De Belém à Santa Marta: tecendo espaços de resistência e esperança
Cúpulas populares fortalecem a luta por justiça climática, soberania dos povos e transição energética.
Por Maureen Santos*
No intervalo de seis meses, a América Latina recebeu cúpulas extremamente importantes. Não me refiro somente aos dois eventos oficiais da agenda climática global: um no âmbito multilateral das Nações Unidas, com a realização da COP 30, instância máxima de tomada de decisão das Partes da Convenção do Clima e do Acordo de Paris; e outro por meio da vontade política do governo colombiano em fomentar a pressão sobre o tema da transição energética e convocar, juntamente aos Países Baixos, a primeira Conferência Internacional pela Eliminação dos Combustíveis Fósseis.
Me refiro às Cúpulas dos Povos, que, da Amazônia brasileira ao Caribe colombiano, seguiram tecendo os mapas das resistências e dos territórios do futuro. Saímos da Cúpula dos Povos de Belém com o desafio de seguir construindo unidade e convergências entre os movimentos e organizações sociais pelo mundo, e a Cúpula de Santa Marta veio nos cobrar que sigamos construindo cúpulas populares vivas, onde cada ponto de chegada seja, na realidade, um passo mais firme nos marcos de luta por demandas históricas.
Não fomos a Belém, nem a Santa Marta, para pedir pequenas mudanças em textos negociadores oficiais ou reformas simples do sistema multilateral em crise. Nosso horizonte é inegociável: queremos um futuro livre de combustíveis fósseis, livre de mineração, de agrotóxicos, dos monocultivos que desertificam a alma da terra e dos grandes projetos energéticos que servem sempre ao lucro, e não ao povo.
Falamos de corpos e territórios. Levamos em nossa bagagem para Santa Marta a energia vibrante de 70 mil pessoas que marcharam nas ruas de Belém. O som dos ventos que navegaram mais de 5 mil embarcações pelo rio Guamá e a força coletiva das camponesas/es e agricultoras/es familiares que produziram as 84 toneladas de alimentos agroecológicos que nutriram mais de 100 mil refeições.
Esses números não são só estatísticas: são a prova viva de que temos capacidade de organização, autogestão, de propor e apoiar políticas públicas, e o poder de sustentar a vida. Os seis eixos de convergência que nasceram lá produziram amadurecimento temático, com sínteses que iluminaram o caminho até Santa Marta. A declaração final de ambas as cúpulas não é só um escrito em papel: é um chamado aos povos do mundo para seguirmos esperançando e, sobretudo, tecendo a transição.
Por isso, é de se celebrar também a realização de uma primeira conferência independente por uma saída real da dependência dos combustíveis fósseis e da conferência científica que criou o Painel Científico para a Transição Energética Global. Os Estados são importantes para destravar diferenças e fornecer financiamento para a transformação, e a ciência, para democratizar o acesso ao conhecimento e diversificar a compreensão de mundo, seguindo o rumo apontado pelos povos.
Essa transição precisa ser liderada por mulheres negras, indígenas, de povos e comunidades tradicionais. Elas são nosso vínculo maior com a Mãe Terra e as verdadeiras arquitetas da transformação e guias da resistência.
Os desafios são imensos e o sistema é astuto. Buscam nos dividir, segmentar nossas agendas e criar disputas onde deveria haver unidade. Mas não permitiremos, pois nossas lutas diversas se solidarizam num mesmo solo e convergem em uma mesma construção e processo: um mundo sem guerras, sem desigualdades, com o petróleo embaixo do solo, sem a destruição do ser humano e da natureza.
Sigamos em marcha em Benin, Turquia, Palestina, Armênia e em todos os territórios do mundo, tecendo um multilateralismo dos povos.
*Maureen Santos é ecologista e ativista do movimento global por Justiça Climática. É coordenadora do Núcleo de Políticas e Alternativas da FASE, foi representante do Grupo Carta de Belém na organização da Cúpula dos Povos na COP 30 e participou do segmento Movimentos Sociais na Cúpula de Santa Marta.