Foto: Etienne Laurent/ The Academy

Por Tabasco

Em quase um século de história, já é possível fazer um levantamento bem claro do padrão de quem são os ganhadores do Oscar: pessoas brancas, jovens, e estadunidenses. Em décadas de história, poucas vezes esse padrão foi quebrado. Sob esse viés, é perceptível que existe um favoritismo na hora das indicações e premiações, e isso não é algo novo.

Quando se fazem brincadeiras de que a premiação tem “medo” de entregar suas estatuetas a idosos, negros ou latinos, isso expõe um padrão. Um caso emblemático  foi durante a categoria de melhor atriz em 2025, com Karla Sofía Gascón, Demi Moore, Fernanda Torres, Cynthia Erivo e Mikey Madison que concorriam entre si, onde Madison levou a estatueta de forma surpreendente acima de das suas adversárias; o favoritismo em premiar aqueles que podem reforçar a soberania e a propaganda estadunidense fica clara.

Após anos isso continua a ser repetido, e temos um reflexo disso em 2026 na categoria de melhor ator, em quem Wagner Moura concorre com Leonardo DiCaprio, Ethan Hawke, Michael B. Jordan e Timothée Chalamet, em que as expectativas refletem a polaridade entre os grupos indicados, e o impacto pode ser causado dependendo de quem for o vencedor. Essas figuras não são apenas pessoas, representam também seu país, sua raça e seu gênero.

E que forma melhor de se fazer isso do que premiando jovens talentos brancos? Atraentes, frescos em suas carreiras? Que ainda tem muitos anos pela frente para continuar na área? Que não precisa esperar décadas entre uma indicação ou outra, que pode ser representado e visto todos os anos, que é familiar.

O espaço para variedade entre os vencedores é algo muito recente, que aos poucos está aumentando não apenas nas indicações, mas vitoriosos também, porém ainda assim, não é o suficiente, não consegue corrigir tanto tempo de desequilíbrio e privilégio que rodeou a própria fundação da premiação.

Não é apenas uma questão do Oscar não gostar ou ter medo de premiar outros perfis, e sim que não reflete quem compõem a academia de votantes, quem assiste, quem investe, quem consome, quem faz, quem constrói. Quando a estatueta é entregue, junto com ela vem uma série de expectativas e afirmações, uma validação de valores que compõem e rodeiam a premiação como um todo. Ela foi feita em moldes para reforçar a estrutura de dominância cinematográfica que existe até hoje, pensada e estruturada internamente, e adaptada posteriormente para abranger obras diferentes.

É mais do que apenas premiar o mais talentoso, é também reforçar o padrão, e garantir que a norma continue sendo repetida nas expectativas sobre quem é um vencedor que irá carregar a estatueta em seu currículo pelo resto da vida. 

O Oscar não é apenas um prêmio, é uma ferramenta de propaganda que serve para reforçar as tendências não apenas políticas como culturais, em que aqueles que não se encaixam nela, não são vistos. É uma premiação estadunidense, para estadunidenses, como forma de reforçar seu Status Quo, mostrar sua superioridade, seus jovens talentos em potencial, e fortalecer a estrutura hollywoodiana de cinema. Em que se pode dar um tapa nas suas próprias costas, com um sorriso largo, e falar: bom trabalho, para você mesmo.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.