Beto Palmeira*

O ano de 2020 colocou o mundo diante da maior crise sanitária, na qual pesquisadores relacionam o aparecimento do COVID19 ao modelo predatório do sistema capitalista com a natureza. Não foi apenas o novo coronavírus que ocupou as páginas dos meios de comunicação. Outra velha conhecida da sociedade moderna voltou a ser noticiada: a FOME. Organizações internacionais, como a Oxfan, alertaram que poderíamos chegar ao fim de 2020 com 12 mil pessoas morrendo de fome diariamente. Os números mostram 690 milhões de pessoas passando fome no mundo todo. No entanto como podemos ter fome se os dados oficiais mostram que a agricultura industrial nunca produziu tanto? Como ter FOME se o AGRO é POP e produz alimento para o mundo inteiro? Somos bombardeados constantemente com falsas propagandas que nos alimentam com falsas verdades.

Enquanto o alimento for considerado commodity, será uma mercadoria pela qual uma parte da população não poderá pagar e estará condenada a passar FOME. A pandemia ajudou a mostrar como funciona o mercado mundial de alimentos. Países asiáticos, como China, Índia e Vietnã, reduziram as exportações de alimentos básicos para garantir a segurança alimentar do seu povo, contribuindo para que os preços desses alimentos não disparassem no mercado interno desses respectivos países.  O Brasil, ao contrário dos países asiáticos, combinou a destruição das políticas públicas para agricultura familiar camponesa, que garante 70% dos alimentos que consumimos segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com incentivos às empresas do agronegócio a seguir exportando alimentos básicos. O caso mais emblemático é do arroz cujo saco de 5 kg chegou a ser vendido a R$40 nas prateleiras dos supermercados. Fascinados pela alta do dólar, as empresas que controlam a exportação de arroz preferiram exportar do que garantir o abastecimento do mercado interno.  Além de tudo isso, os estoques públicos da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), que tem como uma de suas funções a garantia do equilíbrio nos preços dos preços dos alimentos, estão vazios. Situação esta fruto da mesma política federal de destruição das empresas públicas e das reservas de alimentos estratégicos, como no caso do arroz cujos estoques despencaram 80% no últimos 10 anos.

Os números apresentados pelo IBGE mostram que 10,3 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar grave. Esses números são a ponta do iceberg da falácia que anuncia que o AGRO alimenta o Brasil.  A FOME no Brasil tem sua origem em um modelo de agricultura baseado no latifúndio e na grilagem de terras indígenas, quilombolas e públicas. Modelo de agricultura atualmente controlado pelas multinacionais não só no processo de produção, mas também na distribuição por grandes redes de supermercados atacadistas. A Fome no Brasil tem sua origem na transferência de recursos públicos, no perdão de dívidas que o Estado Brasileiro concede ao setor do agronegócio. É projeto da Casa Grande que ainda hoje assola os mesmos sujeitos que foram escravizados por 500 anos. 

Por tudo isso, a luta pelo direito à alimentação deve entrar na agenda do povo brasileiro como uma luta por soberania nacional e alimentar. É mais do que urgente retomar a ideia de projeto de Brasil soberano no qual a alimentação saudável seja direito humano e dever do Estado. Deixar a produção e distribuição de alimentos sob controle de empresas multinacionais só vai aumentar a FOME.

* Militante do Movimento dos Pequenos Agricultores e Assistente Social

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