Como o Acordo de Escazú impacta as juventudes amazônicas?
Juventudes amazônicas defendem territórios e cobram a ratificação do Acordo de Escazú no Brasil
Por Matheus Azevedo
Quando se escuta falar sobre Amazônia, normalmente aparecem discursos sobre floresta, clima, além das belas imagens das copas das árvores. Mas pouco se fala sobre quem está diariamente defendendo esses territórios. Pouco se fala sobre as juventudes que vivem nas comunidades tradicionais e que crescem aprendendo que proteger o rio, a floresta e o território também significa enfrentar ameaças, violência e abandono político.
É nesse contexto que o Acordo de Escazú se torna urgente. Porque ele não trata apenas de meio ambiente, mas se postula como um instrumento de proteção de vidas. É sobre garantir acesso à informação, participação pública e justiça ambiental para quem historicamente foi silenciado.
Nós, juventudes amazônicas, sabemos o que significa defender nossos territórios sem proteção suficiente. Somos jovens extrativistas, indígenas, quilombolas e periféricos que enfrentam o avanço da mineração, da grilagem, do desmatamento e da violência contra nossos povos, comunidades, culturas e corpos. E, mesmo diante disso, seguimos organizando nossos territórios, construindo redes e ocupando espaços políticos que durante muito tempo nos foram negados.
Durante a COP4 do Acordo de Escazú, realizada nas Bahamas, nós levamos para o debate internacional as vozes das juventudes das florestas e das águas da Amazônia. Mostramos que existem soluções construídas a partir dos territórios e que os povos e comunidades tradicionais não podem continuar sendo tratados apenas como vítimas da crise climática, mas como protagonistas das respostas, como já afirmamos e reafirmamos na campanha levantada pela Aliança dos Povos da Floresta: “A resposta somos nós”. Mas, a cada dia, essa resposta é apagada.
Como eu disse durante esse processo de articulação internacional: “Nós somos o sonho dos nossos antepassados e também o esperançar das juventudes que virão depois de nós. Estar em um espaço internacional como a COP4 é uma oportunidade de fortalecer as redes regionais do Sul Global e mostrar que os povos e comunidades tradicionais da Amazônia têm propostas, experiências e soluções construídas a partir dos territórios”.
Mas também denunciamos uma contradição grave: o Brasil ainda não ratificou o Acordo de Escazú. O país que concentra a maior parte da Amazônia e que possui um debate fundamental sobre identidades continua atrasando uma agenda essencial para a proteção de defensores ambientais. Isso se torna ainda mais emblemático e caro para nós quando lembramos que foi aqui, na Amazônia, que lideranças como Chico Mendes e Irmã Dorothy foram assassinadas por defenderem os territórios e a vida.
Nós, juventudes amazônicas, estamos cansados de sermos lembrados apenas nos discursos sobre clima enquanto seguimos expostos à violência nos nossos territórios. Não queremos ocupar espaços internacionais apenas para relatar tragédias. Queremos ser reconhecidos como sujeitos políticos que constroem caminhos reais de justiça climática e proteção territorial.
Ratificar Escazú é reconhecer que defender a Amazônia não pode continuar sendo uma sentença de ameaça ou morte. É garantir que nós possamos existir, participar e lutar sem medo. Porque proteger os territórios também é proteger o futuro.