Na tradição judaico-cristã, a origem da palavra e da celebração da “Páscoa” perde-se no tempo. Para os cristãos, o seu significado está associado à ressurreição de Cristo, à superação da morte. Luiz Roberto Alves assim definiu o termo pesah/páscoa: “o verbo que dá base ao substantivo pesah tem o sentido de salto, movimento, caminhada, travessia. Todas as palavras têm história e essa história corresponde às ações dos homens e mulheres. Os hebreus juntaram à idéia do pesah vários acontecimentos ligados à idéia de travessia” (Expositor Cristão, 2a. Quinzena, 1984,p. 12).

A Páscoa nos alcança, em 2020, no meio da pandemia provocada por um novo coronavírus. Até quinta (09/04), o mundo já contabilizava, oficialmente, 1,5 milhão de casos confirmados e mais de 100 mil mortes. No Brasil, até a noite de sexta-feira (10/04), havia quase 20 mil casos confirmados, com mais de mil mortes. Quando você estiver lendo este texto, os números já estarão bem maiores e sabemos que há milhares de casos não notificados e de diagnósticos atrasados.

A crise sanitária já está razoavelmente controlada na China e em alguns outros países, mas, mesmo lá, o vírus apresenta repiques e ainda mata. Na Europa e nos Estados Unidos, a espiral da morte continua ascendente e na América do Sul está apenas começando, mas já dando espaço para cenas dantescas.

Este ano, na prática, a Páscoa chegou para nós, no Brasil, num momento em que o luto já consome mais de mil famílias, inclusive de profissionais de saúde que caíram doentes no enfrentamento direto da epidemia. Sendo que o pior ainda está por vir. Enquanto as vítimas multiplicam-se, o sistema hospitalar chega ao limite da sua capacidade em várias capitais brasileiras. Todos os que necessitarem de atendimento hospitalar nas próximas semanas, por qualquer motivo, poderão engrossar as estatísticas de vítimas da pandemia.

Sem contar que andam à solta os quatro Bolsonaro do apocalipse, boicotando publicamente a política de isolamento social indicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e, supostamente, também adotada pelo próprio governo. O mau exemplo vindo de cima estimula os que afrontam as exigências sanitárias, reduzindo os efeitos positivos do sacrifício de confinamento assumido pela maioria da população.

Ainda não chegou, pelo menos para nós, a hora de celebrar a superação da morte e não está muito bem definido quando ela chegará. Dependerá da atitude que tivermos agora. Mas podemos aproveitar a Páscoa para olharmos dentro de nós para celebrarmos o que estamos fazendo e deixando de fazer, nesses dias, pela proteção nossa e de toda gente, para evitar mais sofrimento e morte, para que o momento da ressurreição e da superação não se atrase tanto.

Para terminar embananando a temporalidade a que eu mesmo aqui me apeguei, lembro o que o Rubem Alves escreveu sobre a Páscoa: “sem dúvida muita gente quando fala de páscoa, só vê ovo de chocolate. Pensam na ressurreição como algo que aconteceu faz muito tempo, num lugar distante. (Impossível. Mortos não ressuscitam.) E pensam em algo que acontecerá de novo num tempo distante, muito longe … no futuro (Impossível. Mortos não ressuscitarão.) Mas a poesia não conhece nem o passado e nem o futuro. O passado sobre que a poesia fala é presente na memória e nos sentimentos. O futuro sobre que a poesia fala é presente na esperança”.

 

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