Muitos acalentamos a expectativa de que os países concertassem saídas sustentáveis para superar a crise gerada pela pandemia do coronavírus. Por suposto, a inesperada mortalidade em massa, a imposição do isolamento, o sofrimento físico, emocional e econômico decorrentes deveriam ensejar que os sobreviventes assumissem uma postura mais cautelosa diante da emergência climática, optando por caminhos mais compatíveis com a vida.

Só que não. A Rússia invadiu a Ucrânia e impôs outra dinâmica à comunidade internacional. O conflito já se arrasta, há mais de um ano, sem que haja perspectiva clara de solução política ou militar. Os russos já haviam tomado a Crimeia, em 2014, quase em silêncio. O expansionismo foi a resposta russa ao anseio da Ucrânia em integrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Área da cidade ucraniana de Carcóvia bombardeada pelo exército russo | Foto: UNICEF / Filippov

O alongamento da guerra e a adoção de sanções econômicas afetaram o fornecimento de gás da Rússia para a Europa e de cereais, da Ucrânia para vários países. Usinas termoelétricas movidas a carvão foram reativadas. Subiram os preços dos fertilizantes agrícolas e de outros insumos. Aumentaram a fome, a inflação e as emissões de gases do efeito estufa.

Trauma europeu

A invasão russa disparou alarmes pela Europa, o que não havia ocorrido no precedente da Crimeia. A resistência ucraniana, maior do que era esperada, motivou o apoio da Otan, que não enviou tropas, mas viabilizou um fluxo gigante de armamentos, inclusive de ponta, que ajudaram a frustrar as ofensivas da Rússia, impondo-lhe pesadas baixas em homens e em armas. Kiev, a capital, e outras cidades da Ucrânia vêm sofrendo bombardeios pesados, que também atingem alvos civis.

O conflito ressuscita antigos traumas da Guerra Fria. Países europeus, sobretudo os que fazem fronteira com a Federação Russa, rearmam-se e se mobilizam para acolher refugiados. Clima de guerra, sem clima para enfrentar as mudanças climáticas.

Além da Crimeia, a Rússia ocupou e anexou mais quatro províncias ucranianas, mas não conseguiu avançar sobre Kiev, nem derrubar o governo de Volodymyr Zelensky. A guerra provoca a deserção dos jovens e as sanções agravam a situação econômica da Rússia. Mas Vladimir Putin manipula as informações sobre o conflito e não há sinais de que o desgaste possa derrubá-lo do poder.

Cidade ucraniana bombardeada | Foto: UNICEF / Filippov

Por outro lado, a Ucrânia resiste e não se dispõe a ceder territórios — nem mesmo a Crimeia — em troca da paz. Pede mais armas e recursos para seguir provocando baixas e tentando desalojar as tropas inimigas. Ao mesmo tempo, há o temor de que uma eventual derrota militar ucraniana anime a Rússia a invadir outros países vizinhos, especialmente a Moldávia, que convive com uma região insurgente de população de etnia russa. Finlândia e Suécia apressam-se a aderir à Otan, na expectativa de proteção militar.

Armas

A lógica da guerra vai se impondo, drenando energias e recursos vitais para a recuperação do mundo no pós-pandemia. É sangue jovem que corre. E é um tempo precioso que se perde, enquanto os impactos das mudanças climáticas agravam-se e se espalham. Outros processos multilaterais andam para trás, enquanto o rearmamento e a desesperança prosperam.

Povos e países perdem com a guerra. Na melhor das hipóteses, pode rolar alguma “vitória de Pirro”. O mundo anda para trás. Só quem ganha nessa empreitada é a indústria bélica. Há tempos que ela se ressentia da falta de um campo europeu de testes. Jatos, drones, mísseis e satélites, tudo sendo experimentado à custa de vidas inocentes. Putin chegou a ameaçar o emprego de armas nucleares táticas para radicalizar o conflito.

Joe Biden, presidente dos EUA, não teve dificuldades para aprovar, no Congresso, sucessivas doações de armas para a Ucrânia, que já passaram dos US$ 100 bilhões, mesmo após a conquista da maioria da Câmara pelo Partido Republicano. Mas teme não conseguir aprovar uma doação de US$ 50 milhões para o Fundo Amazônia, para ajudar no combate ao desmatamento. Está bem mais fácil financiar a morte do que a vida.

Tropas russas em Novoaidar, leste da Ucrânia, em março de 2022 | Foto: Autor desconhecido / Wikipedia

Putin recebeu, nesta semana, a visita do presidente da China, Xi Jinping, que, por sua vez, receberá a visita do presidente Lula, em Pequim, nos próximos dias. Jinping afirmou que a China se manterá neutra em relação à guerra na Ucrânia, o que indica que não fornecerá armas à Rússia. Mas também confirmou a aliança estratégica entre ambos. Putin declarou que as propostas feitas pela China, que não agradam à Ucrânia, são uma boa base para eventuais negociações de paz.

Também nesta semana, em viagens secretas, quase cruzadas, Biden visitou Zelensky, em Kiev, e Putin percorreu, à noite, as ruas desertas da cidade de Mariupol, ocupada por suas tropas. As respectivas cenas sugerem que a paz, neste momento, é menos provável do que uma ampliação da guerra infelizmente.

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