Aos olhos de muitos dos que vêm de fora, ou dos menos atentos, “tudo é muito igual” no Plano Piloto de Brasília. É difícil, para eles, perceber as nuances da cidade, as características de cada quadra e – ainda mais – as anomalias que até uma obra cartesiana acaba tendo. A criação do Parque Olhos D’Água, por exemplo, corrigiu um erro de projeto do Plano Piloto, que havia desenhado quadras residenciais em áreas de nascentes.

A Asa Norte é bem diferente da Asa Sul, não só por estar em terreno mais ondulado. A Asa Sul foi construída primeiro, talvez pela proximidade do aeroporto e das rodovias que ligam Brasília a Goiânia, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Suas quadras comerciais ficaram pequenas, o que orientou outro padrão para a Asa Norte. Mas há outras diferenças produzidas com as mãos dos próprios moradores.

Com a abundância de áreas verdes pela cidade, o Governo do Distrito Federal (GDF) mantém os serviços regulares de jardinagem e de arborização, que seguem um padrão linear, considerando a cidade como um todo e sem poder se ater às nuances de cada local. Porém, olhos atentos podem notar em vários pontos da Asa Norte, plantios feitos pelos moradores, diferentes dos “oficiais” quanto à disposição das árvores e à variedade de espécies.

O mais extenso dos plantios voluntários que eu reconheço vem sendo realizado há 12 anos, por Clarêt Carrijo, no final da Asa Norte, próximo à Ponte do Bragueto. Ele está reflorestando a área de nascentes à beira do Córrego do Bananal, um dos braços formadores do Lago Paranoá, que é cortada pela ligação entre as vias L4 e a W3 Norte. Clarêt tem 65 anos, nasceu em Ibiraci (MG), mas vive em Brasília desde 1961. É licenciado em biologia e fez mestrado em ciências florestais na Universidade de Brasília (UnB).

Foto: Márcio Santilli

A área foi toda modificada desde 2014, com a construção do Trevo de Triagem Norte, uma obra viária gigante na saída de Brasília para Sobradinho, Planaltina e para o nordeste do país. A obra, recém concluída, também impactou o trabalho do Clarêt, que o reorientou, estendendo os remanescentes florestais sobreviventes em torno de uma nascente que ainda verte, embora o curso dessa água rumo ao Lago tenha sido interrompido por uma das pistas de tráfego.

Clarêt dedica ao seu projeto todas as manhãs de sábado. Estaciona o carro ao lado da pista, com os insumos necessários, e vai plantando mudas e sementes de frutas e de outras espécies nativas. Para cada plantio, uma nova estaca, numa sucessão que chega a centenas. Qualquer transeunte motorizado atento, dos milhares que por ali passam todo dia, pode constatar as estacas do Clarêt sinalizando que, apesar de tudo, a mata sobrevivente vai crescer.

Foto: Márcio Santilli

Essa mata protege a nascente e atenua a hegemonia do asfalto na paisagem, compondo na cena maior, com um remanescente florestal que fica do outro lado do Lago. Uma benção para os olhos dos que passam e um tesouro para os que se atrevem a adentrá-la, como as aves e outros animais, que já sacaram que aquela mata esconde um pomar nativo, a cada ano mais exuberante.

Eu perguntei para o Clarêt quando ele iria considerar o seu plantio finalizado e ele respondeu: “Cuidar da natureza tem início, sim, mas não tem fim. Quem sabe daqui há uns 40 anos, quando eu tiver 105, mesmo sem forças para pegar na enxada e na chibanca, eu possa passar lá e ver um bosque alto, com grande variedade de espécies,  muitos pássaros e pessoas curtindo o clima dessa mata, e, além de ver a sua alegria, eu possa escutar os seus elogios à Nascente Ibiraci, um cantinho sagrado da natureza dentro  do meio urbano desta nossa cidade-parque. Neste momento terei certeza de que meu esforço não terá sido em vão”.

Veja você, que a esperança pode ser plantada até entre duas pistas de asfalto! Nada é fácil. É espaço público, há transeuntes malvados, tratores cortadores de grama e ameaças maiores a qualquer forma de esperança. Mas eu acho que aquela água represada voltará a correr para o Lago e que pedestres e ciclistas um dia também terão o trânsito entre as pistas facilitado. Mais ainda: com o benefício da aproximação da cidade à orla – cenário propício para uma disputa saudável e segura dos frutos do Clarêt com as aves.

Uma pessoa persistente pode cravar mudanças para melhorar o ambiente da cidade, que irão além da sua própria vida. Faz bem constatar que são muitas as pessoas acometidas dessa mesma vontade, de plantar, povoar, agregar uma beleza a mais. Sem combinarem, projetam, para os que ainda virão, um ambiente mais verde e humano, a um só tempo.

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