Cartas que Trump usa contra rivais como o Brasil
Entre tensões globais, Trump reposiciona os EUA e pressiona o Brasil em economia, política e soberania
A geopolítica mundial não pode se dissociar da recorrente escalada entre EUA e China enquanto rivais, da construção de novas alianças, da evolução do caminho do capitalismo de Estado e da manutenção de um processo de erosão da confiança na liderança política. Indubitavelmente, tendo os EUA no centro de muitos acontecimentos.
Visitando fatos recentes, pode-se recorrer à dramática captura do líder venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, à surpresa das constantes especulações sobre uma possível oferta dos EUA para comprar a Groenlândia e, especialmente, à rivalidade no Oriente Médio, com o resultado em conflito real a partir da ação conjunta de bombardeio EUA-Israel contra o Irã, ainda no final de fevereiro. Uma história que estamos vivendo com o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, com desdobramentos amplos na economia e na política. O cálculo dos EUA e da UE sobre as reservas de petróleo estocadas estava errado. Assim, o efeito se fez mais presente e países, principalmente na Ásia, começaram a racionar combustível.
Entre avanços e recuos, o bloqueio dos EUA permitiu, seletivamente, a passagem de alguns carregamentos destinados à China, sublinhando a natureza estratégica da política estadunidense.
Não podemos esquecer que estamos no meio de um tensionamento de amplo conhecimento mundial sobre semicondutores, terras raras e Taiwan. Ainda assim, a relação entre os EUA e a China tem se mantido mais pragmática do que conflituosa. O fracassado encontro em maio entre os presidentes Trump e Xi produziu poucos resultados concretos, além de uma encomenda de 200 aeronaves da Boeing. Mas o acordo para um novo encontro em Washington, em setembro, mostra uma tentativa de ambos os lados em manter, pelo menos superficialmente, uma relação respeitosa.
Neste contexto, protagonistas da França, Alemanha e Canadá também visitaram Pequim, sugerindo que “ser amigo da China” pode estar se tornando aceitável novamente nas capitais ocidentais. As tarifas recíprocas dos EUA sobre a China e outros países foram consideradas ilegais pela Suprema Corte dos EUA, um sinal encorajador de independência judicial. Mas Trump recorreu a outros caminhos para imposição de sanções, inclusive ao Brasil.
Assim, é provável que as tarifas sejam efetivadas sob uma legislação comercial alternativa. As tarifas em si não pareceram ser um ponto de discórdia importante na cúpula Trump-Xi; a situação no Oriente Médio teve maior destaque.
A ascensão de partidos políticos mais extremistas intensificou a polarização política em diversas democracias. No Reino Unido, o bom desempenho do Partido Reformista nas eleições locais desencadeou uma disputa pela liderança dentro do Partido Trabalhista, que teve como desdobramento a renúncia do primeiro-ministro e a provável chegada do ex-administrador de Manchester, que se tornou parlamentar. Assim, o trabalhista Andy Burnham surge cotado para substituir Keir Starmer e assumir o governo britânico.
Entre os germânicos, o AfD ascendeu eleitoralmente e está bem posicionado para vencer as eleições estaduais na Saxônia-Anhalt ainda este ano. Na França, o partido de direita Reunião Nacional permanece firmemente à frente nas pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial de 2027.
Uma surpresa foi a decisão da Hungria de destituir Viktor Orbán do poder após 16 anos e substituí-lo por um líder mais moderado. Isso representa um contraponto raro, dando sinais de que, politicamente, a visão dos eleitores pode retornar ao centro.
A decisão dos Emirados Árabes Unidos de se retirarem da OPEP é outro desenvolvimento importante. Ela ressalta a fragilidade da região e sinaliza que, uma vez reaberto o Estreito de Ormuz, os Emirados Árabes Unidos provavelmente aumentarão significativamente a produção de petróleo acima das quotas anteriores da OPEP, o que deverá ajudar a aliviar as pressões sobre os preços do petróleo ao longo do tempo.
O governo dos EUA continuou a expandir seu papel direto em setores estratégicos, como tecnologia e minerais críticos. Adquiriu participações consideráveis em empresas como a Intel, que superou o mercado estadunidense em geral no acumulado do ano, enquanto os ativos relacionados a terras raras também apresentaram bom desempenho. Em 21 de maio, o presidente Trump anunciou que o Departamento de Comércio investirá ainda mais em empresas de tecnologia, com foco especial em computação quântica.
A elevação da intervenção estatal em setores-chave é uma demonstração latente do capitalismo de Estado. O desdobramento do mercado permanece complexo: o apoio governamental pode ser benéfico para determinadas empresas, mas também levanta questões sobre alocação de capital, risco político e competitividade no longo prazo. Esta é uma área que merece atenção especial.
O tensionamento geopolítico se aproxima do ápice no segundo semestre de 2026. O pior é que a desescalada provavelmente não será suave. O acordo frágil das negociações entre EUA e Irã, somado aos sinais recorrentes de que o presidente Putin deseja concluir o conflito na Ucrânia até o final do ano, aponta para uma redução gradual do risco de manchetes. Abordando o protagonismo do presidente Trump, ele caminha com premissas internas para diminuir as tensões: o 250º aniversário da independência dos EUA, em 4 de julho, que ele não quer ver ofuscado por uma guerra, e as eleições de meio de mandato no final do ano, nas quais um conflito prolongado poderia acarretar custos políticos para os republicanos.
Os Estados Unidos são, simplesmente, menos confiáveis como garantidores de segurança. Não apenas por causa dos discursos ameaçadores à Dinamarca em razão da Groenlândia, mas também por demonstrarem que sua capacidade militar é menos real do que alardeavam. Os Estados Unidos não conseguiram forçar o Irã a fazer o que queriam. Não conseguiram manter o Estreito de Ormuz aberto quando assim se propuseram. Logo, a preeminência militar dos EUA se mostra menos intimidante e menos reconfortante para quem via os estadunidenses como aliados em um conflito efetivo. Não cabe aqui duvidar de sua liderança bélica, mas sim da capacidade de impor, na prática, sua força em qualquer situação.
Em outra perspectiva, a possibilidade de que a Europa possa se defender e alcançar sua própria segurança sem os Estados Unidos parece muito mais forte do que há pouco tempo. E isso não se deve apenas à guerra no Irã, mas também à guerra na Ucrânia. Os Estados Unidos praticamente pararam de fornecer qualquer tipo de ajuda à Ucrânia quase imediatamente após a posse de Trump. A ajuda americana de todos os tipos, especialmente a militar, desapareceu completamente.
Mas o inesperado aconteceu. A Ucrânia ainda se mantém. Aliás, a guerra parece estar pendendo para o seu lado. Isso se deve, em parte, ao fato de a Europa ter intensificado seus esforços, principalmente por meio da ajuda econômica: a Europa praticamente preencheu a lacuna deixada pelos Estados Unidos, de modo que o fluxo de recursos para a Ucrânia continua. A recente reunião do G7 demonstra isso, com Trump e Zelensky presentes, evidenciando o reconhecimento de que os ucranianos ainda estão no jogo, especialmente pelo desenvolvimento de drones eficientes.
Ao mesmo tempo, o regime político subjacente permanece mais fragmentado e controlado pelo Estado do que na década anterior. Os EUA aprofundam seu papel direto em setores estratégicos, reforçando a tendência em direção ao capitalismo de Estado e à política industrial como motores centrais do mercado. Novas alianças e mudanças na dinâmica energética também construirão esse cenário.
A realidade que se apresenta, com mercados politicamente polarizados, sugere a necessidade de foco. O apoio crescente a partidos mais extremistas no Reino Unido, na Alemanha e na França amplia a incerteza política e regulatória. Nesta conjuntura, esses mercados se tornam áreas propícias para seleção ativa de ações, baseada em análises fundamentalistas, em vez de uma exposição ampla e passiva.
Manter a diversificação entre os blocos geopolíticos torna-se fundamental. A combinação de uma relação EUA-China mais pragmática e o aprofundamento do capitalismo de Estado nos EUA justifica uma exposição diversificada entre regiões e cadeias de suprimentos, evitando concentração excessiva em qualquer bloco geopolítico específico.
É difícil apontar uma certeza neste mundo conturbado. Indubitavelmente, os ucranianos adorariam ter mais mísseis Patriot para interceptar parte dos mísseis russos que estão destruindo igrejas do século XI e outras estruturas históricas. Mesmo com o protagonismo de Trump, nem mesmo os Estados Unidos são indispensáveis. Nem financeiramente, diante da ascensão do BRICS, nem militarmente, observando China, Rússia e o surpreendente Irã.
O domínio chinês na indústria manufatureira significa que, em praticamente todas as dimensões produtivas, a China é uma superpotência, estando realmente muito à frente, embora ainda falte contabilizar a grandeza financeira e tecnológica estadunidense, o que inverteria esse sinal. Mas há hoje muito mais paridade entre Europa e Estados Unidos do que antes, porque os EUA já não estão sozinhos no domínio econômico e tampouco possuem o monopólio militar.
Passou-se uma era de guerras que parecia ter ficado para trás. Nesta situação, a ascensão da China e os esforços coordenados dos Estados Unidos e da Europa para lidar com essa ascensão deveriam ser o tema central da geopolítica. E assim temos os Estados Unidos, neste contexto conturbado, com a Europa praticamente sozinha. Mas imaginar a Europa sozinha já não é impossível como costumava ser. Este é um mundo que se inclinou para a China. Essa é, provavelmente, a notícia mais imprescindível.
Trump mudou o tabuleiro da América Latina. A direita venceu a eleição na Colômbia e encerrou o ciclo de Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda da história do país. Mais um governo de esquerda cai na América Latina — e a tendência parece não parar por aí.
Não é coincidência, é padrão induzido. A Argentina elegeu Milei, a Colômbia virou à direita e o mapa político do continente está mudando de cor. A onda conservadora avança na América Latina.
Enquanto isso, Trump desmontou a USAID — agência estadunidense que, por décadas, financiou ONGs e agendas progressistas ao redor do mundo. Cabe mensurar o impacto disso sobre a esquerda latino-americana. Encerrada em julho de 2025, a USAID teve mais de 80% de seus programas cortados. Em termos práticos, a esquerda latino-americana perdeu uma de suas maiores fontes de dinheiro e influência externa.
E no Brasil? O país é diferente de tudo isso. Somos 215 milhões de pessoas, alcançamos um IDH comparável ao de países elevados em desenvolvimento e possuímos uma economia digna de estar no G7. Assim, as cartas que Trump jogou com outras nações rivais, como Venezuela, Irã e, provavelmente, Cuba, teriam pouca probabilidade de repetição no gigante sul-americano.
Mas uma verbalização já demonstra sua intenção, e ele possui aliados relevantes, como as grandes empresas de tecnologia da comunicação. O Brasil aparece como “teste”: o presidente estadunidense compartilhou análises que classificam as eleições presidenciais brasileiras de outubro de 2026 como o “próximo grande teste” de sua influência política global na América Latina.
Não cabe dúvida de que, com uma situação polarizada e de empate técnico, ele tentará, direta ou indiretamente, influenciar a formação de mais um presidente de direita, agora em um país com a grandeza e a importância estratégica do Brasil. Trump elevou consideravelmente o nível das declarações públicas que afetam o debate democrático no país.
Mas uma análise realista não deve se abster de premissas concretas. Trump teceu críticas públicas afirmando que o Brasil se tornou um país “politicamente perigoso”, questionando o sistema eleitoral brasileiro e criticando ações do Supremo Tribunal Federal (STF) referentes ao núcleo político associado a Jair Bolsonaro.
Na tentativa de fortalecimento da oposição, através do secretário de Estado Marco Rubio e do acolhimento a figuras como os filhos de Bolsonaro em Washington, os EUA buscam sinalizar forte apoio à consolidação de uma liderança conservadora alinhada aos seus termos na América do Sul.
A economia é o principal vetor de coerção adotado por Washington. A promessa de Trump de aplicar tarifas alfandegárias lineares sobre produtos importados representa um risco direto para as exportações brasileiras. Setores que vendem produtos industrializados e semimanufaturados para os EUA — como aço, alumínio e aeronaves — enfrentam barreiras protecionistas mais duras, reduzindo a competitividade nacional no mercado americano.
A relação triangular entre Brasil, EUA e China torna o cenário ainda mais complexo. A China é o maior parceiro comercial do Brasil, enquanto os EUA seguem como principal destino de produtos manufaturados de maior valor agregado. A intensificação da guerra comercial sino-americana coloca o Brasil em uma corda bamba diplomática. O país pode aumentar temporariamente a exportação de commodities, como soja e carne, para a China, caso Pequim intensifique retaliações a Washington. Mas a perda de longo prazo seria inevitável: a desaceleração da economia global causada pela guerra comercial reduziria a demanda internacional por matérias-primas e derrubaria os preços das commodities.
A pressão também inclui a tentativa de controle ou restrição sobre o acesso a terras raras, lítio e minerais críticos no Brasil, insumos essenciais para a transição energética e para as indústrias de alta tecnologia.
Na defesa da hegemonia do dólar, Trump estabeleceu sobretaxas adicionais de 10% para nações que apoiem políticas de desdolarização do comércio exterior. A medida mira diretamente o debate interno do BRICS sobre a criação de mecanismos alternativos de pagamento.
As políticas fiscais de Trump, que incluem corte de impostos internos e protecionismo, tendem a gerar inflação nos EUA. Para conter essa inflação, o Federal Reserve (Banco Central estadunidense) tende a manter os juros elevados. Isso atrai capital global para os títulos públicos americanos, provocando a desvalorização do real frente ao dólar e forçando o Banco Central do Brasil a manter seus próprios juros elevados para conter a inflação interna, embora atualmente o real se mostre valorizado.
No campo ambiental e do financiamento climático, o desinteresse da gestão Trump pelas metas de descarbonização faz com que o Brasil perca um parceiro importante no financiamento de fundos ambientais e na transição energética. Sem apoio financeiro ou pressão de Washington sobre o mercado de crédito de carbono, o país precisará buscar parcerias alternativas na União Europeia e na Ásia para sustentar seus projetos de preservação e bioeconomia.
No que tange à diplomacia e à polarização política, ou seja, no nível estritamente político, a presença de Trump fortalece movimentos de direita e conservadores no Brasil. Diplomaticamente, o governo brasileiro é obrigado a adotar um pragmatismo rígido, focando em agendas de interesse mútuo, como segurança e inteligência, e evitando alinhamentos ideológicos automáticos para não fechar portas com outros blocos econômicos.
E, por fim, Washington utiliza a pauta de segurança como instrumento de constrangimento à soberania jurídica brasileira. A designação de facções como terroristas ilustra esse movimento: os EUA oficializaram a classificação das organizações brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas globais. A diplomacia brasileira observa com reservas a brecha que isso abre para eventuais pedidos de intervenção ou ações externas de agências estadunidenses.
É difícil estabelecer uma definição precisa para o segundo semestre. Mas, se o Brasil é grande o suficiente para não caber em um golpe clássico, os EUA também estão envolvidos em múltiplas disputas mundiais que ainda não venceram — e que podem perder. Ainda assim, não se deve “deitar em berço esplêndido”.
Trump possui um propósito estratégico claro: impedir a consolidação de uma liderança do Sul Global no continente.