He-Man: o ápice da masculinidade contra os red pills
Os músculos do homem mais forte do mundo te convidam a resolver seus problemas na base do diálogo.
Por Dríade Aguiar
O que vem à sua cabeça quando você pensa em He-Man?
Um dos maiores ícones da masculinidade dos anos 80?
Representante de um ideal físico de força, poder, heroísmo e virilidade?
Um herói bronzeado de corte de cabelo duvidoso?
Pois bem, venho dizer que ele é parte da vacina para crianças aprisionadas em chats no Discord.
“Mestres do Universo”, novo filme live-action de Travis Knight que retrata os heróis e vilões de Eternia, pode ter sido um dos projetos mais turbulentos do início do século XXI em Hollywood. Com data de estreia para 4 de junho, a história começa em setembro de 2009, quando a Sony adquiriu os direitos da franquia, mas só começou a tomar a forma que vai às telas quando o elenco definitivo foi escalado ao longo de 2024.
De lá para cá, o filme teve múltiplos diretores e roteiros descartados e, honestamente, talvez essa tenha sido a melhor coisa possível para o projeto. No fim dos anos 2000, o homem já passava por grandes crises. 2009 foi o ano da “Mancession”, período em que os homens enfrentaram uma taxa de desemprego mais alta que a das mulheres. Também foi o ano em que o MMA e o UFC explodiram globalmente, tudo isso enquanto negavam a estética metrossexual do começo da década, mas ainda sem apresentar outro modelo que não fosse violento ou frustrado.
Hoje em dia, apesar de a manosfera ter tido força suficiente para sair do submundo, outras histórias sobre homens são possíveis. Eu só não sabia que uma delas estaria empunhando uma espada.
Que o filme seria um acalento para gays e garotas não era exatamente uma novidade: a estética homoerótica feita de couro e peito nu, além da vida dupla de alguém que precisa esconder sua identidade, já era percebida pela comunidade LGBTQIA+. Com o tempo, He-Man e seu casal “will they, won’t they” com o Esqueleto se consolidaram na cultura pop como um grande ícone gay internacional.
Mas o que vi na pré-estreia foi mais que isso. Adam é um garoto que, apesar de tudo e de todos, acredita em si mesmo e tem como maior arma para resolver conflitos a Espada do Poder… e sentar para conversar.
O filme atravessa suas duas horas apresentando um arco com o qual todo menino meio esquisito se identifica: ser o menor da turma, ser uma decepção para os pais, usar um mundo fantástico como escapismo durante a juventude, ser empurrado para a friendzone por seu interesse romântico e descobrir que aquilo que usavam contra você como bullying é, na verdade, o seu superpoder.
Debaixo das camadas da fantasia bárbara inspirada em Dungeons & Dragons e Conan, vemos um manchild voltar para casa e mostrar que é mais maduro do que todo mundo ali. Apesar de, sim, ninguém vencer os caras maus pedindo por favor, ele consegue demonstrar que ouvir nossos sentimentos é a chave para um mundo melhor.
Quem diria que um boneco criado por pura necessidade comercial, após a Mattel cometer a maior burrada de sua história ao recusar os direitos para fabricar os brinquedos de Star Wars, seria hoje um militante woke?
E Chris Butler demonstra que é possível fazer isso sem rifar elementos da história importantes para os fãs: o físico dos personagens, as piadas de duplo, terceiro e quarto sentido, muita ação e seus bordões. Inclusive, a cena em que ele levanta a espada pela primeira vez e diz “Pelos poderes de Grayskull… Eu tenho a força!” é ÉPICA. Daquelas que dão inveja às transformações da Sailor Moon.
Falando nisso, pausa aqui para aplaudir Camila Mendes por continuar o legado das atrizes que estão, pouco a pouco, diversificando a imagem do que é ser uma mulher em filmes de ação. Deixo também o meu desejo para que She-Ra venha logo, pelo amor de Deus. A minha criança interior precisa disso.
Agora, para os adultos que vão ao cinema movidos pelo impacto cultural que o desenho causou no Brasil — seja pelo efeito Xuxa e o acerto do horário nobre infantil, pela música imortalizada pelo Trem da Alegria, pelo trabalho magistral da dublagem da Herbert Richers ou pelas dezenas de memes criados desde então que não deixaram o loiro morrer —, minha recomendação é que levem seus sobrinhos, primos, filhos, afilhados ou simplesmente qualquer homem cis que esteja passando tempo demais online. A conversa vai render depois.
Por mais loiros de corte de tigela.
Por menos calvos do Campari.