Bolsonaro é contra vacinas, especialmente as chinesas. Sobretudo se forem fabricadas no Brasil, no âmbito de algum projeto que prospere à margem da inépcia do Ministério da Saúde e possa fortalecer algum desafeto seu, como o governador de São Paulo, João Dória. Foi assim que Bolsonaro desautorizou seu ministro, Eduardo Pazuello, a apoiar a fabricação da Coronavac – vacina chinesa testada em parceria com o Instituto Butantã.

O que Bolsonaro descobriu com a experiência da pandemia é que, pagando um auxílio emergencial a milhões de pessoas à beira da miséria, pode avançar na sua necropolítica ganhando até alguns pontos na sua popularidade. Mesmo rejeitado por mais da metade da população, mantém-se protegido do impeachment com o apoio do centrão e a baixa efetividade dos partidos de oposição. Sente-se, assim, à vontade para sair em campanha antecipada pela própria reeleição, mesmo com um país em chamas, doente, violento, isolado do mundo e em profunda recessão.

“Vacina obrigatória é só no Faísca”, disse Bolsonaro nesse final de semana, num post que publicou com o seu cachorro, fazendo gracinha com coisa séria. Se ele parece entender que deve vacinar o Faísca para não expor a vida do animal de estimação e evitar que ele dissemine doenças, como pode admitir que pessoas sejam sacrificadas no altar da ignorância deliberada? O presidente acredita que o auxílio emergencial vai funcionar para ele como uma vacina, capaz de amarrar aos que se identificam com esse tipo de aversão à ciência os milhões de miseráveis produzidos pela exclusão, que não têm como se importar com qualquer coisa que vá além da sobrevivência imediata.

“Um aspecto da extrema direita no poder, do ponto de vista ideológico, é o desprezo pela ciência e, em decorrência, no caso brasileiro, pela saúde dos cidadãos. É simplesmente assustador que, o país alcançando a astronômica cifra de mais de 155 mil mortos pela Covid-19, o debate provocado pelo presidente e suas hostes digitais gire em torno de um combate contra a vacina. Não se discute a saúde, mas os meios de propagação da morte”, diz Denis Rosenfield, um conservador, reagindo à postura presidencial.

Segundo uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), 52% dos que se identificam com Bolsonaro afirmam que há pouca, ou nenhuma chance, de virem a tomar uma vacina de origem chinesa. Esse número cai para 18% entre os que não se identificam com ele, similar ao dos que rejeitam vacinas de outras origens. Pode-se, por aí, entender a postura de ambiguidade ignorante de Bolsonaro, mas também os limites da influência negativa que recebe e exerce dos seus apoiadores fundamentalistas.

Pode ser, então, que a maioria dos brasileiros tire outras lições disso tudo. A vacina contra o coronavírus é esperada e desejada pela coletividade, que não está preocupada com as identidades ideológicas das vacinas em teste. A minoria fundamentalista que as rejeitam não basta para reeleger o presidente, que deveria receber, com humildade, o reconhecimento momentâneo obtido dos desesperados que não sabem que o auxílio emergencial derivou mais das pressões do Congresso que da generosidade do governo. Só que o valor do auxílio já está menor e ninguém sabe de onde sairão os recursos para o tal programa de “renda cidadã” que Bolsonaro quer chamar de seu.

Imunidade ao bolsonarismo

Há indícios, até, de que os eleitores das maiores cidades estejam desenvolvendo alguma imunidade ao bolsonarismo. O presidente festejou a derrocada de Wilson Witzel do governo do Rio de Janeiro, um subproduto da sua própria eleição, incensando o prefeito Marcelo Crivella, candidato à reeleição, filiado ao Republicanos e patrocinado pela igreja Universal do Reino de Deus. Com a benção de Bolsonaro, Crivella pode ficar fora do segundo turno.

Não é muito diferente o quadro eleitoral em São Paulo, a não ser pelo fato de que o candidato abençoado, Celso Russomano (Patriotas), ter começado a campanha em primeiro lugar, agora assumido pelo atual prefeito, Bruno Covas (PSDB), apoiado pelo governador João Dória. Russomano está em queda e corre o risco de chegar atrás também de Guilherme Boulos (PSOL). Despencou após a benção presidencial, embora sua campanha tenha fragilidades próprias.

Mesmo em capitais em que há candidatos bolsonaristas competitivos, como Fortaleza, Cuiabá, Manaus e Goiânia, eles estão em queda e têm evitado se vincular à rejeição ao presidente. Essa vinculação só está dando retorno em municípios menores, mais dependentes, onde ainda há um contingente significativo de eleitores que mantém expectativas positivas em relação ao governo federal. O bolsonarismo está se refugiando nos grotões.

Vai ver que a vacina contra Bolsonaro funciona assim mesmo: vai mostrando ao povo o oportunismo do rei por meio dos seus incompetentes prepostos. Ainda é cedo para avançar conclusões sobre resultados eleitorais, mas parece que a rejeição ao presidente já não lhe permite alavancar ninguém, pelo menos nas maiores cidades. Pode estar se formando uma imunidade de rebanho contra Bolsonaro, antes mesmo da primeira campanha massiva de vacinação contra o vírus.

Nesta segunda, falando para a claque que faz plantão diante do Palácio do Alvorada, Bolsonaro blasfemou: “Eu dou minha opinião pessoal: não é mais fácil e até mais barato investir na cura do que na vacina?” Em vez de poupar as pessoas do vírus, ele quer fabricar mais cloroquina… E eu dou a minha: vacine-se contra o Bolsonaro em 15 de novembro, antes do coronavírus. É questão de vida ou morte!

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