O presidente Jair Bolsonaro perde apoio. Embora 20% dos brasileiros ainda o avaliem como bom ou ótimo, as pesquisas de opinião são unânimes em apontar o aumento exponencial da sua rejeição. Até o mercado financeiro sente os efeitos do oportunismo fiscal e do golpismo promovidos pelo governo, apesar do cenário mais favorável à recuperação econômica, resultado do avanço da vacinação e da disponibilidade mundial para investimentos. O obscurantismo golpista isola o Brasil por dentro e por fora.

Bolsonaro pede ao Senado o impeachment dos ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, para retaliar o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que decidiram investigar seus atos e declarações contra o Judiciário e seus membros. Associações de juízes, procuradores e advogados, governadores, partidos políticos, dirigentes do Congresso e o próprio STF divulgaram notas de repúdio à pretensão do presidente e em solidariedade aos ameaçados. Bolsonaro sabe que o pedido será rejeitado, mas insufla os núcleos mais radicais de apoiadores para saírem às ruas, em 7 de setembro, em apoio a um golpe de estado.

O ímpeto de eliminar atores discordantes causa arrepios em qualquer um. Além de notas, atitudes são esperáveis de quem tenha apreço pela democracia, ainda que em benefício próprio. Por exemplo, subiu no telhado a indicação do nome de André Mendonça para ministro do STF. O senador Davi Alcolumbre, que preside a Comissão de Constituição e Justiça Senado, a que deve sabatinar e aprovar os nomes, sentou em cima dessa indicação.

Investigados

Os ministros atacados por Bolsonaro não têm rebatido as declarações ofensivas do presidente, negando-se a alimentar a sua retórica bélica. As respostas têm vindo nas investigações em curso. Por exemplo, bolsonaristas que ameaçam o STF na convocação das manifestações de 7 de setembro estão sendo alvos de mandados de busca e apreensão e os seus financiadores poderão ser responsabilizados caso extrapolem os limites legais.

O caso mais emblemático é o do Sérgio Reis, compositor sertanejo e ex-deputado federal, que exigiu que o Senado aprove, sob um cerco de sete dias, o voto impresso e o impeachment de todos os ministros do STF. Com a péssima repercussão da bravata e a sua inclusão entre os investigados, Reis declarou-se arrependido e diz ter caído em depressão. Sua postura arrogante de apoio ao golpismo levou vários artistas a cancelarem participações no seu novo disco.

Outro investigado é o caminhoneiro Zé Trovão, que ameaça bloquear rodovias e ocupar o centro de Brasília com as mesmas exigências. O deputado Otoni de Paula (PSC-RJ) também foi alvo de busca e apreensão. Antônio Galvan, ruralista extremista que preside a Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja), está sendo investigado como financiador. Há, pelo menos, outros nove envolvidos.

Arrebentando a corda

A defesa intransigente do regresso ao voto impresso é a cortina de fumaça golpista para deslegitimar o sistema eleitoral. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), acordou com Bolsonaro pautar o voto impresso no plenário da Casa e fez a sua parte. Bolsonaro comprometeu-se a aceitar a decisão da Câmara, que rejeitou a proposta, mas continua esperneando. Ele parece estar atrás de pretextos para pular fora e tentar melar o processo eleitoral, caso permaneça em queda.

O tensionamento artificial com os estados e os demais poderes, fundado em falsas narrativas, visa transferir responsabilidades do presidente pelo desgoverno e pelas múltiplas crises que assolam o país. Bolsonaro tenta insuflar as Forças Armadas o tempo todo e tem contado com a cumplicidade do ministro da Defesa, Braga Netto. As instituições e a sociedade civil têm reagido às provocações de forma vigorosa, porém pacífica, esvaziando as narrativas e os pretextos engendrados por Bolsonaro para justificar rupturas institucionais.

O mais recente abuso presidencial, ao fazer coincidir um desfile de tanques pela Esplanada dos Ministérios com a decisão da Câmara sobre o voto impresso, resultou num gigantesco desgaste para o Exército. A imagem de tanques sucateados, soltando fumaça negra, viralizou nas redes sociais. Para evitar outra associação desastrosa com o extremismo político, o ministério da Defesa preferiu cancelar o desfile militar de 7 de setembro.

Apesar da persistência de Bolsonaro e da leniência de Braga Netto quanto ao uso político das Forças Armadas, a maioria dos analistas descarta a possibilidade delas se deixarem usar numa eventual operação de constrangimento físico ao Congresso e ao Judiciário, ou de afronta às eleições e aos seus resultados. Diante disso, o bolsonarismo tenta insuflar a insubordinação das PMs e há um esforço para envolver policiais nas manifestações de 7 de setembro. Quem não tem cão, caça com gato.

Vai ou racha

Bolsonaro está jogando tudo nessas manifestações. Precisa, com urgência, avançar na formação de uma milícia própria, fundindo a sua militância radical com policiais armados, para constranger as instituições e ameaçar as eleições. O tempo corre contra ele: a crise aprofunda-se, sua rejeição explode, o mercado aflige-se e se aproximam prazos fatais do calendário eleitoral. Bolsonaro ainda está sem partido e, em final de mandato, os apoios que lhe restam tendem a se dispersar.

A urgência reduz o espaço para as ambiguidades com que Bolsonaro, antes, tentava ganhar tempo, com visitas e eventuais paparicos aos presidentes do STF, da Câmara e do Senado. Luís Fux, que queria um encontro entre os presidentes dos poderes para atenuar as tensões, já não tem condições de diálogo, a menos que Bolsonaro desista dos pedidos de cassação contra ministros do STF. E o presidente anda dizendo que “a corda já arrebentou”, diante da contundência das medidas adotadas por Alexandre de Moraes, de mandar pretender bolsonaristas mais extremados, como Roberto Jefferson, e de dificultar o financiamento de sites dedicados à disseminação de fake news e de ataques à democracia.

Porém para os presidentes da Câmara e do Senado, assim como para o “Centrão”, o que interessa é ocupar espaços no governo e no orçamento até o final do mandato, e não uma ruptura. Por isso, insistem num “diálogo”. Reunidos nesta semana, governadores também usaram a mesma palavra, para constranger o presidente, sabendo que ele corre contra o tempo. O “diálogo” seria o freio, que a estratégia do Bolsonaro rejeita.

Bolsonaro está isolado. Até poderia assumir o papel de presidente, convocar as forças políticas para mediar conflitos e acordar providências básicas para tirar o país da crise. Mas isso não quer, já foi longe demais na estratégia de multiplicar conflitos e não pensa em voltar atrás. Está naquela de “agora ou nunca”! Entende que o que lhe resta são os 20% de apoiadores dispostos a secundar cada mentira sua e cada ataque seu. Ele acha que vai. Eu acho que ele racha. Vamos ver o que acontece no próximo dia 7.

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