EQUILIBRIVM II e a cura do que eu não sabia que doía
35 minutos de visuais e 17 músicas que me ensinam um pouco mais sobre amor
Fui fã de Anitta desde a primeira vez que ouvi os disparos eletrônicos de “Show das Poderosas”. Admirava sua determinação, entrega e compreensão de mercado. Achei ela foda quando colocou na reta sua fé e não teve medo de misturar isso tudo com suas opiniões políticas. Das vezes em que nossos caminhos se cruzaram presencialmente, gostei ainda mais de ver que ela era feita de carne e osso.
Então, do pouco que conheço, fico feliz que, de vez em quando, suas eras encontravam as minhas — sensualidade, brasileirismo, rodar pelo mundo… E agora parece que aconteceu de novo.
Lançado em 23 de julho, EQUILIBRIVM II marca uma nova etapa na trajetória da cantora. Depois de anos explorando o pop global, o funk e o reggaeton, ela volta o olhar para sonoridades do nosso país e para referências espirituais, populares e ancestrais. Do coco ao forró, do samba às tradições indígenas, este é um trabalho que fala menos sobre a personagem e mais sobre suas (nossas) identidades.
No dia 24, parei para ouvir, assistir e repetir tudo o que o segundo ato tinha a oferecer e, conforme as faixas avançavam, o sentimento era de que letras, visuais, estética e mensagem cortavam e curavam minha pele.
Pra começar, desde a justaposição da pequena Larissa com a caracterização de Pombagira, entendi que esse seria um momento que ajudaria a solidificar na minha mente uma lição que aprendi quando coloquei os pés pela primeira vez no Rio Vermelho, na alvorada de 2 de fevereiro: o sagrado e o profano estão entrelaçados e, em equilíbrio, criam um terreno fértil para tudo o que entendemos como cultura afro-brasileira.
Ela seguiu esse caminho sem medo de represálias. Veste vermelho, veste preto, veste palha, veste flores, veste quase nada, veste tudo ao mesmo tempo. E dança. Me peguei querendo riscar junto de Mart’nália, deitar ao lado de MC Tha e me fazer sanduíche no forrozinho entre a ariana e Alceu Valença.
Durante as músicas, dá para sentir que a diversidade de ritmos e artistas é a forma perfeita de ilustrar que a fé brasileira, com todos os seus ascendentes e descendentes, é, na prática, ecumênica. Nosso país veste branco no Réveillon, pula sete ondinhas, acende velas, ora sobre a comida, agradece a colheita, bate folha, bebe chá e faz o sinal da cruz na mesma semana.
Afinal, não somos santos, mas a santa nos adora.
Falando nessa diversidade, é preciso dizer que MC Tha, Brô MC’s, Katú Mirim, Los Brasileros, KBrum, Alceu Valença, Mart’nália, Mestrinho, Alexandre Carlo, Maria Bethânia, Letícia Fialho, Valéria Barcellos, Grupo Ofa, KING Saints, Pai Rodney, Elisa Lucinda, Macsuara Kadiwéu, Thai, Léo Garcia, Jorge Guerreiro e tantos outros que têm seu momento ao longo do disco são personalidades com trabalhos consolidados nas sonoridades e nos temas que Anitta traz no álbum. Ao convidá-los para este momento, ela também presta sua homenagem e respeito a quem veio antes.
Ela sabe que não basta dizer que, daqui para a frente, é preciso abrir caminho. Tem que dar o exemplo.
Para mim, o ápice desse exemplo é “Oke”, quando deu vontade de sair correndo pelas matas e subir na árvore mais alta para assistir à festa do encontro dos caboclos com os donos da terra. Katú e os Brô MC’s brilham e me lembram que milhões de pessoas que se parecem com a gente resistem há séculos. Eles não tiveram o direito de desistir; nós temos o dever de continuar.
Tudo isso me faz entender que este é, com certeza, o álbum mais maduro de Anitta. Não porque simplesmente evolui, mas porque é um pedacinho de cada história que ela carrega no corpo. A harmonia sonora apresentada aqui transcende a medalha no nosso peito, os nós do terço nas mãos e o coque no cabelo, enquanto chama todas elas para pensar juntas.
E, ao pensar, tive vontade de chorar. Em certo momento, percebi que chorava ao mesmo tempo em que uma lágrima corria no rosto de Larissa. Chorei porque era bonito, porque já amamos algo que não nos amou de volta, porque subestimei minha capacidade, porque cheguei a lugares que nem achei que existiam para mim, porque jovens iam ver Ogum ser cantado no mainstream, porque não amei minha mãe direito, porque me senti acolhido e porque, se pá, ainda tô fazendo de tudo pra você gostar de mim.
E assim celebrei todas as versões de Anitta e as minhas que chegaram até aqui.
Tudo em equilibrium.