Imagem via Companhia das Letras

Quem dedicaria um livro às amigas e amigos, psiquiatra, psicóloga e gatinhas? Pra mim, a resposta é bem nítida: quem vive numa grande cidade no século XXI, com um fascista no poder, em meio à pandemia e a uma crise existencial de cortar os pulsos.

“Conheci” Bruna Maia através do seu perfil no instagram, @estarmorta. Suas ilustrações sempre provocantes nos levam a questionarmos, através do humor, o nosso cotidiano. Segundo pesquisa realizada pelo blog Aparelho Elétrico, 40% dos ilustradores e designers freelancers do Brasil são mulheres.

Ler o “Parece que Piorou – crônicas do cansaço existencial”, livro de Bruna Maia, foi um necessário tapa na cara. Um choque de realidade. Foi se reconhecer e não acreditar que você é aquilo descrito nas ilustrações ou que você passou por aquilo. É a mais pura leitura da realidade da classe média brasileira traduzida em imagens que nos fazem rir da nossa própria desgraça.

Em 2020, pela editora Companhia das Letras, ela publicou o livro que virou uma espécie de “Minutos de Sabedoria” para mim. Todos os dias eu abro alguma página de forma aleatória e leio a ilustração. Ali, vejo o que não posso repetir, como eu quero não viver e rio do modo “on” das brasileiras e brasileiros.

Duas coisas me chamaram mais atenção na obra.

Uma delas é o paniquinho! Ele é uma espécie de fantasma que vive na sua cabeça e alimenta todos os seus piores sentimentos e inseguranças. Esse personagem é o nosso choque de realidade. 

“Toda panela tem sua tampa. Mas você pode ser uma frigideira”, fala o paniquinho.

“Você vai trabalhar duro, sempre mantendo a modéstia. Vai chegar em casa e se orgulhar de realizar as tarefas exaustivas ou se frustrar por não dar conta delas. E vai enriquecer muitos executivos”, paniquinho. 

Ele é o personagem que mais entende a realidade do consumo e as expectativas criadas pelo capitalismo cruel. Com frases diretas, ele nos faz entrar cotidianamente em contato com esse ciclo vicioso da busca pela perfeição e a não aceitação de como nós somos. Pior, ele nos traz de volta, SEMPRE – sim, ele nos deixa viajar no mundo perfeito –  para a realidade de exploração e do “nunca será o que o mercado te vende como ideal”. 

Criei uma espécie de afeto por ele e isso é bem estranho. 

A segunda é que Bruna fala de um tema tabu na nossa sociedade: a sexualidade das mulheres. A ilustradora trata da sexualidade em muitas esferas, desde o relacionamento com parceiros até a descoberta dos nossos prazeres. Destrói o amor romântico construído pelo capitalismo.

Os homens heteros e cis deveriam ler e ver como eles são patéticos. Vai que muda alguma coisa, né?!

Já conversei sobre o “Parece que piorou” com meu terapeuta. Já presenteei amigas. Ele é necessário! 

Esse é um convite também para você deixar de consumir o que está posto, e conhecer esse Brasil cheio de mulheres ilustradoras, cartunistas e escritoras fazendo arte e conquistando mais espaços.

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