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           Vasto Mundo.. *

Foto: Reprodução / Twitter

A guerra fria está sendo requentada no mundo e já está sendo servida pelos meios de comunicação -fast-food- em todo o planeta.

Esta guerra é emoldurada por uma estratégia geopolítica planejada e que vem sendo executada passo a passo, milimetricamente, desde a queda do muro de Berlim. Esta estratégia tem como ponto de partida a perda da influência global dos EEUU e do Ocidente e o objetivo principal é evitar que o mundo evolua para uma globalização policêntrica e que venha a ter a China como a maior potência econômica e a mais influente do planeta.

A Ucrânia e a Rússia são peças – peão e torre- no tabuleiro desse xadrez geopolítico. Escaramuças e expressão de um conflito bem maior.

Para restabelecer o clima de guerra fria será preciso interromper o atual distensionamento das relações internacionais e recriar artificialmente o clima da possibilidade de uma guerra global.

Nesta estratégia de remilitarizar as relações geopolíticas, vai ser precisam recriar um mundo sombrio, dark.
Um mundo com “fronteiras” rígidas, sustentado pela intolerância ideológica, por dogmas religiosos e pelo obscurantismo intelectual.. A guerra cultural é central nesta estratégia retrô.

Já estamos vivendo um dirigismo da informação mundial, principalmente na Europa, visando reorientar a sensibilidade e criar uma opinião pública que aceite o ódio, a rejeição sem pensar, que se deixe manipular e que substitua a busca da lucidez e da razoabilidade por um automatismo primário tipo o bem contra mal. Para isso é preciso restringir ao máximo o componente crítico, o debate, o direito à informação e a liberdade de opinião.

Tudo será e já está sendo feito para angariar a adesão massiva à esta militarização das relações globais, exatamente como era no período da guerra fria. Para interromper os fluxos de cooperação e integração econômica estão fazendo um esforço enorme para interromper as principais fontes de fornecimento de gás, combustíveis e alimentos vindo da Rússia. Além de punir a Rússia com sanções econômicas, querem interromper a cooperação econômica e a interdependência vivida atualmente em todos os planos das relações internacionais, particularmente nesta região.

As relações internacionais globalizadas, bem ou mal, mesmo excluindo parte da humanidade, vem produzindo um ambiente de cooperação e de interdependência econômica por sobre as fronteiras políticas e ideológicas.

Esse ambiente distensionado vem ampliando a interdependência econômica e em outros planos e tem exposto os limites e a perda de vitalidade da economia capitalista ocidental, que vive uma crise que se arrasta sem uma solução definitiva por décadas, acirrando um processo de crescente desvantagem comparativa com a economia chinesa.

O establishment norte americano, como era de se esperar, vem sondando e tateando o caminho para enfrentar essa essa perda de primazia, que aos olhos de muitos a decadência já é irreversível e inexorável. Trump tentou trazer de volta para dentro dos EEUU a parte da economia que tinha se mudado para a China e outras partes do mundo em busca de melhores condições. E investiu em fazer surgir em todo o mundo uma internacional da extrema direita capaz de atropelar as democracias e impor a ferro e fogo uma estratégia baseada em por limites conservadores para o mundo contemporâneo e para fazer retroagir os avanços culturais e comportamentais e as liberdades conquistadas desde a década de 60 do século passado.

Seria no plano global, mais ou menos isso que estamos experimentando no Brasil: retrocessos nas práticas democráticas, enfraquecimento do Estado nacional e desregulamentação da atividade econômica, nos direitos trabalhistas, na não aceitação dos limites impostos pela crise ambiental; guerra cultural, ódio, intolerância, rejeição às diferenças humanas e aceitação da desigualdade social como natural, na legitimação do salve-se quem puder etc.

Esta estratégia não está morta e sepultada e o possível fracasso político do atual governo dos EEUU poderá aprofundar a crise da democracia norte-americana e promover a volta de Trump e tudo que ele representa.

Já os democratas, sob o comando de Biden, estão tentando encontrar o ponto de inflexão, para evitar a decadência anunciada e para não perder a corrida com a China, mantendo no plano interno os princípios da democracia liberal e mantendo todo o glamour cultural de liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, acirrando o velho e desgastado papel de xerife do mundo e toda a política do império na relação com os demais países. Conquistar, se necessário, através da força, dividendos econômicos e geopolíticos nos quatros cantos do mundo, como sempre fizeram, acompanhada de uma poderosa estratégia de comunicação e propaganda e uma avassaladora arregimentação da opinião pública em torno de uma fantasiosa luta do bem contra o mal.

E, muito mais agressivo neste aspecto do que Trump, promover a reativação do clima de guerra fria para conter o atual processo de decadência e perda de hegemonia norte-americana.

Para restabelecer o clima de guerra fria é preciso um teatro de guerra real, localizada, como foi a guerra da Coréia e a do Vietnam. Senão, ninguém leva a sério.

Desde a queda do muro de Berlim, o Ocidente vem instalando bases e mísseis e cercando a Rússia de ameaças militares. A Rússia vem reagindo diplomaticamente e também interferindo pela força nos países vizinhos.

A Chechênia que o diga…Putin vem avisando por mais de uma década que essa arregimentação de países fronteiriços para a OTAN e a instalação de bases e ogivas em suas fronteiras era inaceitável.

A Ucrânia na OTAN foi a isca jogada para Putin reagir militarmente e para o restabelecimento da guerra fria. A partir da invasão da Ucrânia pelas tropas russas, tudo parece se encaixar na estratégia dos EEUU e da OTAN.

Os EEUU e seus aliados da OTAN não vêm demonstrando interesse em por fim a esse conflito. Quanto mais vítimas civis, bombardeio de cidades e as supostas atrocidades das tropas russas, a dor das populações civis que qualquer guerra produz, melhor para os objetivos de sensibilização da opinião pública mundial para apoiar uma posição do Ocidente.

Querem a militarização da Ucrânia ao extremo, como um caminho sem retorno.

O mundo ainda lembra da reação norte-americana quando os soviéticos instalaram bases militares e mísseis em Cuba. Uma situação semelhante, só que invertida.

A escalada de guerra e a possibilidade de ampliação não é, nem nunca foi inevitável.

Se houvesse a aceitação de uma globalização multipolar, inclusiva para toda a humanidade, incorporando as periferias do mundo, Ámerica Latina, África, Oriente Médio e todos os deserdados da terra. Se a ideia fosse direcionar a interdependência para uma economia global onde todos pudessem ganhar, teríamos chances de ampliar a cooperação e a construção de um mundo melhor, de paz, de justiça social e sustentabilidade do planeta.

Mas os impérios não costumam aceitar a decadência com tranquilidade e resignação. São como feras feridas..Os movimentos geopolíticos dos principais protagonistas, dos dois lados da guerra, poderiam estar caminhando pela diplomacia e para o fortalecimento da paz e da cooperação internacional.

Existe sim, a possibilidade da perda de controle desse jogo geopolítico perigoso e de uma generalização do conflito militar.

A entrada da Suécia e da Finlândia no tratado militar é só mais um passo para a consolidação da guerra fria e que aumenta muito o perigo da situação fugir do controle. Como reagirá a Rússia diante desse aperto no garrote?

A Europa neste momento está completamente submetida à estratégia americana e paradoxalmente, serão os maiores prejudicados depois da Ucrânia, por essa estratégia de acirrar o conflito através da militarização do ambiente internacional e pela desmontagem da infra estrutura de cooperação econômica entreva Rússia e a Europa.

Mas, o mundo inteiro está ameaçado, considerando que as armas já existentes são suficientes para destruir várias vezes o planeta Terra.

Quais serão os reflexos e o que vai acontecer na América Latina? Quais as consequências dessas mudanças globais por aqui?
Viraremos um quintal definitivo? Ou experimentaremos pela primeira vez na história uma relação de respeito com os EEUU? Nossas democracias vicejarão, ou serão sufocadas mais uma vez?

Precisamos encarar essa realidade e é hora de prestarmos muita atenção no que dizem os estudiosos e especialistas nesses processos globais complexos que determinam as conjunturas mundiais e o futuro da humanidade inteira. O Brasil não está localizado no vácuo..

Lula, uma vez eleito, poderá representar a voz da razão, expressar os interesses da humanidade pela paz, pela convivência e aceitação da diversidade humana, pela justiça e igualdade social e pela sustentabilidade do planeta.

Essa situação internacional só aumenta a importância da reconquista do caminho democrático no Brasil e o significado da eleição de Lula em outubro.

* trecho do Poema de Sete Faces, de Drummond de Andrade.

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