O que surpreendeu a todos não foi o ímpeto terrorista do Hamas. Difícil seria imaginar uma ação sua que não estivesse baseada na violência. O seu controle sobre a Faixa de Gaza foi conveniente e consentido por Israel, para dividir e enfraquecer politicamente os palestinos. O Estado de Israel, considerado democrático pela existência de partidos, eleições e parlamentarismo, não contempla a participação palestina na definição dos seus destinos. Gaza, por sua vez, vive bloqueada, asfixiada e desprovida de território e de recursos para construir seu futuro.

Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, conversa com soldados em local atacado pelo Hamas | Foto: Reprodução / Twitter

O que surpreendeu foi a eficácia militar do Hamas, que foi capaz de romper as barreiras de proteção ao território de Israel e de atacar, simultaneamente, 22 vilas e assentamentos, disparando milhares de foguetes contra cidades israelenses. Além de atropelar efetivos militares e policiais e de apreender veículos e equipamentos, o Hamas promoveu um festival de terror, matando civis aleatoriamente e sequestrando reféns ‒ até crianças ‒ para Gaza.

O lapso defensivo de Israel ainda está para ser explicado. O projeto colonial do governo Netanyahu, que cedeu ministérios para a extrema-direita para se manter no poder, é responsável por transferir contingentes militares para a Cisjordânia, deixando vulnerável a fronteira sul. Netanyahu subestimou o Hamas e deu espaço para o volume inédito de mortos e de reféns israelenses. Sua resposta será ainda mais letal, para, supostamente, mitigar danos de imagem. De qualquer lado, a violência não justifica, mas explica, a escalada de mais violência.

Uma pesquisa de opinião realizada, na semana passada, pelo Instituto Maariv, indicou que se fossem realizadas eleições agora em Israel, o Likud, partido de Netanyahu, cairia dos atuais 32 para 19 deputados, enquanto o União Nacional, de centro, iria de 12 para 41. São números que nos dão ideia de quanto ele depende de sangue palestino.

Para legitimar a sua resposta, Netanyahu constituiu um gabinete de emergência, incorporando parte da oposição, e suspendeu a ofensiva política interna com que pretendia subordinar o Judiciário, onde responde por acusações de corrupção. Antes do ataque do Hamas, vinham ocorrendo grandes manifestações populares contra a instalação de um regime com tendências autocráticas, sob o seu mando. É difícil prever o que vai sobrar da democracia em Israel após a destruição de Gaza.

Guerra se alastra

Um diplomata israelense foi esfaqueado na rua, em Pequim, na sexta-feira passada (13). No sábado, em Paris, o Museu do Louvre foi fechado, após uma ameaça de bomba. Por mais mortífera que seja, a vingança de Netanyahu vai desencadear outras vinganças. Pessoas inocentes, judias ou aparentadas, estão sob ameaça em qualquer país. Palestinos e simpatizantes fizeram, em Nova Iorque, uma grande manifestação de protesto contra o bombardeio maciço, que mata mulheres e crianças em Gaza, e a sua invasão terrestre por tropas de Israel.

Por outro lado, a extrema-direita está babando de ódio também em toda parte, tentando associar desafetos e inimigos políticos ao terrorismo. No Brasil, bolsonaristas histéricos pressionam Lula para tomar partido na guerra e não reconhecem a presteza com que o governo brasileiro promove o resgate dos brasileiros que vivem ou estavam em Israel e em Gaza quando o conflito eclodiu.

Também é possível que a guerra se estenda pelas fronteiras com o Líbano e a Síria. Foguetes foram lançados sobre Haifa, no norte de Israel, que, em retaliação, bombardeou aeroportos sírios. O Hezbollah, movimento xiita que atua no Líbano e tem o apoio do Irã, assim como o Hamas, já declarou que entrará na guerra se Israel ocupar Gaza.

A anexação de Gaza por Israel terá um alto preço para o povo judeu, assim como a ação terrorista do Hamas está tendo para o povo palestino. Aliás, o preço do petróleo já está escalando e deve passar dos US$ 100 por barril. Mas o custo maior, para a humanidade, decorrerá da sobreposição entre conflitos. A guerra da Rússia contra a Ucrânia já afetou as negociações comerciais e sobre as mudanças climáticas globais.

A superioridade militar de Israel é inegável. Pode massacrar os palestinos de Gaza. Mas as suas perdas são inéditas. Pode ganhar, mas não levar, a menos que se considere livrar-se de Netanyahu como um ganho em si, inesperado. Afinal, segundo o The Jerusalem Post, 86% dos judeus israelenses atribuem o ataque surpresa do Hamas a falhas na liderança de Israel. Parece que, seja qual for o desfecho no front militar, nada será como antes no Oriente Médio.

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