a situação mudou.

Embora não houvesse falta de suprimentos para um bazar, e por trás dessa aparente normalidade, escondia-se uma profunda crise econômica, que obrigava a principal artéria comercial do país — o varejo — a recalcular constantemente seus custos e prejuízos.

O Irã aprendeu a viver isolado. Mas essa resiliência tem um preço: um rial (moeda nacional) fraco, inflação, importações caras, atraso tecnológico e tensões sociais constantes.Esta conexão de recriar-se numa crise e conflito mantém a antiga nação persa de pé, um líder geopolítico regional estratégico, que embora tenha sofrido enormes baixas militares e na sua sociedade, mantém altivez e determina se o fornecimento de petróleo para Europa, EUA e seus aliados sustentará um estoque que já é baixo mundialmente.

A previsão atual do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o crescimento da economia mundial em 2026 é de exatamente 3%, marcando uma redução frente à projeção anterior de 3,1%. A revisão para baixo ocorreu devido ao acirramento das tensões geopolíticas e do conflito envolvendo o Irã, o que impulsionou os preços globais de energia e combustíveis. Enquanto o Irã se mantém estratégico, com controle do canal de Ormuz, com poder bélico, não há vitória para Trump nem para Netanyahu.