Não é de hoje que o presidente Jair Bolsonaro está em campanha pela reeleição. A oscilação favorável à sua avaliação no semestre passado, efeito do auxílio emergencial, o animou a ir às ruas, correndo sozinho na raia rumo a 2022. Essa circunstância levou-o, também, a bombar o Centrão para ganhar a disputa pelas presidências da Câmara e do Senado e, assim, supostamente, sepultar a possibilidade de impeachment.

Só que a semana que passou deixou rombos no casco da nau presidencial. O Instituto Datafolha mostrou que Bolsonaro chega ao seu pior momento, embora ainda mantenha o apoio de quase um terço da população. Segundo o Datafolha, 54% dos brasileiros veem sua atuação como ruim ou péssima na gestão da pandemia. O declínio da sua popularidade tem enlouquecido o presidente e os seus filhos que, agora, querem parecer defensores da vacinação. Tentam, em vão, transferir para os governadores e o Supremo Tribunal Federal (STF) a responsabilidade pelo caos humanitário em que se converteu o país, com a epidemia multiplicando vítimas e arrasando a economia.

Divulgação: Datafolha

Foi este contexto que engendrou a primeira rusga entre Bolsonaro e Arthur Lira (PP-AL), o presidente da Câmara que ajudou a eleger. Sentindo-se uma espécie de primeiro-ministro, Lira convocou uma reunião com os governadores para discutir medidas legislativas de combate à epidemia, evidenciando que a avaliação de ausência de governo na crise sanitária é uma unanimidade nacional. Lira só baixou o facho quando se viu sem condições de aprovar uma emenda à Constituição, conhecida como “PEC da Impunidade”, para blindar os parlamentares de prisões em flagrante, estendendo a imunidade parlamentar a crimes comuns.

O desgaste do governo também está explícito no enfraquecimento da sustentação de que o presidente dispunha nas redes sociais. Bolsonaro exonerou da Secretaria de Comunicação Fábio Wajngarten, artífice das ondas de fakenews que constituíam a propaganda oficial. Wajngarten recusou convites para outros cargos, o que indica que ele pode vir a criar problemas para o presidente. Foi nesse clima que Bolsonaro gravou e cancelou, três vezes na mesma semana, um pronunciamento à nação em cadeia de rádio e TV.

Rolou, também, a cabeça do ministro da Saúde, Eduardo Pazzuello, que aceitou fazer o papel de boneco de ventríloquo, tornando-se cúmplice da multiplicação de vítimas da pandemia. Apesar do desgaste acumulado, ele não estaria saindo por problemas de saúde, como alegado, mas para o governo tentar frear, no Congresso, a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a gestão catastrófica da crise de saúde. Pazzuello não deixará saudades, mas todos sabem que o problema, na verdade, tem outro nome. De resto, Bolsonaro recusou indicações de Lira e do Centrão para substituir Pazzuello. Magoou…

Persiste, ainda, a repercussão negativa da intervenção feita por Bolsonaro na Petrobrás, que se consolidará em abril, com a posse de Joaquim Silva e Luna na presidência e a substituição de vários conselheiros da empresa. Está clara a intenção do governo de interferir nos reajustes dos preços do diesel e de outros combustíveis, socializando custos de frete dos caminhoneiros para o conjunto da sociedade, na contramão do ajuste fiscal e fomentando o consumo de combustíveis fósseis. Um remédio tipo cloroquina, ineficaz para resolver a insolvência dos caminhoneiros e com efeitos colaterais para a economia.

Gênio da lâmpada

Mas o pior para Bolsonaro foi a decisão do ministro do STF Edson Fachin que anulou as condenações do ex-presidente Lula, tornando-o elegível em 2022. A Procuradoria-Geral da República (PGR) recorreu da decisão, que terá de ser confirmada, ou não, pelo plenário. Fachin, contudo, adotou a posição que se tornou majoritária no tribunal, sendo pouco provável sua revisão. Também pegou Bolsonaro no contrapé porque ele acabou de viabilizar a impunidade do filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ),  num acordo com um ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e vinha fomentando a onda contra a Operação Lava-Jato. Afinal, como resumiu o próprio Fachin, “é uma questão de isonomia”.

Bolsonaro apostou na polarização com o PT como melhor caminho para a sua reeleição, mas ficou assombrado quando Lula agigantou-se de imediato, como um gênio solto da lâmpada, em contraponto à sua candidatura. Lula exerce uma influência patológica sobre Bolsonaro, o que já se via na paixão tardia do presidente pelo auxílio emergencial e na ênfase nordestina à sua agenda eleitoral. Mas chegou às raias do ridículo ao promover uma cerimônia governamental usando máscara e ao acrescentar um globo terrestre no cenário da sua última live, porque o Lula, na primeira entrevista após sua soltura, peitou a displicência do presidente frente à pandemia e à ciência.

O pescador e o gênio, Edmund Dulac, 1907

Mesmo negando, Lula entrou de imediato na raia, puxado pelo vácuo de Bolsonaro. E o seu ingresso obriga os demais pretendentes a colocarem suas cartas na mesa. Bolsonaro negocia a sua filiação com vários partidos, prepara uma coalizão de direita com o Centrão e sabe que, em 2022, as redes sociais não serão suficientes para embalar uma candidatura e o horário eleitoral gratuito pode ganhar importância novamente. Lula sinaliza para a formação de uma frente de esquerda, já no primeiro turno, mas também vai conversar com empresários e outros atores políticos para lembrá-los de que não é bicho-papão. Significa que quem chegar tarde à raia não vai mais encontrar água limpa.

Complexo de vaidades

Tanto é que os bastidores ficaram ouriçados. Parece claro que também há espaço para uma candidatura de oposição pela centro-direita, mas não para várias, de modo que, para chegar ao segundo turno, essa candidatura terá que unificar os pré-candidatos desse campo, como João Dória, Eduardo Leite, Henrique Mandetta, Sérgio Moro, Luciano Huck e Ciro Gomes. A sua eventual pulverização consolidaria a polarização Bolsonaro-Lula.

Diante disso, Huck disse que mantém a disposição de disputar a presidência, mas também considera a possibilidade de apoiar outro candidato. Mandetta disse que o DEM poderá abrir mão da cabeça de chapa, dando espaço para uma aliança. Moro está na moita, desde que passou a ser julgado pelo STF por suspeição, no âmbito da Lava-Jato. Ciro também não fez declarações, mas deve ter percebido que, com Lula candidato, ficou mais difícil seu projeto de derrotar o PT no primeiro turno para disputar no segundo contra Bolsonaro. Nos próximos dias, esse bailado vai animar.

Foto: Divulgação

O PSDB, com dois pré-candidatos, terá que se resolver para poder negociar. Leite não disse nada, mas Dória declarou que poderá se candidatar à reeleição, em São Paulo, e apoiar outro nome para presidente. Aécio Neves, ex-candidato do partido, foi além, dizendo que o PSDB poderá não apresentar candidato para unir o centro, o que seria inédito.

Mito vira mico

Porém se o Bolsonaro continuar definhando, outras duas hipóteses também inéditas, hoje improváveis, poderão se configurar, a depender do que resultar desse congestionamento no centro e na direita. No caso de se pulverizarem, a polarização, com um Bolsonaro fraco, poderia levar o Lula a uma vitória no primeiro turno. Mas, se a centro-direita construir uma forte opção de poder, Bolsonaro poderia até ficar fora do segundo turno, num cenário mais desfavorável a Lula.

Outros fatores influenciam o processo em outras direções. Bolsonaro espera reverter a queda de popularidade e manter-se um candidato competitivo com a nova versão – reduzida – do auxílio emergencial. Lula ressurge com força, mas também carrega uma rejeição elevada, o que dificulta uma vitória em primeiro turno. E, no centro e na direita, há um complexo jogo de vaidades, a serem destiladas.

Fato é que, há um ano e meio das eleições, a disputa pelo poder começa a ocupar espaços, mesmo estando o país ainda sob pandemia. Os candidatos negam, avançando. E o rei está nú, bem no meio da rua.

Muita água ainda vai rolar debaixo da ponte, mas não há como negar que, nesse novo quadro, o processo político vai acelerar. Há várias incógnitas no horizonte, mas não há dúvida de que a disputa, ainda que prematura e bipolar, já faz grande diferença face ao quadro anterior, em que o presidente, mesmo responsável pela grave crise sanitária, estava sozinho na raia, ameaçando o país com a reedição da tragédia.

A despeito da rejeição à política, difusa na sociedade, e de opções partidárias, a inflexão recente da conjuntura, que repôs a disputa pelo poder, desperta esperanças em milhões de pessoas.

Finalmente, se o mito virar mico, vai sobrar nas mãos dos generais que o sustentam, mesmo com o abismo à frente e à revelia da maioria da nação. Isso porque o centrão, como se sabe, não segura alça de caixão.

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