Imagem: Divulgação

“Domávamos a ideia de morrer a todo instante. A morte não era mais uma coisa distante e abstrata, tinha face comum do cotidiano. Viver com essa lucidez acabava destruindo a parte da infância dentro da gente”.

Ler o “Meu pequeno país”, livro de Gaël Faye foi uma grande surpresa, principalmente por me instigar a curiosidade de conhecer mais sobre a história de Ruanda e do escritor.

O livro que marca a estreia do autor, que também é o nome de uma de suas músicas, foi publicado em 2018, pela editora Rádio Londres, com tradução de Maria de Fátima Oliva do Coutto.

Fui pesquisar sobre Gaël, que, além de escritor, é rapper, e é impossível não ver sua história sendo contada em seu livro. Apesar disso, o escritor afirma que a narrativa não é sobre ele. 

O livro conta a história do genocídio em Ruanda, que deixou mais de 800 mil mortos, em sua maioria homens, pelo olhar de um garoto chamado Gabriel, que tem mais ou menos 10 anos, é filho de pai francês, de mãe ruandesa e irmão de Ana. E mora em Bujumbura.

Os pais de Gabriel tentam a todo custo preservar o filho do caos político em que vive o país. Evitam conversar sobre o assunto na frente dele, atender telefonemas e levá-lo para qualquer ocasião que tenha relação com a política.

Além de lidar com a guerra e o genocídio que estava prestes a ocorrer, Gabriel tinha que lidar com a separação de seus pais.

Duas coisas me chamaram mais a atenção no livro. A primeira é o processo evolutivo e de tomada de consciência do personagem principal. É envolvente e muito bonita a forma com que Gabriel vai tendo ciência do seu papel social, da luta coletiva, do que está ocorrendo em seu país e com seu povo. A desmistificação da “pureza da criança” nos prende em meio a uma das histórias mais cruéis contra um povo. 

A segunda é esse trecho: 

“Mais tarde, soube que era tradição tocar música clássica na rádio quando havia um golpe de Estado. No dia 28 de novembro de 1966, no golpe de Estado de Michel Micombero, tinha sido a Sonata para piano n 21 de Schubert; no dia 9 de novembro de 1976 no de Jean-Baptise Bagaza, a Sinfonia n 7 de Beethoven; e no dia 3 de setembro de 1987, no de Pierre Buyoya, O Bolero Opus 19 de Chopin. Naquele dia , 21 de outubro de 1993, tivemos direito ao Crepúsculo dos deuses, de Wagner”.

Fiquei instigada com o fato de ser a música clássica, esta culturalmente da elite branca, o anúncio do golpe de estado. Gaël Faye é um rapper. Este, faz da música preta e africana a forma de resistir ao massacre vivido pelo seu povo.

Je t’offrirai ma vie, à commencer par cette chanson

Curiosidades sobre Ruanda

Ruanda, país do leste africano, está sobrevivendo e se reconstruindo, assim como Gael. No país, negar o genocidio virou crime. Os genocidas foram punidos pelos tribunais especiais, chamados de Gacaca. Mais de 2 milhões de pessoas foram julgadas.

Com mais de 12 milhões de habitantes, Ruanda é um dos países mais igualitários para as mulheres. É o segundo na participação das mulheres na política. Tem baixa diferença salarial entre homens e mulheres. Mas ainda é um país com um baixo índice de desenvolvimento humano.

“A guerra, sem que se peça, sempre se encarrega de nos encontrar um inimigo. Eu, que desejava permanecer neutro, não pude. Tinha nascido com essa história. Ela corria em mim. Eu pertencia a ela”.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Ana Claudino

Eles odeiam gente como nós

Renata Souza

A cor da resistência

Colunista NINJA

Contra ataques, afirmamos o ENEM como instrumento de democracia

Colunista NINJA

MARIGHELLA, o roteiro

Agatha Íris

Mister Trans Brasil, seria o seu conceito de beleza embranquecido e normativo?

Laryssa Sampaio

Meu pequeno país: o genocídio e a guerra em Ruanda pelo olhar de Gabriel

Rachel Daniel

São Paulo é a Sodoma de nossos tempos, o gado da Bovespa o bezerro de ouro

Márcio Santilli

Semipresidencialismo é o centrão sempre com o poder na mão

Alexandre Araújo

Copo "meio cheio" não salva uma casa em chamas

Bruno Trezena

Eu não conhecia Bolsonaro

Márcio Santilli

Farsa bolsonarista na COP-26

Bancada Feminista do PSOL

Manifesto Juventude Negra Viva e Livre

Agatha Íris

Mister Trans Brasil, seria o seu conceito de beleza embranquecido e normativo?

Amanda Pellini

Criatividade e resistência. Entrevista com Fábio Miranda, criador do projeto Instituto Favela da Paz

Colunista NINJA

Leal, honesto, amoroso: "Marighella" evoca resistência, enche de tensão e faz chorar