Existem, ainda dentro da esquerda militante, algumas pessoas que veem no Covid-19 a chegada de uma espécie de justiça divina que vai nos demonstrar a vulnerabilidade de todas as classes sociais, sem distinção. Alguns acreditam que a doença nos fará refletir de forma global e coletiva sobre quão injusto e inequitativo é o nosso sistema capitalista hoje. De forma direta e indireta, tem quem acredite que as classes dominantes farão um “mea culpa” ao ver quão banal é a sua cobiça e seus empenhos de acumulação de capital. Muitos, se pensa, terão um sentido mais profundo da existência e de quão efêmero é esse nosso passo pela vida.

Nada poderia ser mais superficial e errado.

A pandemia, que se espalha e se agiganta sem controle pelo mundo, vai desvendar as entranhas de um sistema desigual, globalizado e segregador. Mais do que nunca teremos relatos descarnados da natureza individualista que tomou conta da nossa sociedade. E, em qualquer parte do mundo, será a condição social e de classe de cada pessoa o que vai fazer diferença na hora de lidar com as vicissitudes que o vírus vai causar na nossa vida social.

Dentro da área da microssociologia, poderíamos dizer que para quem mora nos centros urbanos, chegar num hospital será uma coisa incomparavelmente mais simples do que será para os moradores dos bairros periféricos e das favelas. Enquanto os que tiverem carros poderão dispor do mínimo conforto e agilidade, as classes populares terão que se arriscar em continuar a andar de ônibus, metrô e outros tipos de transportes públicos. E os motoristas de ônibus? Será que conheceremos todas as histórias de motoristas de ônibus e uber que vão arriscar suas vidas para cumprir seu serviço? Saberemos daqueles que contraíram a doença porque foram obrigados a trabalhar, por imposição da empresa ou por necessidade, e mesmo com o resto da população em quarentena? Não duvido das incontáveis vezes em que, entre as classes populares, os carros serão compartilhados para ajudar um vizinho, um familiar, um amigo, que vai precisar urgente de uma ajuda, de uma carona até um posto de saúde. Enquanto outras famílias terão carros sem usar, na escuridão das garagens.

Os idosos de favela, que moram sozinhos e que têm uma previdência insuficiente, também dependerão da solidariedade dos seus vizinhos. Já os de classe alta, como sabemos de um caso que aconteceu no Rio de Janeiro, vão obrigar a suas empregades a trabalhar para eles, mesmo com risco de contágio. Em outros casos, saberemos de faxineiras que tiveram que ir trabalhar porque seu salário é proporcional à quantidade de vezes que assistem ao serviço. Os enfermeiros, o resto dos trabalhadores do transporte público, as trabalhadoras sexuais, os caixas dos supermercados, o que será dessas pessoas? Qual é a decisão correta de uma trabalhadora sexual que paga seu aluguel com cada programa que realiza? Deve parar de trabalhar e ficar em potencial situação de rua? Ou continuar trabalhando com risco de contágio para ela, seus possíveis filhos e o resto da sua família?

Como podemos comparar a forma pela qual a pandemia vai cair sobre a vida dessas pessoas, como a forma pela qual vai fazê-lo na dos que têm o privilégio de se resguardar, trabalhar de casa e entrar na quarentena? O estado não deveria estar tomando hoje ações que contemplem todas essas situações que envolvem cidadãos que pagam impostos tanto quanto o resto?

As condições de higiene também serão diferentes para os diferentes grupos sociais. Enquanto a classe média e média alta desabastece os supermercados de álcool em gel e passa os produtos frentes aos trabalhadores do caixa, que não ganham o suficiente para encher os carrinhos desse jeito, os marginalizados saberão compartilhar esse produto de forma altruísta. Ou vão demonstrar a eficácia do sabão e do bom senso. As ambulâncias chegarão com mais facilidade em alguns bairros, sabendo que os modelos dos veículos utilizados para esse serviço e a tecnologia com que estarão equipados vai variar, mais uma vez sim, segundo a classe social do paciente. Nas casas pequenas, das pessoas com salários pequenos, como serão os cuidados de higiene a ser tomados caso algum dos que moram ali contraiam a doença? Imagina a diferença de uma família que dispõe de um quarto para cada um dos que moram na casa, e que assim poderiam isolar o seu familiar doente, com a situação de quem compartilha, às vezes, até uma única sala para todos os parentes? Aqueles que são contrários à despenalização do aborto, o que pensam hoje de um sistema de saúde insuficiente para atender as grávidas de baixa renda que vão precisar de atendimento imediato caso sejam contagiadas? Se importam hoje com a vida desses embriões? Vão pedir ao governo medidas urgentes para assistir essas mulheres?

Com uma população pobre precisando de uma cobertura de saúde digna, quem poderá perdoar os pastores evangélicos milionários que vão preservar escondidas suas fortunas durante o decorrer de toda a pandemia? Que tipo de leitura teológica do novo testamento é essa? 0,7% da população do mundo detém quase que o 50% da riqueza total do planeta. Será que realmente o vírus terá a mesma incidência na vida dessas pessoas do que o terá no povo mais marginal e excluído? Como essa sociedade irá justificar através do conceito de “meritocracia” todas as iniquidades sofridas pela população mais desfavorecida pelo  sistema?

Bernie Sanders é o candidato democrata à presidência que hoje defende a criação de um sistema único de saúde universal nos Estados Unidos. Por que não pensamos num sistema de saúde universal como um direito global? O que nos impede de tentar viralizar uma ação de conscientização para que qualquer cidadão no mundo possa ter acesso a um SUS?

Slavoj Zizek sinala o triste fenômeno de como a mídia está se mostrando preocupada mais com o que acontece nos mercados do que com as milhares de vítimas que a pandemia já fez. Os mortos pelo coronavírus são anônimos, mas os nomes das empresas prejudicadas e dos países que têm bolsas em queda, cada vez nos são mais familiares. Sem dúvidas teremos conhecimento de cada uma das pessoas famosas que foram contagiadas, porém pouco saberemos da massa ignota pela qual o sistema tem pouco interesse de fazer alguma coisa.

Alguns psicólogos sociais já avisam do trauma que ficará marcado na psique da geração do coronavírus que passar pela quarentena. Poucos enfatizam a diferença de intensidades entre as diferentes classes sociais que vão atravessar essa situação.

Não pequemos de um desaforado misticismo. O coronavírus não vai estabelecer uma “justiça divina”, não vai igualar as classes sociais ante a morte. Nem esperemos das classes privilegiadas uma “conscientização”. Eles não darão nenhum passo atrás na conservação dos seus privilégios.

A pandemia vai mostrar o caráter trágico das desigualdades sociais que caracterizam nossa sociedade contemporânea. Subvertamos sua força devastadora e usemos essa energia para nos afirmar no reclamo de direitos humanos universais como o direito à educação, a uma moradia digna, ao trabalho, a uma renda mínima e à saúde. Através da educação e da “conscientização”, poderemos fazer entender a toda a população da importância de políticas públicas, de um estado presente, de uma ideia global e transnacional de solidariedade. Mas nada disto nos será dado. Para alcançar esses objetivos precisamos em conjunto fazer tremer a estrutura do sistema ainda mais do que o Covid-19 o vem fazendo desde novembro de 2019.

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