Ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello e o presidente Jair Bolsonaro Foto: Reprodução Youtube

É simples assim: Jair Bolsonaro repudia vacinas, mas precisa financiar sua campanha reeleitoral. Por isso, desautorizou Eduardo Pazuello, quando ministro da Saúde, a negociar diretamente com os laboratórios que desenvolveram as vacinas que estão sendo utilizadas no combate à pandemia – Pfizer, AstraZenica, Coronavac e outras. Em outra frente, favoreceu negociações com empresas de fachada, envolvidas em contratos suspeitos e dirigidas por escroques do mercado da corrupção, para intermediar a compra de milhões de doses de imunizantes que nem teriam como entregar, além disso, por preços superfaturados, com pagamentos antecipados e gordas comissões.

As tratativas foram interrompidas por denúncias, como a dos irmãos Miranda – um deputado federal da base do governo e um funcionário de carreira do Ministério da Saúde – que abortaram os pagamentos acordados. As investigações da CPI da Covid revelaram disputas por propinas entre militares e representantes do Centrão, fisiologicamente incrustados na estrutura da Saúde.

Das doze pessoas que, até agora, estão sendo formalmente investigadas pela CPI, seis são oficiais das Forças Armadas. Da reserva, como o ex-secretário executivo do Ministério, coronel Elcio Franco, e da ativa, como o próprio Pazuello, que, ainda por cima, participou de um comício reeleitoral de Bolsonaro, sem que sequer fosse punido pelo Ministério da Defesa.

Pazzuello mentiu em seu depoimento à CPI, ao afirmar, de forma até arrogante, que não recebia empresários para tratar de compras de vacinas, o que competia à área técnica. Mas, na semana passada, vazou um vídeo em que o então ministro da Saúde recebe representantes de uma empresa fake de intermediação e abençoa uma suposta compra, pelo triplo do preço, de 30 milhões de doses da vacina chinesa Coronavac, que tem o Instituto Butantan como único representante legal no Brasil.

Ninho de cobras

Outros seres esdrúxulos emergiram dessas trevas, inclusive um suposto vendedor de centenas de milhões de doses de vacinas indianas, que recebia o auxílio emergencial oferecido pelo governo aos afetados pela pandemia. Além de um pastor evangélico corrupto, que se valia de relação pessoal com a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, para obter o aval do presidente nos negócios suspeitos.

Roberto Dias tem currículo de escroque juramentado e chegou à diretoria de Logística da pasta da Saúde por indicação do deputado Ricardo Barros (PP-PR),  líder do governo na Câmara, ministro da Saúde no governo de Michel Temer e que responde por outros casos de corrupção. Foi a ele que Bolsonaro se referiu quando soube, pelos irmãos Miranda, da mutreta em curso. Seria para a cúpula do partido a sua reivindicação de um dólar por dose, num contrato de compra de 400 milhões de imunizantes. Bolsonaro não teve peito para afastar Barros da condição de líder.

Chegou à CPI, também por meio do deputado Luís Miranda (DEM-DF), a denúncia de que a empresa VTCLog, que transporta vacinas e outros insumos desde a gestão de Barros, reajustou contrato com o Ministério da Saúde por pressão do presidente do PP, senador Ciro Nogueira, e do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). 

Foi esse caso que teria levado Pazuello a dizer, ao deixar seu cargo, que estava sendo derrubado por políticos que recebem pixulecos. O contrato turbinado envolveria propinas mensais de R$ 296 mil para cada membro da cúpula pepista. Vamos ver o que a CPI apurará a respeito.

Após a denúncia sobre a intermediação e a compra superfaturada de vacinas, trazida pelos irmãos Miranda e que teria levado o próprio presidente a citar Barros como responsável, Bolsonaro tentou reverter uma indicação pepista à presidência da Agência Nacional de Saúde (ANS), mas recuou, sob a ameaça de perder o apoio do partido e seu próprio mandato. Roberto Dias foi exonerado, assim como Pazuello e Elcio Franco, mas a hegemonia do PP prevalece nos descaminhos da Saúde.

Deputado Ricardo Barros, presidente Jair Bolsonaro, senador Ciro Nogueira e deputado Arthur Lira. Foto: reprodução do perfil no Twitter de Ciro Nogueira

Com 550 mil mortos, só 17% da população totalmente imunizada e baixa popularidade, Bolsonaro não manda mais no ministério que deveria gerir a crise sanitária. Muito menos o atual ministro, Marcelo Queiroga, que mais parece cego em tiroteio. Quem manda, mesmo, é o Partido da Pilhagem. E o “outro” obedece!

Em tempo: foi confirmada, ontem, a nomeação do Ciro Nogueira, presidente do PP, como chefe da Casa Civil, em substituição ao general Luís Eduardo Ramos, que não gostou, mas vai aceitar outro cargo. Deu para entender?

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