O medo é uma reação natural a uma ameaça ou adversidade, que pode ocorrer numa grande diversidade de situações, de forma instintiva e independente da nossa vontade. É uma emoção que mobiliza estímulos cerebrais que aceleram o batimento cardíaco e a respiração, numa reação de fuga ou de enfrentamento à ameaça.

Uma pandemia de um vírus pouco conhecido e letal, para o qual não se dispõe de vacina nem de medicamento específico, só não amedronta ignorantes ou lunáticos. Há os que consideram o medo uma fragilidade, mas, na verdade, ele é um elemento essencial para a sobrevivência das pessoas e da espécie humana.

A esperança é uma expectativa de mudança para melhor. É uma virtude, um sentimento mobilizador, que pode reverter ou superar o medo. A esperança traz dentro dela a palavra espera, que implica em perseverança, mas que precisa resultar, como ensina o provérbio bíblico: “a esperança demorada enfraquece o coração, mas o desejo chegado é árvore de vida”.

Sentimos medo da pandemia e temos a esperança de vencê-la. O medo da morte é o maior, mas há muitas outras dimensões e traduções para ele. A maior esperança não é o retorno à situação anterior à epidemia, mas que com ela aprendamos para dela sairmos com o mínimo de dano, rumo a uma situação melhor.

Para não entupi-los com o meu ranço cristão, consultei duas amigas indígenas sobre como esses sentimentos de medo e de esperança povoam seus corações neste momento crítico. Ambas são mães e lideranças importantes do movimento de mulheres indígenas, mas pertencem a povos bem diferentes e vivem a milhares de quilômetros de distância entre si. As duas conversas sobre esses dois assuntos, o medo e a esperança, serão relatadas e refletidas nesta coluna e na de amanhã, como se fossem quatro faces de duas moedas.

Watatakalu Yawalapiti é uma Índia xinguana e está agora em Canarana (MT) com o seu esposo e os dois filhos. Eles permanecem na cidade, próximo ao Território Indígena do Xingu, para manter um fluxo de informações entre as aldeias e o exterior e para zelar pelo isolamento e proteção dos índios.

“Medo, para mim neste momento, é saber que uma doença que ainda não tem cura pode entrar em nossas aldeias e a história do passado se repetir”, diz ela. E, para que as epidemias devastadoras do passado não se repitam, a melhor defesa é “a fuga para o mato, montar acampamentos familiares, porque, no passado, os nossos parentes fizeram isso e as famílias que fizeram isso foram as que ficaram seguras”.

Watatakalu explicou que “todos estão fazendo o trabalho conjunto para proteger nossos parentes. Cada comunidade se organiza de forma diferente, mas com o mesmo objetivo de se cuidarem”. Ela conta que “existem mitos que falam sobre epidemias, mas que elas são para curar o mundo: a natureza limpando as coisas que não são boas. Mas também levaria junto pessoas inocentes, para castigar o mundo dos homens”.

Quando eu perguntei se o mundo estava acabando, ela respondeu que “o mundo não acaba, apenas está sendo lavado, mesmo que seja da forma mais triste”. Sobre se nós seremos capazes de construir um mundo melhor depois dessa epidemia, ela é taxativa: “Claro que sim, já estamos sendo, as pessoas estão refletindo sobre as suas atitudes, consumindo só o que precisam, ajudando uns aos outros, criando e aprendendo novas formas de se viver”.

Sobre como ficarão as relações entre os povos indígenas e nós após a pandemia, Watatakalu disse que elas estão sendo recriadas neste momento: “Mais respeito e mais confiança. Um precisa do outro para a cura desse mundo. Não podemos sempre cuidar da natureza sozinhos, precisamos ensinar vocês a cuidar também”.

Ela concluiu assim a resposta à consulta: “Precisamos honrar a luta dos que vieram antes de nós, bem antes, os que criaram o mundo. Os nossos Deuses sabiam que os homens estragariam muitas coisas no mundo. Por isso que o Sol, neto do Criador, colocou coisas ruins no mundo: para nos testar”.

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