Foto: Giuliano Salvatore

Eduardo Suplicy, com quase 79 anos, hoje é um dos pré-candidatos do PT para prefeito de São Paulo nas próximas eleições de outubro. Vale lembrar que Suplicy foi o primeiro candidato a prefeito pelo PT, também em São Paulo, em 1985, em uma eleição marcada pela retorno ao direito da população de eleger seu prefeito após 20 anos. A disputa foi entre Fernando Henrique Cardoso (PMDB), Jânio Quadros (PTB), Eduardo Suplicy (PT), entre outros. Aquela campanha será lembrada por um ato falho de FHC, que sentou na cadeira do então prefeito Mário Covas, antecipando uma possível vitória. Como resultado final FHC perdeu por pequena diferença para Jânio Quadros que logo declararia: “Estou desinfetando essa poltrona porque nádegas indevidas a usaram”. Eduardo Suplicy finalizou em terceiro lugar, com 827.563 votos e um percentual final de %19, 75. Luiza Erundina foi sua candidata a vice-prefeita.

Em janeiro de 2020, soubemos que Suplicy chamou Eliane Dias, advogada e empresária dos Racionais, para ser a candidata a prefeita e Suplicy ir como vice na chapa para a disputa eleitoral em outubro. Suplicy destacou o fato dela ser mulher, negra e de ter um histórico de luta para prevenir o racismo e promover a igualdade social entre mulheres e homens. Eliane acabou por recusar a proposta e por entender que seria melhor o partido se organizar com mais tempo para estimular mais mulheres de periferia a serem candidatas e disputar eleições.

Recentemente, Gleisi Hoffmann, presidenta nacional do PT declarou-se a favor de que sejam evitadas prévias para a definição do candidato a prefeito em São Paulo. Suplicy escreveu como resposta nas suas redes sociais: “Nos 40 anos de vida no PT, a experiência me mostrou que o intenso debate de ideias no processo democrático das prévias, previsto em nosso regimento, além de saudável, contribuiu para o fortalecimento do partido e nos levou a inúmeras vitórias”, completou em carta dirigida a Gleisi e publicada em seu perfil no Instagram. Recentemente o ex-presidente Lula anunciou-se favorável a uma candidatura do Haddad junto a Marta Suplicy como a chapa ideal do partido para disputar a prefeitura de SP. Haddad aparece nas pesquisas internas como o melhor nome para chegar num segundo turno na eleições e finalmente vencer.

No mês de janeiro de 2004, durante o governo do presidente Lula da Silva, foi sancionada a Lei 10.835, ou renda básica de cidadania, proposta por Suplicy e aprovada pelo Congresso. A lei estabelece que todos os brasileiros e estrangeiros residentes há pelo menos cinco anos no país devem receber um benefício monetário suficiente para atender às despesas mínimas com alimentação, educação e saúde. A renda básica tornou-se um ícone na trajetória do vereador. “Ela é uma renda suficiente para que todos possam prover suas necessidades vitais. Assim é que vamos reduzir as desigualdades no Brasil. É o direito de todas e de todos a participar da riqueza da nação”, escreveu recentemente nas suas redes sociais. “Nos EUA, em 1982, o Alasca adotou uma renda básica universal. Resultado: deixou de ser o mais desigual dentre os estados norte-americanos para se tornar um dos mais igualitários”.

Em entrevista, Suplicy comenta sobre a renda básica, sobre a juventude, Racionais, e a necessidade de um alinhamento da esquerda para as eleições de 2020. Confira:

Após mais de vinte anos, a renda básica segue sendo uma luta atual para você, como se encontra essa situação?

Brasil foi o primeiro país no mundo que aprovou uma lei nesse sentido, para que seja instituída, por etapas e a critério do poder executivo, começando pelos mais necessitados, como os beneficiários do “Bolsa Família” até que consigamos fazer dela um direito universal. Em 2019, na Câmara Municipal de São Paulo tivemos uma excelente audiência pública para tratar sobre o projeto de lei que o ex-prefeito Fernando Haddad encaminhou no último dia da sua gestão, em dezembro de 2016, para gradualmente instituir a implementação da renda básica na cidade de São Paulo.

A renda básica é a primeira chave que precisamos para reduzir definitivamente os níveis de desigualdade que existem no nosso país. Ela é hoje debatida em mais de 40 países ao redor do mundo. E não estamos falando só de países da periferia do sistema capitalista. Estamos falando de todos aqueles países, incluindo os do primeiro mundo que entenderam a importância que reduzir as brechas entre seus cidadãos, algo fundamental para construir uma harmonia e uma paz social sólida e permanente.

Durante toda sua carreira você teve um laço muito forte com a juventude, você percebe neles uma força política determinante?

Os jovens sempre têm enorme vontade de pensar, de conhecer e de tomar iniciativas. Eu acho muito bom e necessário ter interação com os jovens. Eles sempre têm afinidade e vontade de aprender as ideias de como melhorar o Brasil e o mundo. Como realizar justiça, fraternidade e solidariedade na nossa cidade (SP) e no nosso Brasil. A juventude sempre será a força motriz das grandes mudanças. Temos que seguir a direção que esses jovens estão tomando, ouvir suas inquietudes, pensar o porquê que estão pedindo o que estão pedindo. É um erro grave desse novo governo federal achar que você pode criar um dique para conter as reclamações das novas gerações. As novas gerações sempre serão as que nos marcam o rumo a seguir.

Você já foi visto em vários shows da banda Racionais e em outros festivais de rock e hip hop. O que poderia falar sobre isso?

Eu avalio que as canções de hip-hop e rap têm muito a nos ensinar porque elas transmitem exatamente o que os jovens de hoje, sobretudo nas áreas periféricas, sentem, e têm como ideais e objetivos. Acredito que seria difícil para eles se fazer ouvir de outra forma. A política tradicional só se aproxima daqueles lugares com fins proselitistas. Porém, nos shows de bandas como Racionais se respira um ar de fraternidade, é uma energia muito boa de ser experimentada. As letras são representativas das suas ansiedades, das carências e das vivências de toda uma classe social muito ampla no nosso país que sofre com a violência do Estado, com a estigmatização que se faz deles nas mídias e em outros setores conservadores. O hip hop, o rap e esses festivais, assim como outras expressões artísticas, têm sido para eles uma válvula de escape para essa história a que estavam destinados.

Como vê o futuro da esquerda nas próximas eleições?

É muito importante que os partidos progressistas e de esquerda venham a interagir, a se unir, na medida do possível, e até para essas próximas eleições, que cada um dos partidos: PT, PSOL, PCdoB, PDT e todos os outros do campo da esquerda progressista se alinhem para chegarmos unidos às próximas eleições. É necessária uma frente sólida, progressista e democrática. É a reclamação da sociedade hoje. De outro modo será muito difícil enfrentar a essa direita conservadora. É preciso uma revitalização das esquerdas, abrir os espaços cada vez mais.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Boaventura de Sousa Santos

A universidade pós-pandêmica

Juan Manuel P. Domínguez

“O lugar do artista é na luta”. Diálogos de quarentena com Rael

Renata Souza

Stonewall Inn.: orgulhar-se é transgredir

Cleidiana Ramos

O dia em que meu nariz me definiu como negra - notas sobre o racismo à brasileira

Gabriel RG

Netanyahu e a ânsia dos covardes por complacência

Erika Hilton

Um projeto mais assassino que o coronavírus

Márcio Santilli

Bolsonaro decide cooptar a base social do Lula para sobreviver ao impeachment

Gabriel RG

A substituição do monopólio da violência pelo monopólio da delinquência

André Barros

Bolsonaro evapora

Roger Cipó

Saber chorar nossos mortos e enfrentar o tempo que nos faz confusos. Por Hamilton Borges, liderança da Reaja ou será [email protected]

Juan Manuel P. Domínguez

O demônio branco esteve infiltrado nos protestos pela morte de George Floyd

Márcio Santilli

Ratos ficam nus e podem detonar Bolsonaro

Daniel Zen

E o cerco vai se fechando

Ana Júlia

A queda de Weintraub

Jandira Feghali

Rio às cegas