‘Bugonia’: Por que na adaptação de Yorgos Lanthimos o alienígena é uma mulher?
Como a troca de gênero no filme expõe o medo do poder feminino e o impacto do ódio digital contra mulheres na liderança
Por Luana Araújo

Na nova adaptação dirigida por Yorgos Lanthimos, ‘Bugonia’ retoma uma premissa curiosa: um homem passa a acreditar que alguém ao seu redor é, na verdade, um alienígena infiltrado na Terra. A ideia, porém, não é inédita. O filme é inspirado em ‘Save the Green Planet!’ (2003), produção sul-coreana que também acompanha um protagonista paranoico convencido de que uma figura poderosa faz parte de uma conspiração extraterrestre.
Mas há uma mudança central na releitura de Lanthimos. No filme original, o alvo da paranoia era um homem — um executivo influente que o protagonista acreditava ser um alienígena disfarçado. Em ‘Bugonia’, essa figura se transforma numa mulher, a CEO de uma poderosa empresa farmacêutica interpretada por Emma Stone.
A troca pode parecer apenas um detalhe narrativo, mas foi uma decisão proposital. O roteirista Will Tracy, conhecido por seus trabalhos em ‘Succession’ e ‘O Menu’, revelou em entrevista à revista Empire que a mudança foi o motor inicial da adaptação. Segundo ele, o processo foi quase instintivo ao olhar para o roteiro original e decidir “virar a chave” da palavra homem para mulher.
Tracy explica que essa inversão muda completamente a voltagem dramática. Enquanto no filme de 2003 havia uma sátira sobre o oprimido contra o opressor de classe, em ‘Bugonia’ a tensão passa a ser também sobre dois homens que sequestram uma mulher poderosa por acreditarem que ela não é humana. Essa nova configuração introduz um nível de perigo e uma agressividade que tornam a leitura da situação muito mais politicamente carregada.

Ademais, Michelle (Emma Stone) representa o capitalismo no seu estado mais puro: tecnológico e inalcançável. Ao inspirar-se em CEOs como Mary Barra (General Motors), o roteirista Will Tracy coloca em cena a mulher que ocupa o topo de um sistema que, na base, está esmagando o trabalhador. Para os sequestradores, ela é o sistema personificado. A escolha por uma referência do mundo industrial pesado sustenta uma das teses centrais do filme: por que uma mulher em uma posição de tanto poder ainda soa como algo “estranho”?
Os dados sugerem que essa estranheza tem raízes profundas na realidade. No Brasil, o relatório Women in Business de 2024 da Grant Thornton, aponta que as mulheres ocupam cerca de 29% dos cargos executivos. Quando o foco recai sobre o cargo máximo de CEO em grandes empresas, esse número despenca para menos de 20%, segundo o Panorama de Gênero da B3.
Ao colocar a personagem no topo de uma indústria global, o longa expõe como o sucesso feminino ainda é lido como uma anomalia estatística — ou, no delírio dos protagonistas, uma prova de origem extraterrestre.
Aqui entra o conceito de que o ressentimento masculino é fabricado. Diante de um mercado de trabalho que destrói perspectivas, o homem frustrado encontra na “machosfera” um culpado fácil: a mulher que “tomou o seu lugar”. Em ‘Bugonia’, a paranoia alienígena é apenas a embalagem de ficção científica para esse ressentimento real.

O filme dialoga diretamente com o que os pesquisadores chamam de “Mercado da Misoginia”. Canais que monetizam o ódio, ensinando que a mulher é um obstáculo ou um objeto de controle; transformam frustração em lucro. No Brasil, esse mercado já soma bilhões de visualizações e milhares de vídeos que normalizam a violência de gênero sob a estética de “conselhos de coach“.
Assim, Michelle é tratada como alienígena porque, em um mundo que utiliza o ódio digital para esconder as falhas do capital, uma mulher poderosa continua sendo o fenômeno mais improvável e ameaçador de todos.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.