Imagem: Divulgação

Não tinha nem pensado em ler “Tem que vigorar!”. Confesso que tinha criado uma certa aversão. Pensei que “deve ser mais um desses livros que alguém escreve para outra pessoa, ‘ghost writer’.

Mas lá estava eu, comprando um lápis e apontador na livraria, quando, já no caixa, me virei para ver se não tinha esquecido de algo e vi Gil do Vigor olhando para mim com aqueles olhos esbugalhados, abrindo desesperadamente a roupa como se algo o sufocasse e uma mensagem meio Augusto Curi: “Como me aceitei, venci na vida e realizei meus sonhos”. 

Foi impossível resistir a essas palavras em meio a uma pandemia. Li um livro de entretenimento de uma das figuras mais populares deste ano. Lascou!

De antemão, aviso que tem spoiler e que não vou entrar na discussão de se é ou não um ghost writer.

Publicado pela Globo Livros, ele é um livro curto, com 125 páginas no total. Tem letras grandes e fotos. É de fácil leitura e cativante. Em uma, duas horas você termina.

Gilberto José Nogueira Junior começa contando que não teve momentos felizes na sua infância. Ela teria sido marcada por “problemas, dor, sofrimento e fome”. A história de vida do Gil, como ele mesmo diz, se assemelha a de muitos brasileiros. Essa percepção fala muito sobre ele e está presente em todo o livro.

Nascido em Pernambuco, em Jaboatão de Guararapes, ele teve, como muitas pessoas que moram e nascem nas periferias ou em cidades paupérrimas, uma vida marcada pela busca do viver. 

Em alguns momentos, Gil passa a palavra para sua mãe, quando ela relata todo o sofrimento e a luta para que seus filhos pudessem tentar “ser alguém na vida”. Dona Jacira, que sofria violência doméstica mesmo quando estava separada, chegou a se prostituir para garantir o pão na mesa.

No livro também conseguimos encontrar alguns trechos transcritos do BBB e algumas histórias já contadas em programas de televisão. Pode parecer repetitivo, mas como acabei de ler no instagram do meu amigo Fábio Mariano: “Quando você não conta sua própria história, acaba se tornando a história de alguém”.

O livro traz uma questão muito importante e atual que é o papel das igrejas na vida do povo. Estamos sempre tentando entender como elas conseguem ser tão fortes e tornar as pessoas pregadoras de sua palavra. Gil traz no livro apontamentos de como isso é feito. Me chamaram a atenção duas coisas. A primeira, é a igreja que distribui comida. Assistencialista. Era lá a que a família dele recorria quando sentia, literalmente, fome. A segunda, foi transformar o pior dia da semana de Gil, o domingo, no melhor. Domingo era o dia em que seu pai bebia e voltava para casa violento. E a igreja conseguiu ressignificar esse dia da semana.

Tentaram dizer que ele não era preto a vida toda. Até quando estava no BBB. Gil grita no livro: “Sou bicha. Sou preto. Sou nordestino.” 

Ele conta que esse processo de entendimento de que é preto veio através da obra da maravilhosa Bianca Santana, Quando me descobri negra. 

Uma das coisas mais interessantes do livro é que Gilberto é um defensor da educação como instrumento transformador e de poder que deve ser universal e ao qual todos devem ter acesso e direito. Ele critica os cortes do governo atual. E tem consciência de que ele é uma agulha no palheiro e que sua “vitória” não é de praxe, é exceção. 

Vale ler o livro do Gil para aquecer o coração, entender que a vida não é esse azul que tentam pintar para gente e que a transformação não pode ser só individual.

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