“Ei, você aí, Vorcaro, me dá um dinheiro aí”
Dinheiro público e fundos previdenciários alimentam projetos privados de poder longe da transparência pública.
Quem nunca cantou no carnaval “ei, você aí, me dá um dinheiro aí” que atire a primeira pedra. É uma piada nossa, bem brasileira. Mas a brincadeira é bem séria! A música virou um retrato de como quem mais defende a moralidade e ataca a falta de eficiência do Estado exerce o poder.
O áudio revelado nesta semana pelo Intercept Brasil, em que o senador Flávio Bolsonaro aparece negociando com Daniel Vorcaro, banqueiro ligado ao Banco Master e investigado no caso, um repasse de R$ 134 milhões para financiar uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, mostra bem como isso funciona. Quem vê de longe pode pensar que é só mais um episódio da novela política brasileira e da tal polarização. Mas o que ouvimos revela como quem tem poder político se junta a quem tem poder econômico para acumular ainda mais poder e mais dinheiro. Num país em que lutamos todos os dias contra a pobreza e a desigualdade, isso não é um tapa na cara — discordo de Romeu Zema quando tenta minimizar a situação como “nada de novo”. É um soco no estômago.
Temos que perguntar: de onde vem esse dinheiro?
Vamos seguir o caminho do dinheiro do Banco Master. De um lado, fundos de previdência — economias de uma vida inteira de trabalhadores e servidores públicos — aplicaram bilhões em títulos do banco. De outro, o Banco Regional de Brasília, banco público do Distrito Federal (portanto, dinheiro do Estado), realizou operações bilionárias com o mesmo Banco Master, incluindo a compra de carteiras hoje investigadas pela Polícia Federal sob suspeita de irregularidades, segundo reportagens publicadas pela imprensa. Em resumo: dinheiro de trabalhadores e recursos públicos passaram a compor a estrutura financeira do banco, que posteriormente apareceu vinculado ao financiamento de projetos privados de grande porte. Um exemplo? A produção cinematográfica de valor exorbitante sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo os documentos divulgados pelo Intercept, cerca de R$ 61 milhões já teriam sido investidos em 2025.
Agora, vamos analisar o truque do discurso do senador Flávio Bolsonaro, que se defendeu dizendo que se tratava de dinheiro “privado”. Aqui entra a jogada técnica: formalmente, o recurso saiu de um banco privado. Funciona assim: dinheiro público e recursos de trabalhadores entram no sistema financeiro, passam a compor a capacidade de operação de instituições privadas e, depois, as operações realizadas por essas instituições são apresentadas apenas como iniciativas privadas. É como pegar dinheiro emprestado de um professor que tirou o valor do caixa da escola e depois argumentar que o empréstimo foi pessoal — sabendo muito bem de onde saiu o dinheiro. É o “me dá um dinheiro aí”: de onde realmente vem o dinheiro pouco importa.
E a história fica ainda mais grave. A Polícia Federal investiga, em cidades brasileiras, aplicações de fundos de aposentadoria de servidores em ativos ligados ao grupo Banco Master. Estamos falando da vida inteira e do futuro da professora, do enfermeiro, do guarda municipal, entre tantos outros. Previdência é coisa séria. O “me dá um dinheiro aí” não pode significar mais dinheiro para quem já tem tudo, às custas de quem trabalhou a vida toda.
E não adianta achar que basta trocar de lado para se livrar do problema. Romeu Zema, pré-candidato à Presidência, tem feito do escândalo do Master uma bandeira de campanha — mas convém acompanhar isso com lupa. A imprensa já noticiou que o diretório estadual do Novo recebeu, em 2022, uma doação de R$ 1 milhão de Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro.
Patriotismo de verdade exige coerência. Quando a indignação é seletiva e oportunista, a desconfiança é inevitável.
Um Brasil com patriotismo de verdade não pode conviver com recursos públicos e fundos previdenciários circulando em estruturas financeiras sem transparência, enquanto projetos privados de poder são financiados longe dos olhos — e dos ouvidos — do público.
Confiança pública é confiar em quem nos representa. É acreditar que quem fala de moralidade e eficiência do Estado está falando a verdade, sem oportunismo. Num projeto sério de país, dinheiro público deve ser aplicado para servir ao povo.
Macaé Evaristo é Deputada estadual (PT-MG), Ex-Ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania.