O piano de Vitor Araújo deságua na Metropole Orkest em TORÓ
Gravado no Holland Festival, em Amsterdã, projeto audiovisual aproxima a música pernambucana da cena sinfônica global
Por Nicole Adler
Para a música instrumental brasileira, atravessar fronteiras internacionais sem abrir mão de suas raízes ainda é um desafio raro. É justamente nesse território que o pianista e compositor pernambucano Vitor Araújo se movimenta em TORÓ, novo álbum e filme-concerto gravados ao vivo em Amsterdã ao lado da Metropole Orkest, lançado no Brasil pelo selo RISCO.
O projeto marca a estreia do artista como solista de uma orquestra sinfônica de porte internacional e transforma a força imagética da chuva nordestina em uma experiência sonora que reúne música de concerto, eletrônica, ritmos afro-indígenas e experimentação contemporânea. Gravado ao vivo, sem takes repetidos, o disco registra uma única noite que quase não aconteceu, ameaçada por uma infecção no dedo do músico.
O nome do disco: a chuva que nomeia em tupi-guarani
O título não veio fácil. Como músico instrumental, Vitor Araújo não dispõe do recurso que muitos artistas usam para batizar um trabalho: um trecho de letra, uma frase que já existe dentro da própria música. “As músicas são nomeadas e numeradas, isso é uma coisa que me facilita a vida, porque é uma tradição da música instrumental”, explica. A homenagem ao compositor pernambucano Moacir Santos, uma de suas principais referências, aparece justamente na forma embaralhada com que os “toques” e “cantos” surgem no disco — não em sequência, mas em saltos, como o próprio Moacir fazia.
Foi o designer gráfico Raul Luna, responsável pela identidade visual de todos os seus trabalhos, quem tensionou essa busca. Sem um nome, não havia como pensar a capa. O músico foi procurar em outra língua e encontrou, no tupi-guarani, uma palavra que atravessou o vocabulário brasileiro e se fixou especialmente no pernambucano: toró, a chuva forte que chega de repente e parece levar tudo consigo. “É uma coisa que vem muito repentinamente, é muito forte e parece que vai levar tudo. Parece que vai derrubar todos os prédios e alagar todas as ruas.”
Mais do que imagem, a palavra também nomeia a sonoridade que o artista perseguiu no disco: o maximalismo, a força e a comunhão de muitos elementos acontecendo ao mesmo tempo.

O TORÓ como uma pangeia sonora
O novo álbum representa uma virada na discografia de Vitor Araújo. Em trabalhos anteriores, o músico costumava se impor fronteiras: o projeto Mercúrio se restringiu à música eletrônica, enquanto A/B orbitou a música erudita e as suítes camerísticas. Desta vez, a proposta foi outra.
“O Toró já é um trabalho realmente de esgarçamento absoluto dessas fronteiras, de tentativa de amálgama (…). Fazer uma pangeia, né? Mais do que estabelecer estados, nações, é você estabelecer uma pangeia, uma zona musical com muita coisa acontecendo”
Vitor Araújo
O resultado é um disco que reúne, num mesmo fonograma, percussão nordestina, eletrônica, escrita orquestral contemporânea e voz — e que precisou ser mixado com cuidado para que essa sobreposição funcionasse no fone de ouvido com a mesma potência que teve ao vivo. “É muito diferente de você ter a percepção da música ao vivo”, pondera.
Na mixagem, Araújo precisou inclusive orientar o técnico a recuar o piano no balanço geral — instrumento que, em TORÓ, não ocupa o protagonismo habitual. A decisão reafirma o conceito do disco, que o desloca, nas palavras do próprio músico, do lugar de pianista para o de compositor: aqui, o piano deixa de ser centro para integrar uma arquitetura sonora maior.
As raízes pernambucanas na composição
Uma das questões centrais do projeto era como incorporar referências afro-indígenas e nordestinas a uma orquestra sinfônica europeia sem que elas se tornassem mera citação decorativa. A resposta de Araújo foi compor de dentro para fora: antes de escrever qualquer parte orquestral, ele pensava nos percussionistas com quem trabalha, todos vindos do Morro da Conceição, bairro do Recife de forte tradição percussiva. Ali, gerações se formam numa escola informal, ensinando umas às outras — muitas delas, pupilas de Naná Vasconcelos.
“Eu componho a música e penso ‘acho que Rafa vai adorar tocar nesse aqui’, ‘eu acho que Lucas vai adorar’, ‘acho que a Aduni vai adorar’. (…) Eu só vou pra parte de escrever para orquestra depois que eu já tô muito bem estabelecido ritmicamente com meus amigos de lá”
Vitor Araújo
A diferença entre a percussão pernambucana e a baiana, por exemplo, aparece no próprio instrumento: em Pernambuco, usa-se o ilú, um tipo de tambor de pele com lógica rítmica própria, diferente do atabaque. São esses detalhes que, segundo Vitor Araújo, impedem que as referências culturais funcionem apenas como perfumaria.
A banda que o acompanhou em Amsterdã inclui ainda Mauro Refosco — diretor musical de David Byrne, músico do Red Hot Chili Peppers e cofundador do Atoms for Peace ao lado de Thom Yorke e Flea —, além de Aduni Guedes, Amendoim, Felipe Pacheco Ventura e Charles Tixier.
A estreia como compositor orquestral: o Maracatu como partitura
Ter crescido mais como instrumentista do que como compositor deixou Araújo sem a prática de ver outros músicos lendo suas partituras desde cedo — experiência que compositores de formação costumam acumular aos poucos, das bandas sinfônicas na adolescência às big bands de jazz, até chegar às orquestras. Estrear diretamente com um conjunto de partituras inéditas diante de uma das mais relevantes orquestras sinfônicas da Europa foi, nas suas palavras, o que mais o deixou nervoso em todo o projeto.
A Metropole Orkest, sediada nos Países Baixos, venceu quatro Grammys e soma mais de 20 indicações ao prêmio. Entre os artistas que já colaboraram com a orquestra estão Ella Fitzgerald, Brian Eno, Jacob Collier e o coletivo Snarky Puppy. No Brasil, apenas Edu Lobo e Ivan Lins haviam gravado com o conjunto antes do músico pernambucano.
Vitor relembra que, no início do processo, sua preocupação era direta: “Meu Deus do céu, essa galera vai ler isso bem? Eles vão achar que a escrita tá limpa e bonita? Eles vão compreender o todo?”.
O nervosismo, porém, se dissipou nos ensaios. Os músicos da Metropole se entusiasmaram com as composições — e ainda mais quando a banda brasileira se juntou aos ensaios. “Os caras ficaram muito pirados porque eles não estão acostumados a tocar com esse tipo de ritmo”, conta. “Ficaram super felizes assim.”
Foi assim que o disco acabou gravado sob a regência do maestro Jacomo Bairos.
O concerto com nove dedos
No dia do concerto no Holland Festival, Vitor foi ao hospital duas vezes. A infecção no dedo anelar — o chamado dedo quatro — da mão direita avançava rápido. Os médicos alertaram que, se chegasse ao osso, havia risco de perder parte do dedo. Sob efeito de analgésicos e sem dormir, ele passou o dia entre o choro e a reorganização forçada, reescrevendo e reestudando suas partes para conseguir tocar com nove dedos. “Eu ficava chorando, primeiro porque tava doendo muito. Segundo, porque era amedrontador (…) era um concerto muito importante e eu não queria cancelar de jeito nenhum”, relata.
Houve uma sorte dentro do azar: em TORÓ, o piano ocupa um papel mais recuado do que o habitual. Exceto pelo Toque n.4 — “a única do repertório em que o piano é, de fato, o instrumento protagonista” —, ele se dedica a ostinatos e sustentação harmônica, sem assumir a liderança. Araújo tocou mais de 90% do concerto com nove dedos. Mas, nos momentos de maior imersão, a memória muscular venceu a precaução, e o dedo comprometido voltava às teclas — com as consequências previsíveis.
A repercussão internacional
Lançado em abril deste ano, TORÓ já circula pela imprensa europeia com resultados expressivos. A revista Musica Jazz, da Itália, dedicou quatro páginas ao artista, classificando-o como “uma das mais interessantes personalidades a emergir nos últimos tempos”. A britânica Songlines Magazine o aproximou da linhagem de Villa-Lobos, destacando sua “criatividade incandescente”. E uma revista tcheca de grande circulação — que trazia Lorde na capa — reservou espaço para o disco já em sua décima página.
“Tem saído em umas revistas de música muito importantes e as matérias sempre muito elogiosas. (…) Eu acho que o Brasil tem a melhor música do mundo à partir do século XX”
Vitor Araújo
Vitor percebe um movimento mais amplo por trás dessa receptividade europeia — algo que o cinema pernambucano, com sua recente projeção internacional, pode ter ajudado a catalisar. O fato é que ele vê hoje mais colegas circulando em turnês pela Europa do que há alguns anos, e a repercussão de TORÓ parece inserir seu nome de forma mais consistente nesse circuito.
O projeto audiovisual inclui também um filme-concerto dirigido por Paulo Camacho e Yara Ktaishe, com pré-estreias realizadas na Sala São Paulo e no Cinema São Luiz, no Recife. O álbum e o filme estão disponíveis nos canais de YouTube do artista e da Metropole Orkest.



