Ficou bem claro, neste domingo, que Bolsonaro está buscando o confronto e a radicalização como o único caminho para se salvar politicamente e tentar esconder o fracasso do seu governo.

A intenção explícita, ao participar de uma manifestação favorável a um golpe militar e um novo AI -5, com fechamento do Congresso e do STF, é radicalizar a crise política e se confrontar com todo o sistema político e instituições da República para reverter a sua atual tendência de perda de significado político e de isolamento.

E, assim, por um caminho transverso, Bolsonaro espera ganhar legitimidade para exercer o mando do país de forma autoritária. Sonha com uma nova ditadura.

Bolsonaro chegou a uma situação de perda das condições políticas mínimas para governar. E, com essa estratégia de tudo ou nada, vai dinamitando as pontes e criando uma situação de não retorno. Já não se vislumbra a possibilidade de vir a construir um ambiente de diálogo ou de vir a estabelecer um mínimo de entendimento com outras forças políticas e com representantes significativos da sociedade.

Essa sua resposta à crise era de se esperar. A extrema-direita não costuma recuar, nem negociar. A tendência universal é quase sempre, como um reflexo, reagir feito rinoceronte que baixa a cabeça e corre em direção ao alvo para destrui-lo com a força bruta.

Bolsonaro tem apoio na sociedade, o que faz da sua remoção antes de 2022 uma operação de risco e ao, mesmo tempo, a sua permanência no governo é uma ameaça ainda maior para o país.

A existência dessa força social residual, que se identifica com o projeto autoritário da extrema-direita e rejeita a democracia está satisfeita com a desigualdade social. Na expectativa de uma saída autoritária para o país, esse grupo acaba produzindo a degradação cotidiana dos processos da democracia representativa. É como uma energia cáustica a corroer o tempo inteiro a convivência entre os que pensam diferente, inviabilizando as normas e ritos dos regimes democráticos.

A intolerância política e o ódio sincero dos que não conseguem conviver com outros pontos de vista e negociar com diferentes projetos políticos são incompatíveis com a democracia.

Essa base social do autoritarismo alimenta a crise política e se mostra inabalável no seu desprezo pela vida democrática. É preciso que seja dito e considerado por todos os demais brasileiros e brasileiras que esse projeto é incompatível com a democracia e, por isso, é necessário isolá-lo e reduzi-lo ao mínimo possível.

A maior dificuldade que teremos, em curto prazo, é o fato de que a cultura democrática na nossa sociedade é muito frágil, superficial, pouco enraizada. Não é por acaso que a democracia nunca se estabilizou no Brasil.

O ódio é o sentimento mais representativo dessa parcela da sociedade. É o que os une. O ódio e do medo da vida e das liberdades que a humanidade conquistou em sua trajetória. Esse é o subtexto desse projeto autoritário.

Do impasse político, emerge a falta de direção para o país. Essa crise está se tornando, em si, um obstáculo de difícil solução para enfrentarmos os grandes problemas que afligem nossa sociedade.

Para o bem do Brasil, a inércia precisa ser rompida. Mesmo com o aprofundamento da crise política e com o desgaste do governo, com a pandemia entrando em sua fase mais aguda e, ainda, para piorar, com o agravamento da crise econômica e a chegada de nova recessão, com tudo isso, algum apoio ao governo e a Bolsonaro tende a permanecer.

Tudo indica que, sem uma ação política eficiente e incisiva, a tendência é esse apoio ir caindo gota a gota, homeopaticamente, lento o suficiente para manter a crise e o impasse atual durante muito tempo. Muito mais do que o país pode suportar.

A primeira reação a esta crise dentro das hostes governamentais foi montar um governo paralelo, quase secreto, com generais dentro do próprio Palácio do Planalto, enquanto a base de apoio está sendo mobilizada por Bolsonaro, seus filhos, e pela extrema-direita organizada para o confronto.

Do lado da sociedade e da oposição, começam os sinais de disposição de livrar o país das loucuras de Bolsonaro e de seu governo destrutivo. Está surgindo a possibilidade de construção de um cenário político que encontre uma saída para o atual impasse.

Na prática, já está se constituindo uma grande frente política no Brasil, que vai da centro-direita até a esquerda.

Esse conjunto diverso terá que desenvolver uma inteligência comum nos jogadores de xadrez para isolar a extrema-direita, costurar essa frente, definir e pactuar claramente os passos a serem dados, manter a sociedade informada, mobilizada, consciente e participando de todas as etapas dessa difícil empreitada democrática.

Ainda temos algumas incógnitas importantes: qual será a posição das Forças Armadas? Como as elites economicamente mais poderosas irão se comportar diante do agravamento da crise? Retirarão o apoio ou continuarão dando sustentação ao projeto neoliberal-autoritário? E os poderosos aliados internacionais de Bolsonaro e do seu governo, o que farão?

Tudo isso tende a ficar mais claro nos próximos meses, com a evolução da conjuntura e o desenrolar dos fatos. A resultante dessa crise é de difícil previsão porque será fruto de muitas variáveis. Para o futuro do Brasil e para a vida do povo brasileiro é fundamental e decisiva a escolha pela retomada da plenitude democrática do país.

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