Literaturas fora do eixo desafiam o mercado editorial e ampliam horizontes dos leitores brasileiros
Mesa reuniu representantes da Tabla, Carambaia e Rua do Sabão para discutir tradução, curadoria e a descolonização das estantes brasileiras
Para além do Norte Global, tradicionalmente responsável por concentrar e distribuir grande parte da produção literária consumida no mundo, editores e leitores começam a buscar novas perspectivas e narrativas que escapam dos circuitos editoriais mais tradicionais. Pioneiros na publicação de obras oriundas de países pouco traduzidos no Brasil, como Arábia Saudita, Letônia, Ucrânia e diversos outros territórios fora do eixo hegemônico, Graziella Beting, Laura Di Pietro e Leonardo Garzaro se reuniram na Feira do Livro de São Paulo para discutir como essas literaturas vêm redefinindo o panorama editorial global e o que se perde quando essas histórias deixam de circular.
Como inserir literaturas estrangeiras fora do eixo tradicional no mercado brasileiro? Essa foi a pergunta que guiou a conversa entre os editores. Da escolha das obras à seleção dos tradutores, passando pelo projeto gráfico e pelas estratégias de divulgação, todo o processo é construído de forma cuidadosa para que os leitores confiem na curadoria proposta, mesmo quando os autores e os países apresentados ainda são desconhecidos do grande público.
Manter uma editora independente dedicada à tradução de obras provenientes de idiomas e mercados pouco explorados já é, por si só, uma proposta ousada. Ainda assim, os responsáveis pelas editoras Tabla, Carambaia e Rua do Sabão assumem diariamente essa missão. Leonardo Garzaro relembrou que, quando começou a explorar literaturas fora dos grandes centros editoriais, percebeu que havia muito mais possibilidades do que imaginava.
“Quando você sai dos grandes mercados editoriais da Europa Ocidental, percebe que existe uma enorme quantidade de autores extraordinários disponíveis. Na Romênia, na Arábia Saudita, na Letônia ou na Ucrânia, há grandes escritores que ainda não foram publicados em português”, afirmou. O editor também compartilhou seu entusiasmo com as descobertas proporcionadas pelo trabalho: “e isso é fascinante. Eu me sinto um desbravador, chegando a lugares onde existe tanta coisa boa esperando para ser descoberta”.
Para além do entusiasmo em ampliar o repertório dos leitores brasileiros, os editores destacaram os inúmeros desafios envolvidos nesse processo. Graziella Beting, diretora da Carambaia, ressaltou que a tradução é uma das principais barreiras para a circulação dessas obras: “a tradução é, muitas vezes, um dos grandes obstáculos para ampliar esses horizontes. Porque tradução técnica é uma coisa. Tradução literária é outra completamente diferente”, explicou.
Laura Di Pietro destacou que, apesar das dificuldades, o Brasil possui uma vantagem importante por sua diversidade cultural e histórica: “temos uma certa sorte no Brasil. Somos um país grande, com uma história marcada por diferentes ondas de imigração. Encontrar tradutores de romeno, por exemplo, é trabalhoso, mas eles existem. O problema é que muitas vezes encontramos pessoas que acreditam ser tradutoras apenas porque falam o idioma ou viveram em determinado país. Mas falar uma língua e traduzir literatura são coisas completamente diferentes”, observou.
Os editores também chamaram atenção para a necessidade de valorizar o trabalho realizado nos bastidores da produção editorial. Para além da tradução, existe uma extensa cadeia de profissionais responsáveis por transformar um original estrangeiro em um livro acessível ao público brasileiro. “Quando a tradução chega, ela passa por uma leitura cuidadosa do editor. Depois segue para a preparação de texto, que é outra etapa importante. Ao longo desse processo acontecem inúmeras conversas com o tradutor. Discutimos escolhas, nuances, contextos e possibilidades. É um trabalho longo. Mas, quando essa etapa é bem feita, todas as outras fluem muito melhor. Muitas pessoas imaginam que o livro é traduzido, enviado para a gráfica e pronto. Na realidade, o texto passa por várias camadas de leitura e refinamento”, explicou Laura.
Leonardo complementou a discussão com bom humor: “é muito importante ouvir isso. Frequentemente ouvimos críticas sobre a ausência do nome dos tradutores nas capas dos livros, mas quase nunca se fala do editor. Muita gente sequer sabe exatamente qual é sua função”.
Para os participantes, publicar literaturas fora do eixo também envolve um trabalho contínuo de formação de leitores. Laura destacou que a missão da Tabla ultrapassa a simples publicação de livros: “realizamos minicursos, encontros, clubes de leitura e outras atividades paralelas. Existe também um trabalho de formação de leitores. Se queremos descolonizar as estantes, precisamos fazer algo que vá além da simples publicação. É necessário construir repertório”, afirmou.
A mesma lógica, segundo os debatedores, é adotada por diversas editoras independentes que buscam aproximar o público de novas narrativas, criando pontes entre leitores e obras de origens pouco conhecidas. O interesse pelo diferente não surge do vazio. Ele é construído por meio da curiosidade, da formação crítica e da disposição para conhecer outras formas de compreender o mundo. Ler obras produzidas em diferentes contextos culturais significa também ampliar perspectivas, questionar narrativas únicas e reconhecer a diversidade de experiências que compõem a humanidade.
Como destacou Laura, publicar livros que os leitores ainda não sabem que desejam ler é uma forma de apresentar novos imaginários: “muita gente nem sabe onde fica Djibuti. É um pequeno país africano, próximo da Somália, integrante da Liga Árabe. Mas encontramos ali um imaginário completamente diferente, uma forma distinta de olhar o mundo. Eu gosto muito dessa sensação de ser transportada para outros lugares, outros cheiros, outras referências”.
Graziella também ressaltou que as discussões sobre identidade, colonialismo e pertencimento atravessam não apenas as editoras, mas os próprios autores: “temos um escritor senegalês francófono que, durante muitos anos, escreveu em francês. Depois de produzir uma literatura profundamente decolonial, ele passou a questionar o fato de continuar escrevendo na língua do colonizador. Então decidiu estudar wolof, sua língua materna, e hoje escreve exclusivamente nesse idioma. Isso mostra como a discussão sobre língua, identidade e colonialismo também atravessa os próprios autores”, relembrou.
Encaminhando-se para o encerramento do debate, os participantes destacaram que o posicionamento ético das editoras vai além de suas políticas institucionais. Publicar também é um ato político que envolve escolhas, responsabilidades e posicionamentos diante de temas contemporâneos.
Leonardo citou como exemplo os debates surgidos após a invasão russa da Ucrânia: “houve editores defendendo o rompimento de relações comerciais com editoras russas, enquanto outros argumentavam que literatura e política deveriam ser tratadas de forma diferente. Essas tensões aparecem o tempo todo. Questões sobre língua do colonizador, conflitos geopolíticos e identidade cultural atravessam constantemente o mercado editorial”, explicou.
Em uma mesa dedicada à diversidade literária e à ética editorial, os participantes defenderam que a literatura produzida fora dos grandes centros editoriais deixa de ser apenas entretenimento para se tornar uma ferramenta de construção de identidade, ampliação de repertório e formação de pensamento crítico. Ao descolonizar as estantes, essas obras também ampliam as possibilidades de imaginar o mundo e compreender a pluralidade de histórias que existem para além dos circuitos tradicionais de publicação.



