O enredo político da semana passada não faz sentido, considerando as informações disponíveis. Bolsonaro jogou tudo o que tinha para colocar 300 mil seguidores nas ruas, transformando o 7 de setembro, que seria uma data para celebrar a união nacional, numa manifestação sectária, de incitação à violência contra o Poder Judiciário e à desobediência às decisões judiciais. Seria o ponto culminante de uma escalada golpista, visando enquadrar, sob a ameaça iminente de constrangimento físico, a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aos seus desígnios políticos, incluindo o afastamento sumário dos seus integrantes que a eles se oponham.

A escalada bolsonarista custou caro. Não só para promover as manifestações – divulgação, transporte, alimentação, gratificações, faixas, camisetas, trios elétricos, caminhões – mas também ao relegar, a um plano secundário, o enfrentamento das múltiplas crises que nos assolam. O tensionamento político chegou ao ponto de rachar as elites empresariais, cancelar a tradicional parada militar do 7 de setembro e sugerir ao mundo o espectro de um autogolpe.

As manifestações reuniram radicais e oportunistas de vários segmentos: políticos, policiais, milicianos, neopentecostais, ruralistas e caminhoneiros. Não faltaram faixas, cartazes e slogans em favor de uma “intervenção militar” “com Bolsonaro”, a prisão imediata de ministros do STF e o retorno do voto impresso, derrotado no Congresso. Em Brasília, houve várias ameaças de rompimento das barreiras policiais que isolavam a Praça dos Três Poderes. Os discursos presidenciais foram ao extremo da radicalização, falando em “ultimato a todos que estão na Esplanada”, criando a expectativa entre seus apoiadores de uma ação imediata contra a ordem democrática.

Cavalo de pau

Para surpresa geral, a conversa do presidente deu uma guinada de 180 graus. Menos de 24 horas depois e enquanto alguns dos bolsonaristas mais fervorosos ainda ocupavam a Esplanada dos Ministérios, apoiados por facções de ruralistas e de caminhoneiros que bloquearam estradas em 13 estados, o presidente divulgou um áudio pedindo a desmobilização geral. Os manifestantes duvidaram da autenticidade da mensagem e o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, teve que divulgar outro vídeo para confirmar o pedido.

Ainda por cima, Bolsonaro mandou um avião da FAB buscar o ex-presidente Michel Temer, em São Paulo, para abrir um canal de interlocução com Alexandre de Moraes, chamado por ele mesmo de canalha no discurso da véspera. Temer chegou a Brasília com o esboço de uma “Carta à Nação”, para que Bolsonaro pudesse se retratar do que tinha dito “no calor do momento”. Foi uma carta de rendição a Moraes, pactuada entre os três. No dia seguinte, o ministro da Justiça, Anderson Torres, foi a São Paulo para uma conversa de quatro horas com o magistrado.

É óbvio que Bolsonaro foi emparedado por alguma informação suficientemente ameaçadora. Não se sabe que informação teria tamanho poder, mas é de se supor que integre o acervo de uma das investigações sob sigilo conduzidas por Moraes e que seja fulminante, a ponto de provocar a sua abrupta mudança de posição, um cavalo de pau no auge da sua escalada totalitária, entre a noite de terça e a manhã de quarta-feira.

Vai vazar

Bolsonaristas de pedigree espalham o conto da carochinha de que a carta de rendição seria um gesto de estadista de Bolsonaro, para promover a harmonia entre os poderes, tentando aplacar a decepção dos militantes golpistas. Mas pululam especulações entre os observadores do cenário político real: nove entre dez suspeitam de financiamentos ilícitos à escalada golpista e do envolvimento de filhos do presidente. Temer teria informado aos interlocutores que Carlos Bolsonaro participou do encontro e aprovou a carta de rendição (com o rabo entre as pernas…).

Há quem diga que um sinistro acordo secreto teria sido feito, sob a égide do Temer, para Moraes acobertar os supostos crimes para não ser mais atacado. O ex-presidente Tancredo Neves nos ensinava que não existe segredo entre mais de uma pessoa. No caso, sabem do segredo, com certeza, Bolsonaro, Moraes, Temer e Torres, além do delegado da PF que conduz o inquérito. Fala-se na participação de Jorge Oliveira, ministro do TCU. Também saberiam de tudo o chefe do GSI, general Augusto Heleno, e os filhos do presidente.

Se um inquérito apurou fato de relevância suficiente para fazer Bolsonaro se desdizer de forma tão retumbante, esse fato é de interesse público, afeta a vida do país e não deveria permanecer sob sigilo. A hipótese do acordo sinistro reduziria Moraes a uma condição política, jurídica e moral ainda pior que a do próprio presidente.

Aguardem! Bolsonaro está sangrando. Seguirá estrebuchando contra a imprensa – e o acesso das pessoas à informação – e o direito dos índios às suas terras. Vai procurar alvos mais frágeis para a sua fúria. Mas, logo mais, vamos acabar sabendo que peça é esta que ainda falta no quebra-cabeça dessa penosa conjuntura. Parece, até, que Bolsonaro já está com um pé para fora do tablado.

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