A Copa do Mundo costuma ser apresentada como uma celebração global do encontro entre povos, culturas e nações. Em sua narrativa oficial, o torneio simboliza integração, convivência e pertencimento a uma comunidade internacional unida pelo esporte. No entanto, a Copa do Mundo de 2026, realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, oferece um exemplo eloquente das contradições que marcam a ordem global contemporânea e das desigualdades que atravessam a mobilidade humana.

Enquanto milhões de turistas, atletas e dirigentes atravessam fronteiras para participar do maior evento esportivo do planeta, nem todos experimentam essa circulação da mesma forma. A Copa revela aquilo que pesquisadores das migrações vêm demonstrando há décadas: o direito de se mover pelo mundo está distribuído de maneira profundamente desigual. Algumas nacionalidades atravessam fronteiras com facilidade; outras encontram suspeita, vigilância, humilhação e exclusão.

O caso do árbitro somali Omar Artan tornou-se emblemático dessa realidade. Mesmo portando visto válido, passaporte diplomático e credenciais oficiais da FIFA, Artan foi detido e impedido de ingressar nos Estados Unidos sob justificativas vagas relacionadas à segurança. O episódio evidencia como determinadas origens nacionais continuam sendo tratadas como potenciais ameaças, mesmo quando todos os requisitos legais foram cumpridos. A fronteira, nesse sentido, não funciona apenas como um mecanismo administrativo; ela opera como um dispositivo que seleciona quais corpos são considerados legítimos e quais permanecem sob suspeita permanente.

Esse fenômeno insere-se em um contexto mais amplo de endurecimento das políticas migratórias, expansão dos mecanismos de vigilância e fortalecimento de discursos nacionalistas. Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos sediavam um evento que pressupõe abertura ao mundo, organizações da sociedade civil denunciavam detenções arbitrárias, discriminação racial, restrições de viagem e o aumento das operações de fiscalização migratória. Diversas campanhas surgiram para denunciar o medo e a insegurança vividos por comunidades migrantes durante o torneio.

A situação torna-se ainda mais significativa quando lembramos que muitos dos países cujos cidadãos enfrentam maiores obstáculos para circular são exatamente aqueles marcados por guerras, colonialismo, intervenções militares, sanções econômicas ou longos processos de exploração. Assim, a mesma ordem global que produz deslocamentos forçados frequentemente ergue barreiras para aqueles que foram deslocados por essas próprias dinâmicas.

Nesse sentido, a Copa do Mundo de 2026 nos permite observar um paradoxo central da contemporaneidade: vivemos em um mundo globalizado para mercadorias, capitais e grandes eventos, mas profundamente restritivo para determinados seres humanos. As fronteiras permanecem abertas para alguns e fechadas para outros. A mobilidade tornou-se um privilégio distribuído de forma desigual, refletindo hierarquias históricas de poder, raça, nacionalidade e pertencimento.

Ao mesmo tempo, a Copa também revelou formas de resistência. Em diversas cidades, moradores, organizações comunitárias, sindicatos e movimentos de direitos humanos mobilizaram-se para acolher visitantes, proteger comunidades migrantes e denunciar políticas excludentes. Essas iniciativas lembram que a hospitalidade não é apenas uma política de Estado; ela também pode ser uma prática ética e coletiva capaz de desafiar discursos de medo e exclusão.

Por isso, a Copa do Mundo não deve ser vista apenas como um evento esportivo. Ela constitui um laboratório privilegiado para observar as disputas contemporâneas em torno das fronteiras, da cidadania e dos direitos humanos. Ao analisar a Copa a partir das migrações, somos levados a uma questão fundamental: os refugiados e migrantes não são uma anomalia da ordem mundial. São, muitas vezes, o resultado mais visível das violências, desigualdades e exclusões que essa mesma ordem produz. E as fronteiras, longe de serem simples linhas geográficas, revelam-se mecanismos políticos que distribuem de forma desigual não apenas o direito ao movimento, mas também o reconhecimento pleno da humanidade.

Rima Awada é libanesa brasileira, psicóloga, escritora, e coordenadora da pós-graduação do curso de Psicologia e Migração da PUC MG.