Durante os últimos três anos, o presidente Jair Bolsonaro tomou diversas atitudes que poderiam ser consideradas politicamente suicidas, alimentando evitáveis conflitos diplomáticos, institucionais e até intestinos. Assim como seriam evitáveis centenas de milhares de mortes pela pandemia. Porém, é difícil imaginá-lo, aloprado como é, seguindo passivamente rumo ao matadouro, que se lhe avizinha com as eleições de outubro, sem tentar escapar da fria em que se meteu.

Ainda no ano passado, Bolsonaro instituiu um programa social para chamar de seu – o Auxílio Brasil – e distribuiu promessas natalinas de benesses fiscais para policiais, ruralistas e pentecostais, esperando uma melhora – que não veio – na sua avaliação pública.

Três pesquisas eleitorais divulgadas na semana passada – Quaest, Ipespe e Ideia – mostram o mesmo quadro do final do ano passado, com Lula na frente (entre 41 e 45%), Bolsonaro em segundo (23 a 24%), Moro em terceiro (9 a 11%), Ciro em quarto (5 a 7%) e Dória em quinto (2 a 4%). A chance de vitória do Lula no primeiro turno é real e varia dentro das margens erro das pesquisas.

O ogropopulismo presidencial está sendo suficiente para segurar Bolsonaro nesse patamar de preferência entre os eleitores, mas não para alterar a diferença frente ao Lula, que tem o dobro dele. Para Bolsonaro, o pior tem sido o aumento da rejeição, próxima dos dois terços. Sérgio Moro largou bem, assumindo o terceiro lugar, mas não avançou mais sobre Bolsonaro.

Também está próximo dos dois terços o nível de definição de votos revelado nas pesquisas espontâneas, muito alto quando ainda faltam mais de oito meses para as eleições, indicando que não são apenas os candidatos que estão antecipando o processo eleitoral, mas os próprios eleitores já estão fazendo as suas escolhas, numa aparente síndrome de ansiedade, que projeta uma longa agonia política para o presidente.

“Quatro linhas”

Bolsonaro havia freado abruptamente a sua escalada golpista logo após as manifestações de 7 de setembro. Divulgou uma carta à Nação, sugerida por Michel Temer, se retratando de ataques feitos ao STF e prometendo conter a sua atuação “dentro das quatro linhas” da Constituição, que ele confunde com campo de futebol.

Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto. Foto: Marcos Côrrea / PR

É provável que Bolsonaro tenha sido convencido por assessores civis e militares de que, no ritmo golpista em que vinha, seria mais fácil parar na cadeia, mesmo antes do final do mandato, do que obter apoio suficiente para violentar o STF ou o resultado das eleições. Também pode ter sido convencido de que poderia crescer nas pesquisas, agregando apoios entre eleitores mais moderados, comportando-se de forma mais respeitosa nas relações com os demais poderes.

Porém, cem dias depois da carta do Bolsonaro, ela virou carta virada: havia sido apenas uma cartada de momento. Sem obter o esperado retorno político das medidas tomadas e da postura adotada, ainda no final de dezembro ele retomou os ataques a ministros do STF, mesmo estando eles em férias e não havendo julgamentos em curso.

Bolsonaro concentra ataques nos ministros Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, que serão responsáveis pela atuação do TSE em 2022. Ao mesmo tempo, volta a questionar a legitimidade do sistema eleitoral, como quem prepara um álibi para tensionar o processo, desistir dele ou contestar a sua própria derrota. Em outras palavras, quer jogar para além das quatro linhas do seu pasto mental.

Líder da oposição

Com dois terços de rejeição e de definição do eleitorado, sem força para dar um golpe, Bolsonaro tem pela frente um longo percurso em campo minado. Sem chance de vitória, sua base politico-partidária tenderá à evasão, mas ela própria estará no risco dele evadir-se para alguma aventura caso se veja diante de uma eventual humilhação, como uma iminente derrota no primeiro turno, ou virtual exclusão de um eventual segundo turno.

Montagem de Jair Bolsonaro e Donald Trump beijando-se. Foto: Redes Sociais

A essa altura, Bolsonaro está disputando a condição de líder da oposição. Mesmo perdendo, precisa manter um mínimo em capacidade de competição, sem perder de muito do Lula e ganhando com folga dos demais concorrentes. Se perder de muito, no primeiro turno, ou chegar em terceiro, mesmo disputando a reeleição com o poder nas mãos, é o Bolsonaro quem vira carta virada.

O problema é que esse rumo não resolve o problema dos seus seguidores, que serão perdedores, nem conforma os demais concorrentes. Já há quem, nos próprios círculos políticos de direita, acuse Bolsonaro de egoísmo, por saber estar os conduzindo à derrota, sem dar espaço a outros nomes com mais chances de derrotar o Lula.

Fato e factoides

A resiliência do quadro eleitoral e o tempo que ainda nos separa das eleições, deixa muita gente com os nervos à flor da pele. Há um equilíbrio tenso, um esforço continuado de resistência, enquanto Bolsonaro caminha para o matadouro. A pergunta é inevitável: que fatos novos poderiam alterar o curso mais provável dessa história?

Nota-se uma grande preocupação no PT com a segurança e a saúde do Lula, que está com 76 anos. Ele vem tocando uma intensa agenda de articulações, mas tem evitado eventos públicos, especialmente aglomerações. O seu favoritismo amplo e antecipado, numa conjuntura pontilhada de ameaças e de violências, recomenda a cautela. Lula amplia a vantagem, mesmo jogando parado. Aposta nas alianças para ganhar logo no primeiro turno.

Bolsonaro aproveitou a sua recente internação em São Paulo para relembrar o atentado que sofreu na campanha de 2018. Curiosamente, o general Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, andou aventando o risco de um novo atentado contra o presidente. E o delegado da PF, responsável pelo inquérito, já arquivado, foi substituído por outro que – especula-se – poderia reabri-lo. Há um esforço desesperado para ressuscitar o feito, na expectativa de reduzir o desgaste do presidente.

Atentado a Jair Bolsonaro em 2018. Foto: Redes Sociais

A insistência do Bolsonaro em distribuir vantagens corporativas aos seus redutos militar, policial e miliciano, mesmo afrontando os demais trabalhadores que estão em situação de penúria, sugere que ele considera a hipótese de estimular quarteladas que, mesmo sendo localizadas, dêem espaço para crises institucionais, como a tentativa de adiar as eleições ou, até, de encobrir uma eventual renúncia presidencial “arranjada”. Esta hipótese poderia trazer para a disputa o vice-presidente, Hamilton Mourão, e alterar, em alguma medida, o quadro eleitoral.

Tudo parece possível, por se tratar do reino do Bolsonaro. Ao mesmo tempo, tudo parece improvável, pelo mesmo motivo. Mas o STF e o Congresso têm o legítimo poder de requisitar proteção militar às instituições democráticas eventualmente ameaçadas, na Garantia da Lei e da Ordem (GLOs).

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