A Avenida Paulista ficou lotada no domingo passado. Apesar da fuga para os EUA, das joias da Arábia e da tentativa de golpe de Estado, dezenas de milhares de pessoas atenderam à convocação feita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Ele está acuado e busca uma saída nas ruas. O avanço nas investigações sobre a invasão das sedes dos poderes em 8 de janeiro, os elementos colhidos a partir da delação premiada de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens, e a divulgação da reunião ministerial de julho passado em que se discute, abertamente, um golpe para impedir a vitória e a posse do presidente Lula deixaram Bolsonaro nu.

Foi o cerco a Bolsonaro, com referências cada vez mais frequentes à sua prisão, que determinou o momento da manifestação. Mas a aproximação das eleições municipais foi bem aproveitada. O ex-presidente exigiu a presença e a solidariedade dos que se elegeram com o seu apoio e, principalmente, dos que querem pescar votos entre os seus eleitores em outubro.

Numa dessas, ali estiveram, além do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), outros três governadores, dezenas de parlamentares e incontáveis candidatos a prefeito e a vereador, de muitos municípios paulistas e de estados vizinhos. Sem graça e sem direito à palavra, lá estava o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), que quer o apoio de Bolsonaro para se reeleger.

Golpe que não é golpe

A manifestação foi convocada a pretexto da “defesa do Estado Democrático de Direito”. Bolsonaro pediu aos seus apoiadores que evitassem faixas ou cartazes com críticas “a quem quer que seja”, no que foi atendido. Expressou satisfação quando subiu no palco e viu a massa disciplinada.

No seu discurso, Bolsonaro negou que tenha havido tentativa de golpe: “O que é golpe? É tanque na rua, é arma, conspiração. Nada disso foi feito no Brasil”. Mas foram feitas minutas de decreto para instituir o Estado de Sítio, intervir no TSE e impedir a posse de Lula. Bolsonaro disse que as minutas estavam “dentro das quatro linhas da Constituição”. Mas ela tem muito mais do que quatro linhas e nenhuma prevê Estado de Sítio para melar eleição.

O ato visou constranger as investigações da Polícia Federal, ordenadas pelo STF. Bolsonaro quer dizer, inclusive para os militares, que tem apoio popular para mentir e para conspirar. A disciplina imposta aos seus apoiadores deixa no ar a pergunta sobre o que poderia ocorrer se ele incitasse uma nova invasão aos três poderes.

A pergunta é pertinente à provável prisão do ex-presidente. A economia cresce, as instituições seguem funcionando, não há apoio no Exército, nem no exterior, para um golpe, muito menos para uma guerra civil. Mas a sua prisão seria um ativo importante para nacionalizar a eleição municipal, reforçando a sua posição de principal cabo eleitoral da direita.

Anistia geral

Um detalhe instigante foi, apesar do pequeno número de oradores, a intensidade com que foi usada a palavra “pacificação” no ato de domingo. É um conceito estranho ao jargão belicoso da extrema-direita, mas muito oportuno diante do risco de prisão. É como se quisessem nos dizer: “O preço da pacificação política é a impunidade do Bolsonaro”.

No seu discurso, ele incorporou, de vez, a proposta de aprovação de uma lei para anistiar todos os participantes da invasão dos prédios públicos em 8/1. Esta seria a oportunidade para anistiar Bolsonaro e os demais cúmplices na tentativa de golpe. Tudo pela “pacificação”. Para Bolsonaro, é mais viável armar no Congresso do que convencer no Judiciário.

O objetivo político da manifestação vai além de evitar a sua prisão, de imediato, e inclui, a médio prazo, reverter a sua inelegibilidade. Bolsonaro é candidato a presidente em 2026 e, assim, esse prazo seria 2025. Mas, caso a sua prisão se confirme, pode precipitar uma campanha pela anistia.

Bolsonaro nunca foi pacifista, sempre defendeu a eliminação dos seus detratores e deve pagar pelo golpe. As instituições devem seguir funcionando e a pretensão de anistia deve ser tratada como projeto de impunidade. O governo Lula é heterogêneo, mas não deve tolerar bonzinhos de plantão que sucumbam à farsa da pacificação.

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