Lia Santos faz da fotografia um território de ancestralidade, cuidado e presença
Com o LAPSO, a fotografia se transforma em um rito vivo de memória, ancestralidade e presença
Por Júlia Clarindo
Por muito tempo, a fotografia ocidental serviu à lógica da posse e da captura: enquadrar e fixar a imagem do outro, com a câmera a serviço de quem detinha o poder de nomear o mundo. Essa herança colonial transformou o corpo negro em objeto de um olhar alheio, mapeado e arquivado por quem estava do lado de fora da câmera. Diante desse legado, ganham corpo, no Brasil, práticas que recusam o vocabulário da posse visual e devolvem à imagem sua condição de experiência compartilhada, onde corpo, território e ancestralidade não se separam daquilo que se vê.
No Rio de Janeiro, essa disputa sobre quem tem o direito de contar a própria história tem um endereço: o Centro da cidade. É um lugar marcado pelas reformas do século passado, que empurraram a população negra para as margens. Hoje, suas ruas ainda abrigam pessoas negras ocupando o mesmo chão onde seus antepassados foram deixados para trás depois da abolição.
É desse encontro entre corpo e ancestralidade que nasce o trabalho de Lia Santos, diretora de arte do LAPSO, Laboratório de Imagem-Ritual. O coletivo, que agora comemora dez anos, reúne também Ana Cê, Mayombe Massai, Valéria Monã, Ana Magalhães e Layza Soares. Ao fotografar corpos negros, o LAPSO inverte a lógica colonial do enquadramento: quem organiza a cena, escolhe o gesto e autoriza a imagem é o próprio corpo retratado, assumindo o controle antes delegado à câmera. Essa inversão de autoridade transforma o trabalho do grupo em um exercício direto de memória territorial, transcendendo o registro estético.
Suas obras são lidas para além da superfície; elas conduzem o espectador a imergir e habitar o instante de forma sensorial. O corpo deixa de ser objeto para tornar-se uma tela viva, coberta de marcas, camadas e memórias herdadas. Essa distinção ocorre porque a ancestralidade rompe com a lógica linear, comunicando-se por meio de um tempo espiralar, no qual um gesto ritual do presente reencena, ao mesmo tempo, uma memória do passado e um projeto de futuro, sem que um cancele o outro.

J: O LAPSO propõe uma ruptura com a tradição ocidental, recusando uma visualidade que seja apartada do olfato, do tato e da sonoridade. Como o seu próprio corpo atua como a tecnologia principal para desestabilizar essa imagem colonial e fazer a imagem-ritual acontecer?
L: Acreditamos que a ruptura acontece quando entendemos que as experiências na cultura tradicional negra — no caso do LAPSO, especialmente na tradição cultural e religiosa do candomblé — não se restringem ao campo da visão, mas convocam todo o campo sensorial da/do artista à presença.
Durante o processo de criação de imagens no Laboratório, o modo como nos propomos a pensar e produzir arte envolve elementos que estimulam o olfato, o paladar, a escuta e o tato, para além da visão. Nesse sentido, entendemos que a arte visual ocidental é empobrecida, justamente por se restringir ao sentido da visão. Daí a presença de um certo invisível na arte visual, já que, durante o processo, nos envolvemos em experiências que acionam todo o campo sensorial.
Como diretora de arte do LAPSO — e acredito que também para os diretores de movimento Ana Cê, Mayombe Massai e Valéria Monã, já que discutimos esse tema em diferentes processos e ensaios —, nossos corpos não estão neutros no processo de criação de imagens. Ao contrário, por entendermos a fotografia como um ato político e de escolhas, é, primeiramente, o meu corpo que começa a habitar algum lugar entre o visível e o invisível, trazendo para o espaço-tempo elementos que exigem a minha presença incondicional.
Isso acontece porque o principal entendimento no LAPSO é o de que o corpo não está separado da natureza. É nisso que sinceramente acredito e é a partir daí que a minha arte se dá ao mundo.
J: Em suas pesquisas, você invoca intelectuais como Leda Maria Martins e Beatriz Nascimento para afirmar que “o invisível é parte fundante do visível”. Ao olhar para obras como Pássara dourada d’águas doces ou Elejigbô, sentimos que não há ali uma “representação”, mas sim uma “presença” assentada. O que exatamente separa uma simples fotografia de uma Imagem-Ritual?
L: Sim, para a nossa equipe é importante sairmos do campo da representação e mergulharmos no universo possível da apresentação, onde os fazeres artísticos bebem diretamente da cultura negra diaspórica e indígena.
L: Uma simples fotografia pode ser uma imagem-ritual, pois uma imagem-ritual faz questão de trabalhar no simples. A questão de ser ou não uma imagem-ritual não está no produto final, mas no processo no qual as pessoas envolvidas mergulharam.
Se pensarmos em produzir algo extraordinário, acredito que perdemos a presença corpórea, tiramos os pés do chão e, como implicação, nosso corpo esquece sua ligação incondicional com a natureza.
Quando entendemos que nosso corpo não é outra coisa senão o próprio rio, as folhas, os peixes, o vento… E também vice-versa: a terra, as sementes, as penas e o fogo, de alguma forma, somos nós. Quando digo isso, pode parecer distópico e fora da realidade. Mas esse modo de pensar é uma herança, está inscrito em mim, é empírico; é um modo de sentir, ser e estar no mundo pertencente a inúmeros povos.
Dona Leda Maria Martins fala de dois conceitos muito preciosos para nós, do LAPSO: o primeiro é o corpo-tela, que recebe inscrições de nossos ancestrais; o segundo é o tempo espiralar, no qual passado, presente e futuro se apresentam conectados no mesmo espaço.
Portanto, se entendemos que uma imagem toca esses pontos, mesmo que não tenha sido produzida pelos pesquisadores e criadores do LAPSO, ela também é, para nós, uma imagem-ritual, pois nos convida a refletir a partir desse lugar.

J: Há poucos dias, você lançou uma campanha para reaver equipamentos roubados há dois anos. Você disse que esse foi um tempo de escassez, mas também de aprender a “ver a vida além dos olhos”. Historicamente, as máquinas de registrar o mundo foram monopolizadas pela branquitude. O que significa, no corpo e na política, retomar essas ferramentas e insistir em contar as nossas próprias histórias?
L: Há dois anos, passei por uma situação de vulnerabilidade econômico-social e precisei viver algum tempo em situação de rua, no Centro da cidade do Rio de Janeiro.
O mais curioso é que, teoricamente, continuei no mesmo lugar onde sempre passei a minha vida inteira trabalhando, estudando etc. No entanto, eu não era mais vista. E, quando era vista, não era reconhecida. Foi nessa época que perdi todos os meus materiais de trabalho.
Nas ruas do Centro antigo do Rio há uma presença ancestral negra muito poderosa e, como tudo o que tem poder, precisamos ter respeito e cuidado. É o mesmo chão em que nossos ancestrais foram jogados e abandonados no período pós-abolição.
Eu já havia entendido, mas foi nesse momento que senti como o sistema é planejado para que a população negra seja, primeiramente, explorada, depois excluída e, por fim, morta.
Há uma perpetuação da ausência de políticas públicas que se estende desde a suposta abolição do trabalho forçado de pessoas negras e que mantém, ainda hoje, uma parcela significativa da população negra vivendo nas ruas das grandes capitais. Mas como lutar para contar nossa história por nós mesmas se a prioridade é comer, sobreviver?
A nossa grande tecnologia é saber continuar transmitindo conhecimentos por meio das diversas formas de aquilombamento, mesmo em situações adversas.
É preciso lutar para que todas, todos e todes possam ter acesso a políticas públicas redistributivas, para que possam desejar lutar por futuros, para que tenham a chance de permanecer vivas e vivos e consigam ver o mundo para além da luta pela sobrevivência.
É por esse motivo que estamos em uma campanha de financiamento coletivo, pois desejamos sustentar uma narrativa da nossa história que possua, além de estofo ancestral, uma tecnologia industrial de qualidade.
J: Você propõe o corpo como lugar de inscrição ancestral, mas também transforma a feitura da arte num espaço-tempo de cuidado e escuta. Numa sociedade que lucra consumindo a imagem da dor e da marginalidade preta e trans, como o seu trabalho constrói rotas de fuga em direção à realeza, à beleza e à dignidade?
L: O lugar de onde se escolhe uma obra para ser dita e vista como arte não é imparcial, tampouco neutro. É preciso que esse espaço político seja ocupado por pessoas negras, faveladas e de corpos, sexualidades e gêneros dissidentes.
O LAPSO entende a curadoria como parte do processo artístico, ainda que distinta dele. Saber falar, teorizar e fazer escolhas sobre lançar ou não luz sobre algo também faz parte do cuidado com quem produz arte.
A imagem historicamente produzida sobre as pessoas negras e LGBTQIAPN+ nos colocou em um lugar de dor, delinquência e exclusão. Enquanto uma pessoa trans negra, eu produzo a imagem de outra pessoa negra LGBTQIAPN+ partindo do princípio de que nossos corpos compartilham a mesma natureza. O processo de produção de imagem passa a ser banhado de cuidado: literalmente utilizamos os elementos da natureza como cura para nossos corpos enquanto fotografamos. O contato sensível com os materiais disponibilizados pelo Laboratório é um processo de cuidado, cura e criação.
É um momento de reparação histórica.
Quero agradecer a toda a equipe que, há dez anos, fez e faz o Laboratório de Imagem-Ritual acontecer: Ana Cê, direção de movimento; Ana Magalhães, direção musical; Layza Soares, direção de produção; Mayombe Massai, direção de movimento; e Valéria Monã, direção de movimento.
Mergulhar nas imagens de Lia antes de escrever estas linhas confirmou a sensação proposta por sua obra, que exige uma entrega integral a essa presença assentada. Em SENT(IR), essa premissa ganha novas dimensões, nas quais cada ambiente atua como travessia entre mundos e espelho do sagrado que nos constitui.
O roubo de todos os seus equipamentos de trabalho, há dois anos, impôs uma realidade violenta de vulnerabilidade, transformando o período de escassez em um tempo de recolhimento, no qual a artista precisou reaprender a ver a vida para além dos olhos. A campanha de financiamento coletivo recém-lançada na plataforma Benfeitoria surge, agora, como um gesto afirmativo de resistência e coragem.
Como o próprio coletivo ressalta, os meios de produção fotográfica foram historicamente monopolizados pela branquitude. Apoiar o recomeço do Laboratório de Imagem-Ritual é participar ativamente dessa disputa, assegurando que pessoas negras, originárias e periféricas tenham acesso a tecnologias de qualidade para continuar contando suas próprias histórias em seus próprios termos.



