‘O Canto do Rio’ transforma conflito territorial em memória e resistência no litoral pernambucano
Filme de estreia de Rostand Costa acompanha moradores do Pontal de Maracaípe e revela os impactos da disputa territorial sobre comunidades tradicionais
Por Maria Antônia Diniz
Em sua origem tupi, “Maracaípe” já nasce como som: o “rio que canta”. A própria palavra guarda os sons da natureza em movimento, transformando a paisagem num instrumento percussivo movido pela vida ao redor. Mas o que acontece quando esse canto é estrangulado pelo avanço das cercas e pela lógica da exclusão? É nessa intersecção, onde a poesia do manguezal colide com a violência da disputa pela terra, que emerge “O Canto do Rio”, de Rostand Costa.
Em seu filme de estreia, o diretor pernambucano constrói um olhar atento sobre o cotidiano de marisqueiras, jangadeiros e trabalhadores que vivem transitando entre o mangue e o mar na região do Pontal de Maracaípe, em Ipojuca, litoral sul de Pernambuco. Por meio de depoimentos, de saberes locais, dados científicos e jornalísticos, o documentário evidencia como as restrições de acesso ao território impactam o direito à permanência e à identidade.
Fruto de uma pesquisa extensa sobre o avanço da especulação imobiliária em territórios tradicionais, “O Canto do Rio” encontra no muro de Maracaípe seu ponto de partida narrativo para evidenciar como confrontos territoriais em áreas de proteção ambiental ameaçam a permanência dos modos de vida dessas comunidades, atravessadas por práticas de racismo ambiental. Ao transformar esse conflito em imagem, som e memória, o filme também posiciona o cinema como instrumento de denúncia e preservação de memórias coletivas.
Entre a imagem e a denúncia
O cinema brasileiro carrega uma tradição de funcionar como ferramenta de enfrentamento e desconforto. Quando bem posicionada, a câmera atravessa fronteiras de classe, gênero e raça e estimula a reflexão sobre feridas frequentemente ignoradas pelas estruturas de poder. Seja pela via da ficção, como quando “Aquarius” expôs as violências urbanísticas e higienistas das construtoras no Recife, ou pela lente documental, na radiografia das desigualdades habitacionais de “Um Lugar ao Sol”, o audiovisual dificilmente fica em cima do muro.
Nesse sentido, “O Canto do Rio” mergulha nessa essência, adaptando a estratégia para um conflito que continua em curso. Aqui, o tom adotado não apenas enfatiza o ambiente de tensão no Pontal de Maracaípe, mas nos convoca a habitar a experiência de seus moradores.
O que a tela devolve é o retrato de uma comunidade vigiada e pressionada pela família Fragoso, que firma sua reivindicação sobre o território através do muro. Essa tensão, longe de se apresentar como um detalhe, revela uma estrutura de poder antiga, pautada em estratégias coloniais de conquista, apropriação e apagamento, que seguem organizando relações de poder em Pernambuco até hoje.
Arquitetura do Enfrentamento
Para construir o clima de tensão que atravessa o Pontal, “O Canto do Rio” opera na mesma lógica sensorial evocada pelo título. A direção de fotografia de Uhgo compreende a urgência do momento, capturando tensões que persistem sem perder a pulsação da paisagem humana através de enquadramentos discretos, mas precisos.
Esse trabalho visual ganha corpo através do som direto de Mayra Coelho, que, aliado à mixagem e masterização de Pablo Lopes, constrói uma paisagem sonora onde a tensão se torna física. Entretanto, é na trilha sonora de Amaro Freitas que o filme encontra o seu eixo poético. O arranjo musical não apenas dá ritmo às marcas deixadas pela coerção, mas transmite a poesia de uma vivência coletiva atravessada pela ancestralidade, resgatando a beleza de um território que insiste em viver, mesmo sob a mira do silenciamento.
A Personificação do Conflito
Se a técnica constrói o cerco, são os personagens que dão rosto à disputa, recusando a abstração do conflito fundiário. O filme encontra sua camada mais potente na miudeza das vivências partilhadas pelos personagens: Leninha, Ana Paula e Betinho.
A vulnerabilidade e a sensação constante de intimidação materializam-se, por exemplo, no cotidiano de Ana Paula. Num detalhe discreto, mas inquietante, a câmera revela o monitoramento das telas de segurança que ela foi obrigada a instalar em sua própria casa, evidência do nível de insegurança e das ameaças sofridas por ela.
Em contrapartida à frieza mecânica das câmeras, o filme evoca a humanidade quando expõe o choro sufocado de Betinho, jangadeiro local que se viu obrigado a usar uma tornozeleira eletrônica apenas por reivindicar o direito à sua ocupação. É a síntese da contradição de um sistema que criminaliza quem defende a própria terra. E é justamente do chão que brota a força de Leninha: há uma segurança e intimidade com o território na forma como a marisqueira transita por um espaço que conhece desde sempre. Leninha carrega o conhecimento popular que nenhum muro consegue esconder.
Documentar o avanço de interesses especulativos em territórios tradicionais exige mais do que técnica; exige posicionamento. “O Canto do Rio” é fruto do esforço de uma equipe que se colocou à disposição — e em risco real — para “cutucar” um conflito ainda em curso. Essa coragem narrativa nasce de uma pesquisa profunda, conduzida por Aline Melo, Anne Justino, Jessica Lobo, Mariana Miranda e o próprio diretor. A partir da montagem e da cor, Rostand Costa entrega uma obra que rejeita o distanciamento estético e assume o seu lado do muro.
Se o documentário capta o ápice da asfixia provocada pelo cerco da propriedade privada, a realidade fora das telas tratou de dar o nó tático nessa história: recentemente saiu a decisão da Justiça Federal que, enfim, ordenou a demolição do muro de mais de 500 metros de extensão que bloqueava o acesso ao Pontal. Esse desfecho transforma o curta em algo que transcende a denúncia, consolidando-se como o arquivo vivo de uma vitória popular.
O muro, erguido como instrumento de exclusão e disputa, revelou-se aquilo que a comunidade sempre soube: uma barreira artificial. Ao registrar esse enfrentamento quando o cenário ainda era de medo e incerteza, o filme encontra sua maior força. Ao preservar a memória de quem permaneceu, as imagens seguem ressoando como testemunho da coragem coletiva. Afinal, embora a disputa pela terra tente erguer barreiras, rios continuam encontrando caminhos por onde cantar.








