Propriedade “Pequeno Paraíso”, em Taió (SC). Restaurada em 1997 por Ercília Felix Leite em parceria com a Apremavi. Foto: Miriam Prochnow / Apremavi

Santa Catarina é muito lindo! Um pedaço mágico do Sul do Brasil, com 500 quilômetros de costa atlântica, repletos de ilhas, baías, reentrâncias. Seu território afunila-se rumo ao oeste, até encontrar o Rio Paraná e a Argentina. Nele vivem 7,5 milhões de pessoas, num recorte particularmente interessante da diversidade brasileira, que mistura indígenas Xoklengs, Kaingangs e Guaranis resistentes e descendentes de portugueses, açorianos, italianos e alemães. O estado tem um dos mais elevados Índice de Desenvolvimento Humano (IDHs) do país.

Nem por isso Santa Catarina safou-se da onda conservadora que, em 2018, levou Jair Bolsonaro à Presidência, arrastando lixo Brasil afora, assim como Carlos Moisés, eleito governador pelo mesmo partido, o PSL. Neste momento, ele está afastado do cargo respondendo processo de impeachment, acusado de desvio de recursos na compra de respiradores para enfrentar a pandemia. Sua vice, Daniela Reinehr, ruralista e filha de um militante nazista, é quem governa o Estado.

Porém essa nuvem de poluição política embaça a vista sobre ações e projetos em curso que promovem mudanças culturais e reconstroem paisagens, num processo exemplar do Brasil fraterno que queremos. Hoje, vamos passar por duas histórias pontuais, que são parte de uma obra maior e enlaçam simbolismos muito envolventes.

Ercília Felix Leite, plantadora de florestas e parceira da Apremavi. Foto: Miriam Prochnow / Apremavi.

Subindo a serra

É forte a presença da colonização alemã na região serrana de Santa Catarina. O clima frio foi um atrativo para os imigrantes, geralmente oriundos das regiões mais pobres da Alemanha, que se dispuseram a migrar para um país tão distante e diferente como o Brasil.

Mas a Mata Atlântica era uma ilustre desconhecida a ser vencida, para viabilizar a ocupação da nova terra, que se deu num padrão mais intensivo, de pequenas propriedades familiares. Então, tome-lhe machado, depois motosserra, abrindo espaços para cidades, estradas, pastagens e agricultura, extraindo madeiras para a construção de casas, pontes, cercas e a produção de lenha.

É claro que, com os sucessivos fluxos migratórios, seria inevitável o impacto sobre a cobertura florestal e os cursos d’água, mas o desconhecimento da natureza local e a reprodução de uma cultura exótica de ocupação e de uso da terra agravou esse impacto em várias regiões ao longo do tempo. Por outro lado, esses mesmos processos ampliaram o conhecimento sobre a Mata Atlântica e as peculiaridades locais.

Apremavi e MST plantam 3.500 árvores no Assentamento Filhos do Contestado, em São Cristóvão do Sul (SC). Foto: Vitor L. Zanelatto / Apremavi

Em Taió, que fica 150 quilômetros a oeste de Blumenau, há um movimento ativo reflorestando áreas em propriedades rurais. Ercília Leite viveu anos fora e retornou para lá, em 1996, para cuidar do pai e herdou uma pequena área, onde, nos anos seguintes, formou a sua floresta. Foram plantadas 18 mil mudas de 45 espécies, em três quartos da propriedade de 20 hectares.

“Nascentes que estavam secas renasceram e hoje temos uma fartura de água pura. Além disso, vemos os animais que ajudam a espalhar sementes de palmito-juçara e outras espécies. Têm as abelhas que produzem mel e já colhemos muitos pinhões das araucárias que foram plantadas”, comenta Ercília, cuja experiência é hoje compartilhada e reproduzida por dezenas de mulheres. 

Iara, filha de Mariana Lemos, líder do Assentamento Filhos do Contestado, acompanha plantio de árvores nativas em São Cristóvão do Sul (SC). Foto: Gabriela Schäffer / Apremavi

Floresta comunitária

O plantio de florestas não para. No dia 24/4, em São Cristóvão do Sul, mais 80 km a oeste, as 23 famílias do Assentamento Agroecológico Filhos do Contestado realizaram um plantio em homenagem aos trabalhadores rurais mortos no chamado Massacre de Carajás, no Pará, em 1996.

Localizado às margens da BR-116, o assentamento Filhos do Contestado é uma conquista recente dessas famílias, que permaneceram mais de três anos acampadas. As monoculturas de pinus e eucalipto predominam no município e os assentados querem fornecer alimentos para a merenda escolar e o abastecimento local (leia mais). 

Equipe da Apremavi posa com mudas nativas no Viveiro Jardim das Florestas. Foto: Miriam Prochnow / Apremavi.

Vilson Santin, da direção estadual do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), ressalta que a criação do assentamento, por ato da prefeitura, foi uma conquista muito importante nessa conjuntura. “Nunca vamos deixar de fazer a luta pela terra, e vamos construindo um novo modelo de assentamento, na linha da reforma agrária popular. É um assentamento agroecológico, mais próximo à área urbana, com lotes menores, mas que assegurem a subsistência das famílias e abasteçam o próprio município”, diz. 

Essas ações de reflorestamento são pontuais, mas se multiplicam no tempo, angariando adeptos, ampliando de escala e alterando a paisagem. Não são iniciativas apenas poéticas, mas que produzem alimentos e melhoram a qualidade de vida de forma contínua e sustentável.

Centro Ambiental e Viveiro Jardim das Florestas da Apremavi, aos pés da Serra do Pitoco em Atalanta (SC). Crédito: Wigold B. Schäffer / Apremavi.

Plantando o futuro

O plantio de florestas nativas é um dos instrumentos indispensáveis para a saúde e a recuperação do planeta. Aplica-se aos países de qualquer continente e aos biomas do Brasil. Pode ser apropriado, de diferentes formas, por diferentes segmentos sociais, desde que interessados num ambiente melhor. Resulta, também, em formações florestais diversas, já alteradas (antropizadas) e aculturadas conforme as intenções de uso que lhes deram origem.

No suporte às experiências aqui mencionadas, ontem e hoje, assim como a muitas outras, está o trabalho competente da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi), criada em 1987, a partir de uma ação de reflorestamento na Terra Indígena Ibirama, dos Xokleng, que havia sido degradada por madeireiros antes da demarcação. A sede e os viveiros da Apremavi estão em Atalanta, situada entre Taió e São Cristóvão.

Além de plantar florestas no dia a dia, há décadas, a organização participa das políticas ambientais, de redes de ONGs e da execução de programas na região, como a criação de unidades de conservação públicas e privadas e programas de educação e de capacitação ambiental.

Remanescente florestal de Santa Catarina. Mapa: SOS Mata Atlântica / Inpe

A Apremavi já ajudou a plantar 8,5 milhões de árvores nativas. Diretamente, restaurou mais de 1,2 mil hectares, em 2,8 mil propriedades, destinando-lhes 2,2 milhões de mudas. Destas, 1.415 estão cadastradas numa plataforma pública mantida pela Apremavi, que conta, hoje, com mais de 40 profissionais, remunerados e voluntários, em projetos em seis áreas temáticas, em Santa Catarina e no Paraná. 

A trajetória da Apremavi, ligada organicamente à dos seus diversos parceiros, combina resistência com transformação. Atravessa esses tempos sinistros com vigor e determinação. É uma raiz, das mais consistentes, para sustentar políticas e ações concretas que ajudem Santa Catarina, o Brasil e o mundo a enfrentar o desafio das mudanças climáticas. “E é por causa dos desafios para o futuro que a Apremavi quer inspirar cada vez mais pessoas, empresas e instituições públicas e privadas, em busca de um mundo melhor”, diz Miriam Prochnow, uma de suas fundadoras e conselheira.

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