Desdolarização se aproxima com BRICS iniciando testes em novas plataformas de pagamento para 2027-2028
Novas plataformas do BRICS entram em testes e podem transformar o sistema financeiro global até 2028
Em um futuro que fica cada vez mais real e se aproxima, os integrantes do BRICS estão conduzindo projetos-piloto bilaterais para testar plataformas de pagamento, afirmou o vice-ministro das Finanças da Rússia, Ivan Chebeskov, ao jornal Izvestia. Isso inclui iniciativas russas como o BRICS Bridge e o BRICS Clear — um sistema de pagamento comum e uma infraestrutura de liquidação e compensação. Essas iniciativas permitirão investimentos mais seguros nas economias dos países-membros do BRICS.
O grupo também discute o aumento do investimento em infraestrutura conjunta e a possibilidade de envolver o setor privado nesses mecanismos, declarou o vice-ministro das Finanças dos Emirados Árabes Unidos, Younis Haji Al Khouri. No entanto, especialistas acreditam que as tensões internas do BRICS, assim como a ameaça de sanções ocidentais, podem atrasar a implementação desses planos.
Nesse contexto, plataformas estão sendo desenvolvidas pelos países do bloco. Assim, as nações do BRICS iniciaram testes-piloto bilaterais de novas plataformas de pagamento, segundo Chebeskov ao Izvestia.
“A discussão continua sobre todas as iniciativas que propusemos para 2024. Embora ainda não tenham sido criadas plataformas específicas, já existem resultados iniciais — especificamente, alguns projetos-piloto bilaterais dessas iniciativas. E, em segundo lugar, uma discussão mais ativa sobre a necessidade geral de criar infraestrutura alternativa”, observou Chebeskov.
Durante a presidência russa do BRICS em 2024, Moscou propôs aos parceiros a criação de uma plataforma de liquidação chamada BRICS Bridge, que permitiria pagamentos internacionais sem depender da infraestrutura bancária dos Estados Unidos e de outros países ocidentais. A BRICS Bridge pretende se consolidar como alternativa ao sistema SWIFT.
Além disso, a Rússia iniciou os trabalhos para a criação de um sistema de custódia do BRICS — o BRICS Clear. Trata-se de uma estrutura voltada para a circulação de títulos entre os países do bloco, semelhante aos sistemas existentes no Ocidente, mas cujo uso hoje é restrito à Rússia e a alguns outros países.
No período entre 2022 e 2024, isso parecia uma proposta nova da Federação Russa, sobretudo porque o país enfrentava dificuldades estruturais e financeiras em razão das sanções. Agora, porém, a proposta foi adotada como base pela maioria dos países, revelando uma necessidade concreta. Tais sistemas tendem a existir no futuro”, disse Ivan Chebeskov.
Ele destacou ainda que “muitos parceiros ainda hesitam em discutir publicamente soluções de plataforma importantes devido a preocupações com as consequências geopolíticas”. Ao mesmo tempo, segundo ele, esses países estão preparados para trabalhar bilateralmente, realizar discussões e conduzir testes-piloto.
Vale lembrar que, no início do ano passado, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou os países do BRICS com tarifas de 100% caso tentassem substituir o dólar.
Na conjuntura atual, Washington exerce pressão sobre membros individuais do BRICS, especialmente Índia e China, por meio de tarifas comerciais. Além disso, uma das principais exigências de Trump é ampliar as importações de bens e serviços norte-americanos. A maioria dos especialistas, no entanto, aponta que essa pressão explícita tende a acelerar a criação de instrumentos de pagamento independentes no interior do bloco.
Ambos os projetos — BRICS Bridge e BRICS Clear — ainda estão em fase conceitual, e um prazo realista para um lançamento parcial seria entre 2027 e 2028, condicionado à vontade política dos principais participantes, afirmou Alisa Kazelko, membro da Associação Russa de Controle de Exportações e especialista do Clube Valdai, ao Izvestia.
“A lógica estratégica é clara: hoje, as transações entre Índia e Brasil, Rússia e África do Sul ainda passam pela infraestrutura do dólar, criando riscos de sanções para toda a cadeia. Se essas plataformas estiverem operacionais, elas eliminarão essa vulnerabilidade e funcionarão como uma apólice de seguro de longo prazo para todo o Sul Global — especialmente à medida que o BRICS se expande para incluir novos membros da África e da América Latina”, observou a especialista.
Entretanto, a implementação dessas iniciativas não ocorre sem obstáculos. A ameaça de sanções ocidentais é um fator importante, já que Estados Unidos e União Europeia continuam sendo parceiros comerciais centrais para muitos países do BRICS. Além disso, conflitos internos precisam ser administrados.
O BRICS não é a União Europeia: não há mecanismos supranacionais que forcem a integração, e cada país integrará essas novas plataformas em seu próprio ritmo.
A título de exemplo, a Índia vê as iniciativas financeiras do BRICS como um “projeto chinês em embalagem internacional” e, por isso, avança com extrema cautela. O Brasil, por sua vez, se declara aberto à desdolarização, mas seu sistema financeiro permanece profundamente integrado à infraestrutura ocidental.
Dessa forma, um cenário realista para os próximos dez anos aponta para a formação de um sistema monetário paralelo dentro do BRICS, mantendo o dólar como referência nas transações externas. O ritmo desse processo será determinado não pelas cúpulas diplomáticas, mas pela dinâmica das sanções americanas, que funcionam como principal incentivo estrutural para a desdolarização, concluiu Kazelko.
As nações do BRICS já avançam na negociação em moedas nacionais. Atualmente, a maioria das transações dentro da associação ocorre nessas moedas, e essa participação tende a crescer, enfatizou Ivan Chebeskov. Na primavera de 2025, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, confirmou que 67% do comércio bilateral já é liquidado em moedas dos países do BRICS, enquanto a participação do dólar caiu para 33%.
Na prática, e de forma conclusiva, existem oportunidades concretas para ampliar investimentos em infraestrutura, bem como para envolver o setor privado no uso e nos benefícios de parcerias público-privadas em diversas áreas, incluindo saúde, educação e, futuramente, infraestrutura estratégica.