O que você faria se a sua mãe morresse dentro de casa, sem diagnóstico, mas com suspeita de infecção pela Covid-19, sem que tenha sido assistida ou internada, sem que se disponha de serviço funerário, cova ou caixão?

Imagine pessoas levando corpos de entes queridos para igrejas, não tendo como mantê-los em casa pelo risco de contaminar a família toda. Acrescente a dor do abandono à dor da perda, da não despedida a pessoas de corpo e de espírito às centenas, senão, milhares. Tente escutar o pranto dos que ficam, sentir o sabor do lamento envolto em raiva, inconformismo e frustração.

Esses são os sentimentos que pairam sobre Manaus e sobre o Amazonas. Embora a epidemia espalhe-se pelo Brasil inteiro, não há como negar um olhar específico e solidário com os brasileiros do Norte.

O Amazonas é o quinto estado brasileiro no total de infectados confirmados e de mortos pelo novo coronavírus. Porém relativamente à população, a incidência e as vítimas fatais chegam ao dobro em comparação com São Paulo, que é o epicentro da epidemia no Brasil.

Mais da metade da população do Amazonas – que tem mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados de extensão – vive em Manaus, que é o único dos 64 municípios do estado que dispõe de leitos de UTI! Com 2,2 milhões de habitantes, é a maior cidade, centro comercial e de serviços para toda a Amazônia Ocidental.

Várias empresas estrangeiras, inclusive asiáticas, dispõem de unidades montadoras na Zona Franca de Manaus, onde também há um fluxo considerável de turistas, inclusive estrangeiros, o que ajuda a explicar a chegada rápida e avassaladora da epidemia na cidade, apesar da sua grande distância de São Paulo e do Rio de Janeiro, principais portas de entrada para o vírus no país.

O número de testes realizado na cidade é irrisório, o que contribui para o aumento da transmissão do vírus por assintomáticos e retarda o isolamento dos suspeitos de contágio. Mas, certamente, foi decisivo o índice de isolamento social abaixo da média nacional, já insatisfatória. Houve um volume de chuvas ainda maior do que o normal nos primeiros meses do ano e especula-se que a alta umidade relativa do ar pode ter potencializado o contágio.

A situação dos 30 mil indígenas que vivem na capital amazonense é ainda mais desesperadora. A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) diz que os índios que vivem nas cidades devem ser atendidos pelos serviços convencionais do SUS e sequer contabiliza os casos e as mortes provocados pelo SARS-CoV-2 entre essas pessoas. Elas sempre estiveram no fim da fila da assistência por causa do preconceito, das distâncias entre a periferia, onde moram, e as unidades de atendimento e da inépcia das políticas de prevenção em saúde. O problema agravou-se com a crise sanitária. Em Manaus, tudo isso soma-se à paralisação da venda do artesanato e da promoção de atividades culturais, importante fonte de renda dessas comunidades.

Num momento grave como este, em que colapsa o sistema de saúde de uma metrópole carente, não se pode deixar de questionar o baixo investimento pelos governos estaduais, nos últimos anos, na estrutura de saúde, formação dos profissionais, saneamento básico e outras demandas sociais, enquanto se gastava o que não se tinha em obras caras, superfaturadas e não prioritárias, como a da “Arena da Amazônia”, um mega estádio construído para a Copa do Mundo por mais de R$ 700 milhões e que, agora, não serve para nada. A corrupção em obras públicas não é uma prerrogativa amazonense e a observação serve para todo Brasil, mas também lá alcançou proporções amazônicas.

Espero, com o coração aflito, que arrefeça essa praga que se abateu,  com tanta força, sobre Manaus e suas gentes. Que as almas se libertem e encontrem os seus caminhos e que os que ficam aprendam, com a tragédia, a não mais tolerar o descaso com a saúde, com o interesse público e com a vida.

 

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