Entre os índios, a velhice é um valor. A pessoa idosa vai deixando para outros funções que exijam muita força ou resistência física, como guerrear, caçar, construir casas ou carregar peso, e passam a exercer outras mais intensamente, como contar histórias. As cerimônias de despedidas e passagens são emocionadas, podem levar muitos dias, o choro não é constrangido e a memória alimenta a própria cultura, que continua a vida.

Rolaram muitas histórias horripilantes pela Europa afora, onde a média de idade da população é maior do que nos países em desenvolvimento, sobre milhares de velhos que perderam suas vidas, sozinhos e trancados em suas casas no inverno, ou massivamente em asilos, enquanto a pandemia do coronavírus se espalhava pelo continente. Pode ser que ninguém viesse, mesmo, resgatar essas pessoas do abandono, mas é triste imaginar que parte essencial da memória – até então viva – do século passado, que poderia ter sido nossa, está agora muda e congelada.

A pandemia chega ao Brasil e à periferia do planeta pelos portos e aeroportos, principalmente por pessoas que viajam mais para a China, Europa e Estados Unidos e que, geralmente, dispõem de renda. Com o tempo, áreas mais remotas ou densamente ocupadas vão sendo alcançadas pelo vírus, ressaltando a pobreza como fator de risco determinante, pela maior dificuldade de isolamento e de acesso à assistência, informações, alimentos e produtos de higiene.

“Naturalmente”, diriam os cínicos mais sofisticados, ao que Bolsonaro, de forma bem mais naturalizada, explicou: “qualquer pessoa vai morrer um dia”. A abdução ética até embalou a análise de empresários da sua estimação, que veem méritos fiscais na morte em massa de velhos pobres, o que também rejuvenesceria a sociedade brasileira. Lindo, né? Claro que eles não se incluem, nem às suas famílias, nessas excitantes estatísticas mortuárias.

Há um terceiro elemento constitutivo do perfil brasileiro de maior vulnerabilidade à epidemia: além de velho e pobre, negro. Pode não ser tão evidente, porque há uma sobreposição enorme entre negros e pobres. E também porque são precários os dados disponíveis para se aprofundar essa interface racial. Uma das reivindicações do movimento negro diante da crise sanitária é para que sejam coletadas informações sobre as condições raciais das vítimas.

Mas os dados disponíveis indicam uma situação perturbadora porque, ao mesmo tempo em que os brancos se contaminam mais, proporcionalmente, a letalidade do vírus é maior entre os negros. Com o avanço da epidemia sobre áreas mais carentes e a redução da subnotificação de casos, deve crescer a proporção de negros infectados. E a letalidade pode se agravar.

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) publicou um estudo sobre o impacto do Covid-19 sobre os negros, que aponta os fatores de carência social que os incluem entre as populações mais vulneráveis, mas também indica doenças que afetam e se agravam mais entre os negros, ou não brancos. É o caso da anemia falciforme, hereditária e que atinge mais de 70 mil pessoas. Ela favorece a ocorrência da síndrome torácica aguda, com sintomas como dor no peito, tosse, febre, falta de oxigênio e outros problemas pulmonares.

As ações prioritárias para enfrentar a epidemia devem incluir mais e mais medidas compatíveis com a maior vulnerabilidade desses grupos sociais. O estudo da Abrasco sugere um pacote de providências, que vão de aumentar a oferta de banheiros e restaurantes públicos e abertos, até ampliar a lista dos grupos que recebem o auxílio emergencial para incluir populações de rua, prostitutas e transgêneros.

Não se deve esperar que avanços nesse sentido caiam do céu. A atuação qualificada dos movimentos sociais e dos seus aliados será decisiva e, para que possa chegar ao melhor resultado, deve se dar no âmbito nacional, dos estados e dos municípios. O melhor resultado é poupar vidas!

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