Bets apostam no fracasso do Brasil

Projeto de lei no Rio visa proibir publicidade de apostas on-line para conter vício e proteger do endividamento

No Fla-Flu das transmissões esportivas, não importa muito para qual lado você chuta. Nestas semanas de Copa do Mundo, ficou evidente uma tática que parece se multiplicar por todos os lados do campo. As plataformas de apostas estão nos jogos ao vivo, nas camisas dos clubes, nas redes sociais, nos aplicativos e até nas recomendações de influenciadores digitais.

O resultado é uma naturalização perigosa: apostar virou entretenimento, oportunidade de renda e estilo de vida. Uma jogada bem ensaiada de quem lucra bilhões com a ilusão do ganho fácil. O número de brasileiros que apostaram em bets durante o torneio triplicou em comparação com maio e alcançou 34,8% da população, segundo levantamento da fintech Klavi, com base em dados do Banco Central. Em maio, esse índice era de 11%.

Mas o jogo real é muito diferente daquele que a publicidade vende. Milhares de famílias brasileiras estão endividadas por causa do vício em apostas. Jovens comprometem sua renda na esperança de um retorno que quase nunca chega. Trabalhadores deixam de pagar contas básicas enquanto plataformas multinacionais ampliam seus lucros com campanhas cada vez mais agressivas.

Não estamos diante de uma simples escolha individual, mas de um problema de saúde pública, de defesa do consumidor e de justiça social. Posicionar-se publicamente nas redes digitais também é jogada de craque, como demonstra a campanha Block no Tigrinho, capitaneada por Paula Lavigne e pelo movimento 342 Artes.

Por isso, apresentei, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, um projeto de lei que proíbe a publicidade de apostas no estado. A proposta não elimina a atividade, mas estabelece um limite essencial: empresas que lucram com a dependência não podem promover suas marcas de forma irrestrita, especialmente quando essa mensagem alcança crianças, adolescentes e populações vulneráveis.

O projeto também determina que o Estado lance campanhas permanentes de conscientização sobre os riscos das apostas e fortaleça a rede pública de saúde para acolher pessoas que desenvolveram dependência. Quem enfrenta uma compulsão precisa encontrar atendimento e apoio, e não mais estímulos para continuar no jogo.

A história recente oferece um precedente claro: limitar a publicidade de produtos nocivos salva vidas. Foi assim com o cigarro, por exemplo. O debate sobre as apostas segue a mesma lógica — não é moralismo, mas responsabilidade pública na redução de danos diante de uma indústria que transforma vulnerabilidade em lucro.

O Rio de Janeiro não pode assistir passivamente à consolidação de uma economia baseada no endividamento das famílias. Desenvolvimento real se faz com emprego, educação, ciência e cultura. Não se constrói futuro apostando o salário do mês. Regular a publicidade das bets é proteger quem mais precisa. É colocar a vida e a dignidade das pessoas acima dos interesses de um mercado que cresce justamente porque explora a esperança de quem está em situação de vulnerabilidade.

A partida ainda não terminou. Mas o Estado precisa entrar em campo.