Culto ao cinismo
A crise ambiental é aceita como inevitável, enquanto os mais ricos se blindam e a maioria paga o preço.
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, em visita à Alemanha para atenuar a desconfiança entre os europeus, afirmou que a aliança entre os EUA e a Europa Ocidental garantiu a segurança e o crescimento econômico no pós-guerra. Mas, segundo ele, teria cometido dois grandes erros: a excessiva abertura comercial, que teria favorecido países protecionistas, e o “culto climático”, que teria imposto restrições à economia ocidental, enquanto os “nossos inimigos” consomem mais petróleo e carvão.
Rubio não aprofundou sua tese climática e se limitou ao economês. A palavra “culto” sugere, retoricamente, que não há ciência na ciência do clima: ela seria apenas uma cortina de fumaça para camuflar disputas comerciais.
Rubio, Donald Trump et caterva têm acesso às informações científicas sobre a situação do clima mundial e sabem, melhor do que nós, que estamos a caminho do inferno. Com o agravamento dos eventos climáticos extremos em todo o mundo, ficou difícil sustentar o negacionismo puro e simples.
Externalidade inerente
Surge em cena, então, um novo tipo de negacionismo, que não nega o evidente aquecimento global nem suas causas antrópicas, mas o naturaliza, recusando-se a enfrentá-lo. Ele seria apenas uma externalidade inerente ao processo civilizatório, com a qual devemos conviver.
Os adeptos desse culto consideram que os EUA e outros países ricos têm melhores condições de resistir aos impactos do clima. E que sua classe e suas famílias podem se proteger melhor do que os demais mortais no próprio país. Portanto, que estes se virem.
Alguns dos bilionários que mandam no mundo erguem bunkers privados, autossustentados, em locais paradisíacos, onde possam se refugiar do inferno que consome o planeta. Esperam não estar mais aqui quando tudo se tornar insuportável e mentem ao dizer que fazem o melhor possível pelos que ficarão.
A ética do “fodam-se!” está longe de ser novidade histórica e sempre permeou, em essência, a luta pelo poder. Mas, a esta altura do processo incivilizatório, o que está em jogo é o futuro da vida na Terra. A externalidade derrete a máscara ideológica e o cinismo aflora em Rubio.