Coragem para construir a unidade do campo democrático e popular e compromisso com o futuro do país
Unidade da esquerda é chave para barrar extrema direita, reeleger Lula e ampliar força popular no Congresso.
O correr da vida (e da história), como diz Guimarães Rosa, esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Estamos vivendo uma dessas encruzilhadas históricas em que não basta ter razão: é preciso ter estratégia, generosidade política e compromisso com o futuro do povo brasileiro.
O mundo atravessa um período de instabilidade profunda, marcado por guerras e pelo avanço da extrema direita. Donald Trump, na presidência dos Estados Unidos, avança com seu projeto neocolonial e sua política agressiva para a América Latina, bombardeando países vizinhos, intervindo em processos eleitorais, ameaçando e aplicando supertarifas à importação de produtos, massacrando povos com políticas migratórias fascizantes e avançando sobre recursos estratégicos como petróleo e terras raras.
O trumpismo 2.0 dialoga diretamente com setores da extrema direita brasileira, que seguem ativos e organizados. Nesse cenário, as eleições de 2026 no Brasil tornam-se centrais para a geopolítica mundial.
No Brasil, mesmo após a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro, o bolsonarismo permanece como força social e institucional relevante. A eleição de 2022 foi vencida por Luiz Inácio Lula da Silva com 50,9% dos votos válidos, o que representou cerca de 60,3 milhões de votos, contra 49,1% — aproximadamente 58,2 milhões — obtidos por Bolsonaro. Foi uma vitória histórica, mas por margem apertada: pouco mais de dois milhões de votos em um universo superior a 118 milhões de eleitores. Essa diferença revela o tamanho do desafio que temos pela frente.
A correlação de forças no Congresso Nacional demonstra que a extrema direita não foi derrotada institucionalmente. O Partido Liberal (PL) elegeu 99 deputados federais e tornou-se a maior bancada da Câmara. Somados, partidos conservadores e do chamado centrão ultrapassam a marca de 250 parlamentares, consolidando uma maioria que impõe limites constantes ao governo federal. No Senado, a presença de forças alinhadas ao bolsonarismo também cresceu. É o chamado “Congresso inimigo do povo”, que mantém o governo Lula sob permanente tensão, negociando cada votação e enfrentando resistências para aprovar medidas essenciais à vida do povo.
Em Minas Gerais, o cenário também exige responsabilidade estratégica. No segundo turno de 2022, Lula venceu no estado por margem mínima, com cerca de 50,2% dos votos válidos, enquanto Bolsonaro obteve aproximadamente 49,8%. Essa diferença apertada demonstra que Minas é território decisivo na disputa nacional e que qualquer fragmentação do campo progressista pode custar caro.
É diante dessa realidade que defendo, com convicção, a construção de uma federação de esquerda entre o PSOL, o PT, o PCdoB, o PV e a Rede. Sei que há companheiras e companheiros que entendem que o PSOL nasceu para demarcar com o PT, quase como um contraponto permanente. Clamam por autonomia partidária absoluta, como se o PSOL existisse em um vazio conjuntural e não em um tempo histórico concreto, no qual a vida de pessoas reais está em jogo.
Essa visão estreita da conjuntura e do papel que o partido cumpre tem levado muitos a atacar a aliança com o governo Lula ou a composição dos ministérios por Sônia Guajajara e Guilherme Boulos. Ignoram a importância do diálogo para a obtenção de vitórias históricas para a classe trabalhadora, como o fim da escala 6×1, bandeira levantada pelo nosso partido e colocada em regime de urgência para votação no Congresso Nacional.
Ignoram, também, o papel que Sônia e Boulos tiveram na disputa em torno do Rio Tapajós. Os ministros ajudaram a tecer pontes entre a necessária luta popular indígena — que ocupou a empresa Cargill por mais de um mês — e o presidente Lula, o que reverberou em decisões governamentais de abertura ao diálogo e de reavaliação do Decreto 12.600. O sucesso não apenas em barrar retrocessos em um governo de ampla aliança, mas também em fazer avançar conquistas históricas concretas em um cenário adverso, é exemplo do que há de melhor no PSOL neste momento político: dialogar, acolher e traduzir as pautas populares vindas dos movimentos sociais e avançá-las com coerência, firmeza e responsabilidade, tanto na institucionalidade quanto fora dela, com o povo e com os movimentos sociais.
É esse o projeto de PSOL popular que componho e defendi ao longo desses anos.
A autonomia partidária do PSOL está preservada em uma federação, mas é necessário maturidade política para compreender a complexidade da conjuntura. A construção de um projeto de esquerda no Brasil não se dará pelo isolamento, mas pela capacidade de articular alianças estratégicas dentro do mesmo campo democrático e popular.
A federação é um instrumento político concreto diante das regras do sistema eleitoral brasileiro. O modelo proporcional, com coeficiente partidário, penaliza partidos que têm votação significativa, porém dispersa. Em 2022, o PSOL elegeu 12 deputadas e deputados federais, mas, em diversos estados, candidaturas expressivas ficaram de fora por não atingir o coeficiente. A cláusula de barreira segue sendo um desafio permanente. Ao federar, ampliamos nossas chances de eleger parlamentares onde hoje não conseguimos converter votos em cadeiras, fortalecemos bancadas estaduais e municipais e consolidamos um bloco mais robusto no Congresso Nacional, ampliando a bancada de esquerda — algo urgentemente necessário na atual conjuntura.
Eleger Lula foi fundamental para interromper um ciclo autoritário, e reelegê-lo é o maior desafio de 2026. Precisamos, também, garantir maioria parlamentar comprometida com o projeto popular, capaz de sustentar políticas públicas estruturantes, ampliar direitos trabalhistas, defender a democracia e enfrentar os interesses que historicamente bloquearam reformas estruturais no país. Se a diferença presidencial foi tão estreita, não podemos desperdiçar nenhum voto do campo progressista em disputas fragmentadas.
Minha corrente, a Revolução Solidária, tomou a decisão de apostar na unidade da esquerda porque entende que este é um momento histórico de responsabilidade. A federação não apaga nossa identidade. Pelo contrário, fortalece um PSOL mais maduro, menos sectário e mais conectado com as necessidades reais da classe trabalhadora. Nossa identidade não está na fragmentação, mas na luta concreta por moradia digna, por direito à cidade, por justiça social, por feminismo, por antirracismo e por um projeto socialista democrático. Fizemos longas consultas populares com nossas bases em vários estados e, em Minas, reunimos mais de 70 pessoas para compreender coletivamente a importância deste momento. É assim que tomamos nossas decisões políticas.
Em Minas Gerais, precisamos disputar para valer o governo do Estado, eleger nossas senadoras e ampliar nossas bancadas federais e estaduais. Não derrotaremos a direita mineira com isolamento político ou disputas internas. Derrotaremos com organização popular, unidade estratégica e um projeto claro de transformação.
Eu já estou pronta para esta federação de esquerda. Mais do que a união de partidos, defendo a criação de um campo de movimentos sociais e sindicais capaz de expressar a força do poder popular na construção de um projeto de futuro para o Brasil. Defendo essa construção com firmeza porque acredito que a história exige de nós coragem: coragem para reconhecer os riscos do avanço fascista; coragem para compreender que a unidade é condição para a vitória; coragem para construir um bloco sólido, democrático e popular capaz de garantir conquistas reais para o povo trabalhador.
O que está em jogo não é apenas o destino de um partido. É o futuro do Brasil. E, diante dessa encruzilhada, eu escolho estar do lado da unidade com o campo que, mesmo na fase mais predatória do capital, sustenta avanços concretos para o povo trabalhador.