Por Michelle Daminello

Foto: cnbc.com

No final do século XIX, o cinema chegou aos Estados Unidos como uma novidade que despertava curiosidade, exibido em poucos lugares mais como uma atração tecnológica do que como uma forma de arte. O lucro vinha principalmente do controle de equipamentos e patentes, e não dos filmes em si.

Esse cenário começou a mudar no início do século XX, quando avanços técnicos permitiram narrativas mais longas e o cinema passou a se consolidar como entretenimento popular. A partir de 1905, tornou-se um fenômeno de massa e ajudou a formar as bases da indústria que hoje conhecemos como Hollywood.

A presença feminina no início de Hollywood não foi uma exceção, mas uma consequência direta do próprio estágio inicial da indústria. Nos primeiros anos, o cinema ainda era um campo desorganizado, sem hierarquias rígidas e em constante processo de invenção.

Longe de ser visto como uma carreira glamourosa, o cinema era considerado por muitos um entretenimento inferior e de pouco prestígio. Com poucas barreiras de entrada, o setor permitia uma maior circulação de profissionais. As funções ainda estavam sendo definidas, e era comum que as equipes acumulassem diferentes tarefas no set, colaborando na produção conforme a necessidade. Como aponta a historiadora Karen Ward Mahar no livro Women Filmmakers in Early Hollywood, as mulheres tiveram participação significativa na produção cinematográfica nas primeiras décadas da indústria americana.

No auge do cinema silencioso, elas encontraram espaço para ocupar posições centrais no funcionamento da nova indústria, participando de praticamente todas as etapas da produção cinematográfica. A escrita de roteiros, por exemplo, tornou-se uma das áreas com maior participação feminina nas primeiras décadas do cinema.

Entre os anos 1910 e 1920, muitas das roteiristas mais bem pagas e influentes trabalhavam nos grandes estúdios, entre elas Frances Marion, uma das profissionais mais poderosas de Hollywood no período, responsável por alguns dos roteiros mais bem-sucedidos da época e vencedora de dois prêmios do Oscar. Seu trabalho ajudou a consolidar estruturas narrativas e personagens que definiriam a linguagem do cinema narrativo.

Frances Marion. Foto: HAP1969


Outro papel fundamental desempenhado por mulheres foi na montagem, uma função que surgiu do trabalho manual de cortar e organizar rolos de filme em laboratórios e que rapidamente se tornou uma etapa essencial da criação cinematográfica. Na época, esse trabalho foi associado às mulheres por habilidades consideradas “domésticas”, como costura e bordado.

Algumas foram ainda além. Em determinados momentos da década de 1910, mulheres chegaram a dirigir diversos longas-metragens e a ocupar posições de destaque dentro dos estúdios. O próprio sistema de estrelas, o chamado star system que começava a se formar, deu a algumas atrizes poder suficiente para criar suas próprias companhias de produção, numa tentativa de controlar suas carreiras e os lucros gerados por seus filmes, pelo menos por um período.

Durante a Primeira Guerra Mundial, a presença feminina na indústria cinematográfica americana atingiu um de seus momentos de maior influência. Com muitos homens envolvidos no esforço de guerra e com a indústria ainda em formação, as mulheres ocuparam espaços importantes em diferentes áreas da produção. Entre 1918 e 1922, elas chegaram a comandar mais de vinte companhias de produção nos Estados Unidos, um nível de participação que dificilmente se repetiria nas décadas seguintes.

Ao mesmo tempo, o próprio cinema ganhou um novo papel estratégico. Em 1918, o governo americano passou a tratar a atividade como uma indústria essencial para o esforço de guerra, utilizando filmes como ferramenta de propaganda e difusão de valores nacionais. Grandes estrelas do período mobilizaram sua popularidade em campanhas públicas, ajudando a promover a venda de títulos financeiros destinados a financiar o conflito.

A atuação feminina também ultrapassou os limites dos estúdios. Algumas profissionais viajaram para a Europa como correspondentes ou participaram de iniciativas de entretenimento voltadas às tropas, levando filmes e organizando exibições para soldados no front. Entre elas estava Frances Marion, que antes de se tornar uma das roteiristas mais influentes de Hollywood atuou como correspondente durante a Primeira Guerra Mundial, uma experiência rara para mulheres jornalistas na época e que mais tarde influenciou sua visão narrativa.

O conflito reduzia drasticamente a produção cinematográfica em vários países europeus, abrindo espaço para que Hollywood ampliasse sua presença no mercado internacional justamente no momento em que mulheres ainda ocupavam posições relevantes dentro da indústria.

O cinema passou por uma rápida transformação. Ao longo da década de 1920, Hollywood consolidou-se como um negócio cada vez mais lucrativo, organizado e poderoso. Os grandes estúdios estreitaram sua relação com bancos e investidores e adotaram estruturas corporativas rígidas, nas quais cargos de comando, como direção e produção, passaram a ser majoritariamente ocupados por homens.

Ainda assim, algumas cineastas usaram o próprio cinema para abordar temas sociais considerados ousados para a época. Diretoras exploravam questões como controle de natalidade, pobreza, direitos das mulheres e desigualdade social, assuntos raramente discutidos de forma aberta na sociedade do início do século XX.

Uma das figuras mais emblemáticas desse movimento foi Lois Weber, que dirigiu filmes conhecidos por tratar de dilemas morais e problemas sociais de maneira direta, mostrando como o cinema podia funcionar não apenas como entretenimento, mas também como espaço de debate público.

Lois Weber quebrou paradigmas no primeiros anos do cinema. Foto: Flicker Alley, LLC

Outro fator decisivo foi a transformação tecnológica da indústria. A chegada do cinema sonoro no final dos anos 1920 também contribuiu para reforçar a associação entre direção e domínio técnico, um argumento frequentemente usado para afastar mulheres dos cargos.

A ironia é que uma das soluções técnicas que ajudaram a viabilizar o novo cinema sonoro foi criada por uma mulher. Durante as filmagens de The Wild Party (1929), a diretora Dorothy Arzner adaptou um microfone preso a uma vara para captar o diálogo dos atores sem limitar seus movimentos. O princípio daria origem ao boom de som, equipamento que continua amplamente utilizado no cinema.

A própria Primeira Guerra Mundial ajuda a explicar o início desse deslocamento. Durante o conflito, muitas mulheres ocuparam posições deixadas pelos homens mobilizados para o front. Quando esses trabalhadores retornaram, parte desses espaços foi rapidamente retomada, concentrando novamente as decisões criativas e administrativas nas mãos de executivos e financiadores, quase todos homens.

Foi esse rearranjo que reduziu progressivamente o espaço que antes existia para mulheres em posições de liderança dentro da indústria. O impacto foi visível em poucas décadas. Profissionais que haviam sido fundamentais para o desenvolvimento do cinema silencioso desapareceram dos cargos de comando e, posteriormente, também da própria narrativa histórica de Hollywood.


Por que a história do cinema insiste em esquecer que as mulheres ajudaram a criar Hollywood?

A partir dos anos 1930, a presença feminina na direção tornou-se rara, com poucas exceções, como Dorothy Arzner, que conseguiu continuar dirigindo dentro do sistema de estúdios, e Ida Lupino, praticamente a única diretora ativa nos anos 1950. Aos poucos, essa ausência também passou a moldar a forma como a própria história do cinema foi contada. Durante décadas, muitos livros, cursos universitários e escolas de cinema ensinaram uma narrativa centrada quase exclusivamente em diretores homens, transformados nos grandes inventores da linguagem cinematográfica.

Nesse processo, as mulheres que ajudaram a construir Hollywood no início do século XX foram sendo esquecidas ou reduzidas a notas de rodapé. Grande parte do cinema silencioso foi perdido, e os filmes dirigidos por mulheres foram ainda menos preservados e restaurados. Parte dessa história é revisitada no documentário E a Mulher Criou Hollywood (2016), dirigido por Clara Kuperberg e Julia Kuperberg.

As irmãs Kuperberg. Foto: Sylvie Castioni

O efeito desse apagamento é duradouro. Sem esses nomes presentes na história oficial, consolidou-se um mito conveniente: o de que foram os homens que inventaram o cinema e que as mulheres chegaram depois, ocupando naturalmente menos espaço na indústria.

Este ano, um dos nomes que volta a aparecer nas discussões sobre direção é o de Chloé Zhao, cineasta que fez história ao vencer o Oscar por Nomadland (2020). Seu trabalho consolidou uma carreira marcada por um olhar íntimo e humanista, mostrando que o cinema contemporâneo continua sendo profundamente transformado por diretoras que desafiam as estruturas tradicionais da indústria.

Recontar essa história hoje é também uma forma de colocar o presente em perspectiva. Quando o debate sobre a presença feminina na direção volta à tona a cada nova temporada do Oscar, muitas vezes parte da ideia de que as mulheres ainda estão tentando entrar em um espaço que sempre foi masculino.

Se hoje ainda são poucas as mulheres entre os principais reconhecimentos da indústria, isso não é resultado de uma ausência histórica, mas de um processo gradual de exclusão e apagamento. Recuperar essas trajetórias é uma forma de lembrar que a desigualdade de gênero no cinema não surgiu por acaso, ela foi construída ao longo do tempo.

No Brasil, em um momento em que filmes como Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto (2025) reacendem debates sobre memória, história e a importância de não esquecer o passado, o cinema também nos lembra de algo essencial: contar histórias é uma forma de preservar aquilo que poderia ser apagado. E talvez essa seja uma das lições mais duradouras da própria história do cinema, a de que lembrar também é uma forma de resistir.

A cada nova temporada de premiações, a indústria parece repetir o mesmo roteiro. Mesmo após reformas institucionais, ampliação do corpo de votantes e discursos frequentes sobre diversidade, a academia continua apresentando listas em que a presença feminina na direção surge de forma episódica e continua sendo tratada quase como um acontecimento extraordinário.

O resultado provoca uma sensação muito familiar para quem acompanha essa história: como assistir ao mesmo filme reprisado inúmeras vezes na televisão aberta.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.