IA e eleições: o Brasil está preparado para o que vem?
Como a inteligência artificial virou a maior ameaça à democracia brasileira em 2026
Em 2026, milhões de brasileiros vão às urnas para escolher presidente, governadores e deputados. É um ciclo eleitoral completo, um daqueles momentos em que o país para, discute e decide. Mas, desta vez, há algo diferente. Não é o candidato, não é a pauta, não é o contexto econômico. É a tecnologia disponível para quem quer manipular o resultado — e ela nunca esteve tão acessível.
O historiador Yuval Noah Harari resume o problema melhor do que qualquer relatório técnico: “Democracia é uma conversa, muita gente falando para decidir em conjunto. Se a IA se encarrega da conversação, a democracia acabou.” Pode parecer exagero, mas não é.
Antes de entrar no alarmismo, vale lembrar: a fake news não nasceu com a IA. O Brasil já viveu eleições marcadas por grupos de WhatsApp disparando mentiras em massa, por vídeos editados fora de contexto e por manchetes fabricadas que chegavam a milhões de pessoas antes de qualquer checagem. A desinformação já era um problema grave. A IA não criou esse problema. Ela apenas o escalou de uma forma que ainda não tínhamos visto.
A diferença agora está na barreira de entrada. Em 2024, durante as primárias de New Hampshire, nos Estados Unidos, um áudio falso do presidente Joe Biden circulou pedindo que eleitores não fossem votar. O arquivo chegou a mais de 20 mil pessoas. Custo de produção: 150 dólares. Menos do que uma passagem de avião.
Na Eslováquia, 48 horas antes das eleições de 2024, um áudio falso do político Michal Šimečka circulou no Facebook, no qual ele supostamente discutia fraude eleitoral. Não havia tempo hábil para uma checagem eficaz. Na Índia, lideranças mortas foram “ressuscitadas” por IA para fazer campanha. No Reino Unido, um áudio falso do prefeito de Londres, Sadiq Khan, viralizou com declarações que ele nunca fez. Esses não são casos isolados. São o novo padrão.
Quando pensamos em IA e desinformação, tendemos a imaginar vídeos falsos específicos, eventos isolados que podem ser desmentidos. Esse enquadramento subestima o problema.
A ameaça real é estrutural. A IA não apenas fabrica conteúdo falso. Ela fragmenta a realidade. Com algoritmos de segmentação, torna-se possível criar mensagens ajustadas ao perfil psicológico, às crenças e às inseguranças de diferentes grupos de eleitores. Não é uma mentira para todos. São dezenas de mentiras diferentes, cada uma desenhada para um público específico e distribuída em escala industrial. É a diferença entre panfletar em praça pública e sussurrar no ouvido de cada pessoa.
Existe ainda o efeito da dúvida generalizada. Quando deepfakes se tornam comuns, as pessoas começam a desconfiar também de vídeos verdadeiros. Cria-se um ambiente em que “pode ser falso” vira desculpa para negar qualquer evidência inconveniente. Isso não beneficia a democracia. Beneficia quem tem interesse em confundir.
E há um terceiro problema, menos discutido: a destruição da memória coletiva. Democracias dependem de uma história compartilhada, de um conjunto mínimo de fatos que todos reconhecem como reais. Quando a IA pode fabricar “registros históricos” com a mesma qualidade visual de um documentário, essa base começa a desmoronar. Não é ficção científica. Os primeiros sinais disso já apareceram em 2025, quando vídeos hiper-realistas viralizaram no Brasil e contribuíram para o que especialistas chamaram de “caos informacional”.
Regimes autoritários já controlam a informação. Para eles, a IA é apenas mais uma ferramenta em um arsenal que já existe. Para as democracias, o problema é diferente — e mais grave. Democracias dependem de debate público aberto, de conversação livre e de um nível mínimo de confiança na informação que circula. Quando essa confiança é destruída, o sistema enfraquece de dentro para fora. Uma ditadura pode sobreviver com informação controlada. Uma democracia não sobrevive sem informação confiável.
A ministra Cármen Lúcia, presidente do TSE, foi direta: a IA será “um dos maiores desafios” das eleições de 2026. Não é uma frase protocolar. É o reconhecimento institucional de que o problema é real e de que as respostas disponíveis ainda são insuficientes para a escala do que está por vir.
O Tribunal Superior Eleitoral aprovou regulamentações para 2026. Todo conteúdo eleitoral criado com IA precisa exibir aviso claro e visível. Provedores de IA não podem ranquear nem favorecer candidatos. Nas 72 horas que antecedem a eleição e nas 24 horas posteriores, fica proibida a publicação de conteúdo gerado por IA com voz ou imagem de candidatos. Deepfakes que alterem imagem ou voz para favorecer ou prejudicar candidaturas também são vedados. É um avanço real, mas ainda insuficiente.
A regulação sempre corre atrás da tecnologia. Quando as regras saem do papel, a tecnologia já avançou mais uma casa. A fiscalização tem limites operacionais concretos: não existe capacidade humana para revisar tudo o que circula durante uma campanha que envolve milhões de eleitores. Além disso, as regras valem principalmente para o material oficial de campanha. O que circula em grupos privados, perfis anônimos e redes descentralizadas é outra história. É justamente aí que vive a maior parte da desinformação.
Ao meu ver, a regulação não é o problema. É parte da solução. Redes sociais e plataformas de IA operaram durante anos sem nenhuma responsabilidade clara sobre o conteúdo que distribuem. Tratar a regulação como uma ameaça à liberdade de expressão é, na maioria das vezes, um argumento que serve aos interesses de quem lucra com o caos informacional. Regular não é censurar. É estabelecer regras mínimas para que o espaço público digital funcione com alguma integridade.
Como identificar um deepfake: o que qualquer eleitor pode fazer
Esperar que as instituições resolvam o problema sozinhas é uma aposta arriscada. A defesa mais eficaz começa no eleitor individual. Deepfakes deixam rastros. A sincronia labial costuma falhar em fonemas como “p”, “b” e “m”. A pele pode aparecer excessivamente lisa, sem poros ou marcas de expressão naturais. As piscadas tendem a ser mecânicas, ritmadas demais ou simplesmente inexistentes. As sombras nem sempre acompanham os movimentos da cabeça. Em áudios, pausas para respiração podem soar artificiais ou desaparecer por completo.
Reduzir a velocidade de um vídeo para 0,25x no YouTube já torna muitas dessas falhas mais visíveis. Tirar um print de um trecho suspeito e fazer uma busca reversa de imagem no Google pode revelar se o conteúdo já foi desmentido por agências de checagem. E a regra mais simples continua sendo a mais eficaz: se o vídeo não aparece em canais oficiais do candidato ou em veículos jornalísticos reconhecidos, a desconfiança deve ser o primeiro reflexo.
O TSE disponibiliza canais específicos para denúncias. O aplicativo Pardal permite enviar provas e arquivos suspeitos diretamente pelo celular. O portal Gralha Confere monitora tendências de desinformação. Já o Fato ou Boato funciona como o canal oficial de verificação do tribunal. Esses recursos existem. O problema é que pouca gente sabe disso.
O que pode funcionar de verdade
A educação midiática é uma das poucas estratégias com potencial de funcionar no longo prazo. Um eleitor que sabe verificar uma fonte, que desconfia antes de compartilhar e que conhece o básico sobre o funcionamento dos deepfakes é muito mais difícil de manipular. A Finlândia incluiu a literacia midiática em seu currículo escolar há mais de uma década. Os resultados, em termos de resistência à desinformação, estão entre os melhores do mundo. Não é coincidência.
O Brasil está longe disso. Mas não parte do zero. Fact-checkers consolidados existem. Projetos de alfabetização digital em universidades e ONGs existem. Parcerias entre plataformas e organizações de verificação existem. O que falta é escala. E velocidade.
A IA também pode ser usada no combate à desinformação. Ferramentas de detecção automática de deepfakes, sistemas capazes de identificar padrões de disparo coordenado e algoritmos que sinalizam conteúdo suspeito antes da viralização já fazem parte desse esforço. A mesma tecnologia que cria o problema pode ajudar a enfrentá-lo. Em 2024, vinte empresas, incluindo OpenAI, Meta, Google e Microsoft, assinaram um acordo para combater o uso enganoso da IA em processos eleitorais. Foi um passo. Se ele vai se traduzir em ação efetiva, ainda não se sabe.
O problema maior é a concentração de poder. As grandes decisões sobre o que circula e o que não circula estão nas mãos de um número reduzido de empresas privadas, sem regulação adequada, sem transparência suficiente e sem mecanismos efetivos de responsabilização. Delegar parte do futuro da democracia brasileira aos algoritmos de empresas americanas é um risco que o debate público ainda não levou suficientemente a sério.
O que está em jogo
Democracia não é um estado permanente. É uma construção contínua, que depende de informação minimamente confiável para funcionar. Quando o eleitor não consegue distinguir o real do fabricado, a escolha deixa de ser livre. Passa a ser guiada por quem tem mais recursos para fabricar realidades.
Isso não é hipótese. Já aconteceu em outros países. Aconteceu, em diferentes graus, no Brasil. E vai acontecer novamente, com mais sofisticação, em outubro de 2026.
O problema central não é tecnológico. É uma questão de escolha coletiva. A IA não é boa nem ruim por si só. O risco real está na forma como as sociedades decidem desenvolvê-la, utilizá-la e regulá-la. E o Brasil chega a 2026 com uma regulação ainda incipiente, educação midiática insuficiente, capacidade limitada de fiscalização e uma população de milhões de eleitores que, em sua maioria, não sabe o que é um deepfake nem como identificá-lo.
Isso pode mudar. Não por milagre, mas por decisão. A pergunta que acompanha 2026 não é se a tecnologia estará presente nas eleições. Ela estará. A questão é em que tipo de ambiente informacional os brasileiros tomarão suas decisões. E essa resposta ainda está sendo construída, com pouco tempo e muito em jogo.
Se você receber um vídeo ou áudio suspeito envolvendo candidatos durante as eleições de 2026, não compartilhe antes de verificar a origem do conteúdo. Em caso de dúvida, denuncie pelo aplicativo Pardal ou pelo portal Fato ou Boato, do TSE.
Aline Calamara é Jornalista e especialista em IA para marketing